Derrota de Lula no Brasil pode ameaçar projectos e planos de Moçambique

A possível derrota de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais brasileiras poderá colocar em risco os avanços recentes da cooperação entre Moçambique e Brasil, sobretudo nos sectores da saúde, infra-estruturas, transformação digital e desenvolvimento socioeconómico.

Os brasileiros deverão regressar às urnas no próximo dia 25 de Outubro para escolher o Presidente que governará o país durante os quatro anos seguintes. O processo eleitoral está a ser acompanhado atentamente pelos Estados Unidos da América (EUA), num contexto marcado por suspeitas de interferência externa.

Os resultados poderão ter repercussões para além das fronteiras brasileiras, incluindo em Moçambique, particularmente se Flávio Bolsonaro confirmar o favoritismo que lhe é atribuído pelas sondagens, segundo uma análise publicada pelo semanário Dossiers & Factos, na edição n.º 680, de 12 de Outubro de 2026, nas páginas 03 e 04.

Sondagens colocam Lula sob pressão e levantam dúvidas sobre a cooperação bilateral

De acordo com a publicação, as sondagens divulgadas por institutos de pesquisa, entre os quais o DataFolha, apontam para uma possível vitória de Flávio Bolsonaro, com 52% das intenções de voto.

A confirmar-se esse cenário, a saída de Lula da Silva da Presidência poderá representar um retrocesso nas relações entre Moçambique e Brasil, que conheceram uma nova dinâmica nos últimos tempos, impulsionada pelos esforços diplomáticos do Presidente moçambicano, Daniel Chapo, e do actual chefe de Estado brasileiro.

Defensor da cooperação Sul-Sul, Lula da Silva afirmou, em 2023, que as relações com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) voltariam a ocupar um lugar prioritário na agenda do seu Governo. A promessa contrastava com a orientação adoptada durante o mandato de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, período em que o então Presidente brasileiro não realizou qualquer visita ao continente africano.

A mudança de orientação prometida por Lula traduziu-se em iniciativas concretas, tendo Moçambique assumido um lugar de destaque nessa aproximação.

Em Novembro de 2025, o estadista brasileiro realizou a sua quarta visita a Moçambique, correspondendo a um convite formulado no mesmo mês pelo Presidente Daniel Chapo, durante um encontro bilateral em Belém, à margem da 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP30).

Durante a visita a Maputo, Lula da Silva e Daniel Chapo testemunharam a assinatura de nove instrumentos jurídicos destinados a aprofundar a cooperação entre os dois países.

Os acordos abrangem áreas como aviação civil, formação jurídica, diplomacia, investigação e produção agro-florestal resiliente, governação, desenvolvimento socioeconómico, formação profissional, promoção do empreendedorismo, cooperação internacional no ensino e na investigação em saúde, educação, promoção de investimentos e exportações.

Na ocasião, Daniel Chapo considerou que os entendimentos assinalavam o início de uma nova etapa no fortalecimento das relações bilaterais.

Entretanto, a perspectiva de uma vitória de Flávio Bolsonaro, filho mais velho do antigo Presidente Jair Bolsonaro, levanta receios de que os avanços alcançados durante o mandato de Lula possam perder força.

Segundo a análise do Dossiers & Factos, existem preocupações em diferentes sectores quanto à possibilidade de os acordos assinados não serem implementados, frustrando as expectativas e os planos do Governo moçambicano.

Entre os compromissos assumidos durante a visita de Lula a Moçambique destaca-se o financiamento brasileiro para a construção de um Instituto de Oncologia e de um Hospital Materno-Infantil, projectos avaliados em 200 milhões de dólares.

A eventual saída de Lula do Palácio do Planalto levanta, por isso, dúvidas sobre a concretização desses investimentos e de outras promessas de cooperação, caso os resultados apontados pelas sondagens se confirmem.

Bolsonaro já criticou a aproximação do Brasil ao continente africano

As preocupações em torno de um possível enfraquecimento das relações entre Moçambique e Brasil não decorrem apenas da orientação política adoptada durante a Presidência de Jair Bolsonaro, mas também das críticas que o antigo chefe de Estado dirigiu à política africana de Lula da Silva.

Durante o seu mandato, Bolsonaro não visitou qualquer país africano e chegou a ponderar o encerramento de embaixadas brasileiras em alguns Estados do continente.

Em 2023, o antigo Presidente, que actualmente se encontra preso por tentativa de golpe de Estado, defendeu que o Brasil deveria privilegiar relações com países capazes de oferecer benefícios concretos.

Na altura, referiu-se aos Estados Unidos como exemplo de um parceiro estratégico e criticou a aproximação do Governo de Lula a países que considerava ditaduras.

“Quem está no Governo actualmente, infelizmente, tem-se aproximado de ditaduras na América do Sul e fora também. Agora vai fazer uma digressão pela África. Devemos sempre buscar, não desprezando os mais humildes, mas buscar países que podem nos oferecer alguma coisa”, declarou Bolsonaro.

As declarações foram interpretadas como uma tentativa de agradar à Administração norte-americana, num contexto de divergências sobre as prioridades da política externa brasileira.

