O mundo produz alimentos em volumes historicamente elevados e a factura internacional de importações alimentares atingiu um recorde de US$ 2,22 biliões em 2025. Ainda assim, 645 milhões de pessoas enfrentam fome e quase um terço da população mundial não dispõe de rendimento suficiente para custear uma alimentação saudável. No Dia Mundial da Alimentação, assinalado sob o lema «Inovar Hoje. Alimentar o Amanhã», a FAO coloca a produtividade, os preços, os custos logísticos e o acesso aos mercados no centro da transformação dos sistemas agroalimentares. Em Moçambique, a insegurança alimentar poderá afectar 1,84 milhão de pessoas em 46 distritos analisados até Março de 2027, evidenciando a importância económica da agricultura, do rendimento rural e da resiliência climática.

Questões-Chave:

  • US$ 2,22 biliões: Factura mundial de importações alimentares em 2025, um crescimento de 7,9% face ao ano anterior e um novo máximo histórico;
  • 645 milhões de pessoas: População mundial que enfrentou fome em 2025, equivalente a 7,8% do total, apesar da terceira redução anual consecutiva;
  • 2,69 mil milhões de pessoas: População sem capacidade económica para adquirir uma dieta saudável, representando 32,7% dos habitantes do planeta;
  • 4,28 dólares internacionais: Custo médio diário de uma dieta saudável, por pessoa, em 2025, medido em paridade do poder de compra;
  • 136 pontos: Índice de Preços Alimentares da FAO em Setembro de 2026, com uma subida homóloga de 5,8%;
  • 2,979 mil milhões de toneladas: Produção mundial de cereais prevista para 2026, a segunda maior colheita alguma vez registada, apesar de um recuo de 2,1% face a 2025;
  • US$ 12 biliões: Estimativa dos custos económicos, ambientais e sociais ocultos dos sistemas agroalimentares mundiais, segundo a avaliação estrutural da FAO publicada em 2024;
  • 1,84 milhão de pessoas: População projectada em situação de insegurança alimentar aguda elevada, entre Outubro de 2026 e Março de 2027, nos 46 distritos moçambicanos avaliados pela IPC.

O comércio internacional de alimentos atingiu um valor recorde, a produção agrícola mundial mantém-se próxima dos máximos históricos e os investimentos em tecnologia estão a transformar as cadeias agroalimentares. Porém, uma parcela expressiva da população mundial continua sem capacidade financeira para adquirir os alimentos necessários a uma dieta saudável.

É esta contradição que marca o Dia Mundial da Alimentação, celebrado esta sexta-feira, 16 de Outubro, quando a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) chama a atenção para a necessidade de inovar na produção, conservação, transformação e distribuição dos alimentos.

A data assinala a fundação da FAO, em 1945, e decorre este ano sob o lema Innovate Today. Nourish Tomorrow — «Inovar Hoje. Alimentar o Amanhã».

O tema surge num período em que a segurança alimentar se tornou uma questão central para as perspectivas económicas, num contexto de conflitos geopolíticos, riscos climáticos, aumento dos custos energéticos e pressões sobre o comércio internacional.

Os números revelam a dimensão do mercado e das dificuldades de acesso.

Segundo o relatório Food Outlook, divulgado em Junho, a factura mundial de importações alimentares aumentou 7,9% em 2025, alcançando US$ 2,22 biliões, o valor mais elevado de sempre.

Entretanto, o relatório The State of Food Security and Nutrition in the World 2026 (SOFI), publicado em Julho por cinco agências das Nações Unidas, estima que 645 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2025 e que 2,69 mil milhões não dispunham de recursos suficientes para adquirir uma dieta saudável.

O contraste evidencia uma característica fundamental da economia alimentar: o crescimento do comércio e da produção não assegura, por si só, que os alimentos cheguem aos consumidores em condições economicamente acessíveis.

Os preços, os rendimentos familiares, os custos de transporte, a capacidade de armazenamento, a eficiência dos mercados e a distribuição territorial da produção influenciam directamente a segurança alimentar.

A FAO estima que os custos associados às actividades posteriores à produção agrícola — incluindo processamento, logística, distribuição grossista e retalho — representem entre 70% e 75% do preço final pago pelos consumidores.

Consequentemente, uma parte importante das possibilidades de tornar os alimentos mais acessíveis encontra-se fora das explorações agrícolas, em actividades industriais, comerciais e logísticas que determinam o preço dos produtos nas prateleiras.

A realidade assume particular relevância nas economias africanas, onde a agricultura continua a empregar uma parcela elevada da população, mas a insuficiência de infra-estruturas, tecnologia e financiamento limita a produtividade e a eficiência das cadeias de valor.

Moçambique integra este contexto, com uma agricultura que permanece central na ocupação da população activa e no abastecimento alimentar, mas enfrenta perdas de produção provocadas por eventos climáticos, dificuldades de acesso aos mercados e limitações de rendimento nas famílias.

A mais recente avaliação da Classificação Integrada da Segurança Alimentar (IPC) projecta que, durante a época de escassez alimentar, entre Outubro de 2026 e Março de 2027, aproximadamente 1,84 milhão de pessoas nos distritos analisados poderão enfrentar condições de crise ou emergência alimentar.

O Dia Mundial da Alimentação coloca, assim, em evidência uma relação económica decisiva: a capacidade de produzir alimentos, o custo de os colocar no mercado e o rendimento disponível para os adquirir são dimensões inseparáveis da segurança alimentar.

Factura Mundial de Importações Alimentares Atinge Recorde de US$ 2,22 Biliões

O comércio internacional constitui uma das principais dimensões económicas da alimentação mundial.

Segundo a edição de Junho de 2026 do Food Outlook, a factura global de importações de produtos alimentares atingiu US$ 2,22 biliões em 2025, representando um aumento de 7,9% relativamente ao ano anterior.

O crescimento ocorreu apesar da redução dos custos internacionais de importação de alguns produtos, incluindo cereais, açúcar e oleaginosas.

A subida foi impulsionada sobretudo por alimentos de maior valor comercial, designadamente café, cacau, especiarias, produtos de origem animal, pescado, frutas e hortícolas.

A distribuição desta despesa revela diferenças importantes entre economias.

Os países de rendimento elevado representaram mais de dois terços da factura mundial de importações alimentares e registaram um aumento de 9,3% nas respectivas despesas.

Nas economias de rendimento baixo, a subida foi de 6,7%, enquanto nos países de rendimento médio-baixo atingiu 7,9%.

A concentração da despesa nas economias mais ricas reflecte a dimensão do seu poder de compra e a estrutura das importações, frequentemente orientadas para produtos de maior valor unitário.

Nas economias de menor rendimento, mesmo aumentos relativamente modestos dos custos de importação podem produzir efeitos significativos sobre as contas externas, as reservas cambiais e os preços internos.

A FAO observa que os riscos geopolíticos aumentam a exposição do comércio alimentar às oscilações dos preços da energia.

Em situações de elevada instabilidade internacional, a resposta da factura de importações alimentares a um choque petrolífero pode ser quase duas vezes superior à registada em condições normais.

O fenómeno resulta da combinação entre custos de transporte, seguros, alterações das rotas comerciais e prémios de risco.

Esta interdependência tornou-se particularmente visível em 2026, com as perturbações nas rotas marítimas do Médio Oriente e do Mar Negro.

O encarecimento dos combustíveis aumenta o custo da produção agrícola mecanizada, do transporte rodoviário e marítimo e da conservação dos alimentos.

Os efeitos podem atingir simultaneamente produtores, distribuidores e consumidores, especialmente nos países dependentes de importações alimentares.

Dieta Saudável Custa 4,28 Dólares Internacionais Por Dia, Mais 46% Que Em 2017

O custo de uma alimentação saudável constitui um dos indicadores mais relevantes para avaliar a segurança alimentar mundial.

Segundo o SOFI 2026, o custo médio de uma dieta saudável aumentou de 2,94 dólares internacionais por pessoa e por dia, em 2017, para 3,44 em 2021 e 4,28 em 2025.

A subida acumulada corresponde a aproximadamente 46% em oito anos.

Evolução do Custo Médio Mundial de Uma Dieta Saudável

Ano Custo por pessoa e por dia
20172,94
20213,44
20254,28

Dólares internacionais em paridade do poder de compra por pessoa e por dia.

Fonte: FAO, FIDA, UNICEF, PAM e OMS, SOFI 2026, publicado em Julho de 2026.

Estes valores são medidos em dólares internacionais ajustados pela paridade do poder de compra, permitindo comparar o custo de uma dieta nutricionalmente adequada entre países.