As dúvidas em relação à orientação que poderá ser seguida por um eventual Governo de Flávio Bolsonaro também encontram fundamento, segundo a publicação, na ausência de referências ao continente africano no manifesto eleitoral do actual senador.

Esta posição contrasta com o programa de Lula da Silva, que atribui especial importância ao relacionamento com os países africanos.

Uma análise do Instituto Brasil África, citada pelo semanário angolano Expansão, indica que, embora sete dos 13 candidatos presidenciais façam alguma referência a África, as abordagens são geralmente pouco detalhadas e variam entre propostas de aproximação diplomática e estratégica, perspectivas predominantemente comerciais e menções pontuais.

A mesma análise refere que seis candidatos não fazem qualquer referência ao continente africano, revelando que o tema está ausente das propostas de quase metade dos concorrentes.

O instituto classifica como “nula” a atenção atribuída a África por esses candidatos, entre os quais figuram Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Clariana Barão (DC), Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP) e Wilson Grassi (Democrata).

A falta de referências à cooperação africana nas propostas de Flávio Bolsonaro reforça, assim, as incertezas sobre a continuidade das iniciativas lançadas durante a Presidência de Lula da Silva.

Cooperação com o Brasil já trouxe benefícios importantes para Moçambique

A parceria entre Moçambique e Brasil tem contribuído para o desenvolvimento de sectores estratégicos, incluindo saúde, transportes, transformação digital e transferência de conhecimento técnico.

Um dos exemplos mais relevantes é a Sociedade Moçambicana de Medicamentos (SMM), instalada em Maputo com apoio técnico e laboratorial da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição brasileira de referência na área da saúde.

Inicialmente concebida para a produção de medicamentos antirretrovirais, a unidade expandiu progressivamente a sua capacidade, passando a abranger outros medicamentos, incluindo genéricos e fármacos destinados ao tratamento de doenças crónicas.

Em 2021, a transferência integral da gestão da empresa para Moçambique representou um passo importante no reforço da capacidade nacional de produção farmacêutica e na consolidação de competências locais.

Aeroporto de Nacala representa investimento brasileiro em infra-estruturas

No sector dos transportes, destaca-se o Aeroporto Internacional de Nacala, construído pela empresa brasileira Odebrecht e inaugurado em 2014.

O empreendimento contou com financiamento parcial de 125 milhões de dólares do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES), instituição financeira brasileira.

Apesar de a utilização comercial ter ficado abaixo da capacidade inicialmente projectada, de 500 mil passageiros por ano, o aeroporto contribuiu para reforçar a rede aeroportuária nacional e tornou-se uma das expressões mais visíveis do investimento brasileiro em Moçambique.

Cooperação tecnológica reforça segurança dos serviços digitais

A parceria bilateral também se estende à transformação digital, área em que Moçambique tem beneficiado de assistência técnica brasileira para desenvolver a sua Infra-estrutura de Chaves Públicas (PKI).

O sistema destina-se a reforçar a segurança da certificação digital, das assinaturas electrónicas e dos serviços públicos digitais.

Esta iniciativa demonstra que a cooperação entre os dois países não se limita à construção de infra-estruturas físicas, abrangendo igualmente a transferência de tecnologia, conhecimentos especializados e competências técnicas.

Corredor de Nacala beneficiou do investimento da multinacional Vale

Outro exemplo importante é o Corredor de Nacala, cuja componente ferroviária e logística foi impulsionada pelo investimento da multinacional brasileira Vale, antes da sua saída de Moçambique, em 2021.

A infra-estrutura contribuiu para ligar as zonas de produção mineira ao Porto de Nacala, facilitando o transporte e o escoamento de mercadorias.

Além de reforçar a capacidade logística nacional, o corredor consolidou a importância estratégica de Nacala para a actividade económica e comercial do país.

Mudança política no Brasil pode afectar projectos estratégicos

Os exemplos da Sociedade Moçambicana de Medicamentos, do Aeroporto Internacional de Nacala, da Infra-estrutura de Chaves Públicas e do Corredor de Nacala demonstram a diversidade dos benefícios associados à cooperação entre Moçambique e Brasil.

Ao longo dos anos, a parceria contribuiu para a construção de infra-estruturas, o reforço da capacidade produtiva nacional, a transferência de conhecimentos e a criação de perspectivas de desenvolvimento em sectores considerados essenciais.

Por esse motivo, uma eventual mudança na orientação política do Governo brasileiro poderá produzir consequências que vão além das relações diplomáticas, influenciando o ritmo de execução de projectos e iniciativas com potencial para beneficiar directamente Moçambique.

A possível vitória de Flávio Bolsonaro coloca, assim, no centro do debate a continuidade dos compromissos assumidos pelo Brasil, sobretudo os relacionados com investimentos na saúde e com os acordos assinados durante a recente aproximação diplomática entre Lula da Silva e Daniel Chapo.

Para Moçambique, a questão central será perceber se os projectos e compromissos estabelecidos com o actual Governo brasileiro terão continuidade após as eleições ou se uma eventual mudança de poder poderá alterar as prioridades da cooperação bilateral.