Não correspondem a uma despesa uniforme em dólares norte-americanos nem podem ser convertidos directamente para meticais utilizando a taxa de câmbio comercial.

O indicador mede o custo mínimo de uma combinação alimentar que satisfaça requisitos nutricionais, considerando os preços locais e o poder de compra.

O aumento reflecte mudanças nos custos dos diferentes grupos de alimentos e nas condições de produção e distribuição.

A FAO identifica os produtos de origem animal, as frutas e os vegetais como os principais responsáveis pelo custo de uma dieta saudável, representando conjuntamente quase 70% da despesa total.

Os alimentos ricos em amido, embora forneçam cerca de metade das calorias consideradas, representam aproximadamente um sexto do custo.

Esta diferença ajuda a explicar por que razão o acesso a calorias suficientes não corresponde necessariamente ao acesso a uma alimentação nutricionalmente adequada.

Uma família pode conseguir adquirir cereais e outros alimentos básicos, mas não dispor de rendimento suficiente para consumir regularmente frutas, vegetais, leguminosas e fontes diversificadas de proteínas.

A situação tem implicações para a saúde, o desenvolvimento infantil, a produtividade laboral e a formação de capital humano.

Apesar do encarecimento da dieta saudável, a proporção da população mundial sem capacidade económica para a adquirir diminuiu de 37,4% em 2021 para 32,7% em 2025.

A melhoria reflecte alterações na relação entre rendimentos e preços, embora permaneça insuficiente para assegurar o acesso universal.

Em termos absolutos, 2,69 mil milhões de pessoas continuavam sem capacidade para pagar uma dieta saudável em 2025, contra 2,97 mil milhões em 2021.

Em África, o indicador agravou-se, atingindo 66,6% da população em 2025.

O contraste mostra que a melhoria global pode coexistir com condições mais desfavoráveis em determinadas regiões, especialmente quando o crescimento dos rendimentos não acompanha o aumento dos preços dos alimentos nutritivos.

Produção Mundial Aproxima-se de Três Mil Milhões de Toneladas de Cereais

Os dados de produção demonstram que a dimensão da oferta alimentar mundial continua elevada.

A actualização mais recente da FAO, divulgada em 2 de Outubro, projecta uma colheita global de 2.979 milhões de toneladas de cereais em 2026, correspondente à segunda maior produção alguma vez registada.

O volume representa uma redução de aproximadamente 2,1% face ao máximo histórico de 2025.

As estimativas apontam para uma produção de trigo de cerca de 813,9 milhões de toneladas, enquanto outros cereais, incluindo milho e arroz, apresentam trajectórias diferenciadas em função das condições meteorológicas e dos custos de produção.

Apesar da descida projectada, a disponibilidade mundial de cereais permanece relativamente confortável em termos históricos, apoiada por níveis relevantes de existências acumuladas.

A FAO sublinha, contudo, que as condições globais de abastecimento não eliminam dificuldades regionais de acesso aos alimentos.

Uma colheita abundante numa região pode não compensar imediatamente perdas agrícolas noutra, sobretudo quando os custos de transporte, as restrições comerciais ou a falta de divisas condicionam as importações.

A situação demonstra a diferença entre disponibilidade física mundial e acessibilidade económica e geográfica.

A elevada produção global também coexiste com perdas significativas de alimentos antes da comercialização, reduzindo a quantidade efectiva que chega aos consumidores.

A distribuição internacional continua a depender de infra-estruturas portuárias, redes de transporte, instalações de armazenamento e sistemas comerciais capazes de assegurar fluxos regulares de abastecimento.

As alterações climáticas acrescentam riscos à estabilidade da produção.

A possibilidade de ocorrência de fenómenos associados ao El Niño, as secas prolongadas, as cheias e os ciclones podem reduzir colheitas e alterar os preços, especialmente em regiões com reduzida capacidade de irrigação e protecção dos rendimentos agrícolas.

Preços Alimentares Sobem 5,8% e Fertilizantes Enfrentam Perturbações Comerciais

O Índice de Preços Alimentares da FAO atingiu 136 pontos em Setembro de 2026, aumentando 1,5% relativamente a Agosto e 5,8% face a Setembro de 2025.

O indicador acompanha a evolução internacional dos preços de cinco grandes grupos de produtos: cereais, óleos vegetais, carne, lacticínios e açúcar.

A subida de Setembro foi impulsionada sobretudo pelos cereais, óleos vegetais e açúcar.

Preços Internacionais dos Alimentos — Setembro de 2026

Indicador Valor
Índice FAO (pontos)136,0
Variação homóloga+5,8%
Grupo de produtos Variação mensal
Cereais+5,1%
Açúcar+6,1%
Óleos vegetais+0,9%
Carne−1,1%
Lacticínios−0,1%

Fonte: FAO, Índice de Preços Alimentares, publicado em 2 de Outubro de 2026.

Apesar da recuperação dos preços, o índice permanecia 15,1% abaixo do máximo registado em Março de 2022.

A evolução indica que as matérias-primas alimentares continuam sensíveis às condições de produção, às perturbações comerciais e aos custos energéticos.

O indicador mede preços internacionais de referência e não corresponde directamente à inflação alimentar observada nos mercados retalhistas de cada país.

Os preços internos dependem também de impostos, margens comerciais, taxas de câmbio, custos de distribuição e condições de produção doméstica.

A indústria de fertilizantes representa outro factor de preocupação.

Segundo o Food Outlook de Junho, o comércio mundial de fertilizantes registou uma redução de aproximadamente 20% a 25% em volume entre Janeiro e Abril de 2026, comparativamente ao período homólogo.

As perturbações nas rotas de abastecimento, os custos energéticos e a evolução das condições geopolíticas afectaram particularmente os fertilizantes azotados e fosfatados.

O encarecimento ou a indisponibilidade destes produtos pode reduzir a sua utilização pelos agricultores, afectando os rendimentos das colheitas nas campanhas seguintes.

O problema tem maior incidência sobre produtores com limitações financeiras, para os quais os fertilizantes representam uma parcela importante do capital necessário à produção.

A estabilidade do abastecimento alimentar depende, portanto, também de mercados que não comercializam directamente alimentos, incluindo energia, fertilizantes, equipamentos e transportes.

Até 75% do Preço Pago Pelos Consumidores Está Associado às Actividades Posteriores à Produção

O relatório SOFI 2026 introduz uma dimensão particularmente importante para a análise económica da alimentação: a formação dos preços ao longo das cadeias de valor.

Segundo a FAO, entre 70% e 75% do preço final dos alimentos corresponde a actividades realizadas depois da produção agrícola.

Estas incluem processamento, embalagem, armazenamento, transporte, distribuição e comercialização.

Dentro dessa estrutura, as operações de processamento, logística e comércio grossista podem representar até 40% dos custos totais da cadeia.

A dimensão destes encargos demonstra que uma política destinada a tornar os alimentos mais acessíveis não pode concentrar-se exclusivamente no aumento da produção agrícola.

A redução dos custos de transporte, o desenvolvimento de cadeias de frio, a melhoria do armazenamento e a expansão da agro-indústria podem contribuir para reduzir os preços finais, particularmente dos produtos perecíveis.

O efeito tende a ser relevante para alimentos como frutas, vegetais, carne, pescado e produtos lácteos, cujas necessidades de conservação e distribuição acrescentam custos significativos.

A FAO identifica ainda um problema na distribuição dos apoios públicos ao sector.

Cerca de 70% do apoio agrícola mundial aos produtores está associado a grupos como cereais, açúcar, lacticínios, carne bovina e oleaginosas.

A organização recomenda uma avaliação da composição destes incentivos, de modo a estimular também a produção e a distribuição de alimentos nutritivos cujo custo continua elevado.

A reorganização dos investimentos agrícolas deverá considerar o desenvolvimento de infra-estruturas, investigação, irrigação, assistência técnica e mercados.

Esta abordagem associa a segurança alimentar à produtividade de todo o sistema económico, desde a exploração agrícola até ao consumo final.

Desperdício Alimentar Representa Mais de US$ 1 Bilião em Custos Anuais

O desperdício de alimentos acrescenta outra dimensão económica à situação mundial.

Segundo o Food Waste Index Report 2024, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), aproximadamente 1,05 mil milhões de toneladas de alimentos foram desperdiçadas em 2022 ao nível das famílias, serviços de alimentação e comércio retalhista.

Este volume representou cerca de 19% dos alimentos disponíveis para os consumidores.

A estimativa aponta para custos económicos superiores a US$ 1 bilião por ano.

O desperdício distribuiu-se entre os agregados familiares, responsáveis por aproximadamente 60%, os serviços de alimentação, com 28%, e o comércio retalhista, com 12%.

A montante, a FAO estima que cerca de 13% a 13,4% dos alimentos produzidos sejam perdidos depois da colheita e antes de chegarem ao retalho.

Os dois indicadores abrangem etapas diferentes das cadeias alimentares e utilizam bases de cálculo próprias, pelo que não devem ser simplesmente somados.

Além do valor comercial dos alimentos, estas perdas representam recursos produtivos utilizados sem gerar consumo final, incluindo terra, água, energia, fertilizantes, mão-de-obra e capital.

A redução do desperdício poderá contribuir para melhorar a disponibilidade de alimentos e diminuir os custos ambientais associados à produção.

Nos países em desenvolvimento, as perdas após a colheita estão frequentemente relacionadas com insuficiência de armazenagem, dificuldades de transporte, estradas inadequadas e falta de instalações de conservação.

O investimento nestas componentes pode aumentar a quantidade comercializada sem exigir uma expansão equivalente da área cultivada.

A melhoria da eficiência logística constitui, neste contexto, uma oportunidade económica para empresas de transporte, armazenamento, processamento e distribuição alimentar.

Sistemas Agroalimentares Empregam Quase 1,4 Mil Milhões de Pessoas

O peso económico da alimentação ultrapassa os mercados agrícolas e as despesas de consumo.

A produção, processamento, transporte, comercialização e distribuição de alimentos constituem uma das principais fontes de emprego mundial.

Segundo os indicadores de emprego da FAO, actualizados em Junho de 2026, quase 1,4 mil milhões de pessoas trabalhavam em sistemas agroalimentares em 2023.

Este conjunto abrangia aproximadamente 584 milhões de mulheres e 804 milhões de homens.

O indicador inclui trabalhadores agrícolas e pessoas empregadas noutras actividades relacionadas com os sistemas alimentares.

A organização observa que a estrutura do emprego varia significativamente entre regiões.

Em África e na Ásia, uma parcela importante dos trabalhadores permanece concentrada na produção agrícola.

Na Europa, nas Américas e na Oceânia, as actividades não agrícolas, incluindo processamento, distribuição e serviços, apresentam maior importância relativa.

A diferença reflecte distintos níveis de transformação produtiva e desenvolvimento das cadeias de valor.

A expansão da agro-indústria poderá, por isso, contribuir para criar oportunidades de emprego fora das explorações agrícolas, incluindo funções técnicas, serviços logísticos, manutenção industrial e comercialização.

A melhoria da produtividade agrícola também pode libertar recursos para outras actividades económicas, desde que existam oportunidades de emprego e mecanismos de formação profissional.

A FAO estima ainda que os sistemas agroalimentares gerem custos ocultos da ordem de US$ 12 biliões anuais, segundo a avaliação estrutural publicada no relatório The State of Food and Agriculture 2024.

Trata-se de uma valorização económica, expressa em unidades monetárias ajustadas pelo poder de compra, dos impactos associados à saúde, ao ambiente e às desigualdades sociais. Não corresponde a uma despesa orçamental anual nem à factura das importações alimentares.

Deste montante, aproximadamente US$ 8,1 biliões estão relacionados com efeitos negativos para a saúde decorrentes de padrões alimentares inadequados, incluindo doenças cardiovasculares e diabetes.

A avaliação demonstra que as consequências económicas da alimentação incluem despesas de saúde, perdas de produtividade, danos ambientais e custos sociais que não são totalmente reflectidos nos preços comerciais dos produtos.

África Concentra 309 Milhões de Pessoas Com Fome e Elevado Custo de Acesso aos Alimentos

A situação africana continua a contrastar com as melhorias observadas no indicador global da fome.

Segundo o SOFI 2026, aproximadamente 309 milhões de pessoas enfrentaram fome em África em 2025, correspondentes a cerca de 20% da população continental.

O indicador apresentou uma ligeira melhoria relativamente aos 20,3% registados em 2024, interrompendo uma trajectória prolongada de agravamento.

Apesar disso, África tornou-se a região com o maior número absoluto de pessoas afectadas pela fome, ultrapassando a Ásia, onde a estimativa se situou em cerca de 292 milhões.

A situação torna-se ainda mais preocupante quando analisada a capacidade financeira das famílias para adquirir dietas saudáveis.

Em 2025, 66,6% da população africana não dispunha de rendimento suficiente para custear uma alimentação saudável.

O indicador corresponde a aproximadamente dois em cada três habitantes do continente.

A FAO associa esta situação a uma combinação de baixos rendimentos, custos elevados dos alimentos nutritivos, infra-estruturas deficientes e limitações de produtividade.

A dependência das importações em determinados mercados aumenta também a exposição aos preços internacionais e às oscilações cambiais.

A melhoria da segurança alimentar exige, neste contexto, investimentos que articulem produção agrícola, desenvolvimento da indústria alimentar, redução de custos comerciais e aumento do rendimento das famílias.

A FAO antecipa que África poderá concentrar mais de metade das pessoas afectadas pela fome mundial até 2030, caso as trajectórias actuais não sejam substancialmente alteradas.

O crescimento demográfico acrescenta exigências à capacidade de expansão da produção, criação de emprego e melhoria das condições de acesso aos alimentos.

Moçambique Poderá Registar 1,84 Milhão de Pessoas em Insegurança Alimentar Aguda Até Março

Em Moçambique, o Dia Mundial da Alimentação decorre num contexto de recuperação económica limitada e de vulnerabilidade persistente das famílias a choques climáticos, conflitos e aumentos dos preços dos alimentos.

Segundo a análise da IPC divulgada em 9 de Setembro, aproximadamente 1,19 milhão de pessoas enfrentavam níveis elevados de insegurança alimentar aguda entre Julho e Setembro de 2026, nos 46 distritos analisados.

A situação deverá agravar-se durante a época de escassez alimentar, entre Outubro de 2026 e Março de 2027.

Para este período, a IPC projecta aproximadamente 1,84 milhão de pessoas em situação de crise ou emergência alimentar nos mesmos distritos, incluindo cerca de 254 mil em condições de emergência.

Moçambique — Evolução da Insegurança Alimentar Aguda

Período Pessoas em crise ou situação mais grave
Julho–Setembro 20261,19 milhão
Outubro 2026–Março 2027 (projecção para a época de escassez)1,84 milhão

Abrangência: 46 distritos analisados. Não representa uma estimativa da totalidade das pessoas em insegurança alimentar no País. Fonte: IPC, Setembro de 2026.

O agravamento projectado reflecte a combinação entre perda de colheitas, esgotamento das reservas alimentares familiares, deslocações provocadas pelo conflito e dificuldades de acesso aos mercados.

A avaliação destaca também os efeitos das cheias e dos ciclones registados no início de 2026, bem como os riscos associados a temperaturas elevadas e à eventual ocorrência de condições de seca ligadas ao El Niño.

A inflação alimentar, os custos de transporte e a redução do poder de compra constituem factores adicionais de vulnerabilidade.

A importância económica da situação torna-se evidente quando considerada a estrutura do emprego nacional.

Segundo as estimativas modeladas da Organização Internacional do Trabalho, disponibilizadas pelo Banco Mundial, aproximadamente 73% do emprego em Moçambique encontrava-se associado à agricultura em 2025.

Este indicador é distinto da participação da agricultura no PIB e demonstra a forte dependência das famílias relativamente aos rendimentos agrícolas.

Quando ocorrem perdas de produção, os efeitos podem atingir simultaneamente a disponibilidade de alimentos e o rendimento utilizado pelas famílias para adquirir outros produtos.

A redução da produção comercializada pode ainda afectar transportadores, comerciantes, fornecedores de factores de produção e pequenas unidades de transformação agroalimentar.

Por outro lado, o aumento dos preços alimentares reduz a parcela do rendimento disponível para outras despesas familiares, condicionando o consumo de bens e serviços.

A vulnerabilidade alimentar apresenta, portanto, implicações que ultrapassam a nutrição e alcançam a actividade económica, o emprego e a formação de capital humano.

Na véspera da efeméride, o Programa Alimentar Mundial anunciou um apoio de aproximadamente US$ 1,8 milhão do Governo do Japão, destinado a prestar assistência alimentar a 94 mil pessoas afectadas pelo conflito no Norte de Moçambique.

A contribuição constitui uma intervenção humanitária específica e não altera, por si só, a dimensão das necessidades identificadas pela IPC.

Inovação Agrícola Ganha Importância na Redução de Custos e na Transformação Produtiva

A escolha do lema «Inovar Hoje. Alimentar o Amanhã» traduz a importância atribuída pela FAO à ciência, tecnologia, financiamento e organização dos mercados na transformação dos sistemas agroalimentares.

A inovação abrange diferentes componentes da actividade económica.

Na produção, inclui sementes melhoradas, sistemas de irrigação, práticas agrícolas adaptadas às condições climáticas, informação meteorológica e assistência técnica.

No processamento, envolve tecnologias de conservação, transformação de matérias-primas e desenvolvimento de produtos de maior valor comercial.

Na distribuição, compreende armazenamento, cadeias de frio, plataformas de informação, soluções logísticas e mecanismos capazes de reduzir perdas e aproximar produtores de consumidores.

Os modelos de organização empresarial e cooperativa também integram esta abordagem, especialmente quando permitem que pequenos produtores participem em cadeias comerciais de maior escala.

Em Moçambique, a melhoria da produtividade agrícola poderá contribuir para aumentar a oferta alimentar, reduzir a dependência de determinadas importações e ampliar as oportunidades de rendimento rural.

A expansão da agro-indústria oferece igualmente possibilidades de desenvolvimento de empresas, criação de emprego e aproveitamento comercial da produção nacional.

Contudo, a adopção das tecnologias continua condicionada pelo acesso ao financiamento, disponibilidade de energia, infra-estruturas e capacidade técnica.

A integração entre produtores, instituições financeiras, centros de investigação e empresas industriais poderá facilitar o desenvolvimento de soluções adaptadas às condições nacionais.

A FAO considera que a inovação deverá combinar novas tecnologias com conhecimentos tradicionais, assegurando que pequenos produtores e comunidades rurais possam beneficiar dos investimentos.

Esta orientação atribui à segurança alimentar uma dimensão de transformação económica, associando produtividade, desenvolvimento empresarial, competitividade e sustentabilidade ambiental.

Segurança Alimentar Passa Pela Relação Entre Produção, Rendimentos e Preços

Os indicadores mundiais apresentados no Dia Mundial da Alimentação evidenciam uma economia alimentar de grande dimensão, mas marcada por desigualdades na distribuição dos benefícios.

A factura de importações atingiu US$ 2,22 biliões, a produção mundial de cereais mantém-se próxima dos máximos históricos e os sistemas agroalimentares empregam quase 1,4 mil milhões de pessoas.

Contudo, 645 milhões continuam a enfrentar fome e 2,69 mil milhões não dispõem de rendimento suficiente para uma dieta saudável.

O crescimento da produção e do comércio alimentar não elimina, portanto, as limitações associadas à pobreza, ao custo dos alimentos e à eficiência das cadeias de abastecimento.

A dimensão dos custos logísticos, as perdas após a colheita e o desperdício demonstram que existem oportunidades económicas relevantes para melhorar a utilização dos recursos já disponíveis.

Ao mesmo tempo, a volatilidade dos preços internacionais e a dependência de energia, fertilizantes e transportes aumentam a exposição dos mercados alimentares a choques externos.

Em África, o elevado custo de acesso a uma dieta saudável evidencia a importância de políticas que ampliem a produção, reduzam os custos comerciais e fortaleçam o rendimento das famílias.

Moçambique enfrenta estas questões num contexto em que a agricultura continua a constituir uma fonte essencial de emprego e subsistência, mas apresenta vulnerabilidades climáticas, financeiras e logísticas.

A possibilidade de ampliar o processamento agroalimentar, melhorar as infra-estruturas rurais e aumentar a produtividade dos pequenos produtores representa uma oportunidade de desenvolvimento económico com efeitos sobre o abastecimento interno, o emprego e as receitas das famílias.

A agenda internacional de inovação proposta pela FAO ganha, neste contexto, uma dimensão particularmente relevante.

O desenvolvimento tecnológico poderá contribuir para aumentar a eficiência dos sistemas alimentares, mas os resultados económicos estarão associados à capacidade de assegurar financiamento, formação, infra-estruturas e acesso aos mercados.

O estado mundial da alimentação demonstra que o problema económico central já não pode ser avaliado exclusivamente pela quantidade de alimentos produzidos. A capacidade das famílias para os adquirir, os custos de os fazer chegar ao mercado e a produtividade dos sistemas que os fornecem são factores determinantes para a segurança alimentar.

A transformação destas condições constitui uma componente importante do desenvolvimento económico, particularmente nas sociedades onde a agricultura continua a assegurar grande parte do emprego e do rendimento das populações.

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