– “O terrorismo está lá, os terroristas estão lá”, afirma Plácido Nerino Pereira, secretário de Estado de Cabo Delgado

– “O terrorismo não se vence primeiramente com métodos militares”, afirma Calton Cadeado, professor de Estudos de Segurança da Escola Superior de Relações Internacionais

Por Ricardo Dias 

Pemba (MOZTIMES) – O secretário de Estado de Cabo Delgado, Plácido Nerino Pereira, afirmou esta quarta-feira, em Pemba, que o terrorismo ainda não acabou em Cabo Delgado.

“Comparativamente à situação de há dois ou três anos, a situação em Cabo Delgado melhorou muito, porque já tivemos uma situação em que os governos locais praticamente não estavam presentes em alguns distritos. Mas não quer dizer que [o terrorismo] acabou”, afirmou Plácido Pereira, questionado pelos jornalistas sobre a situação de segurança na província. “O terrorismo está lá, os terroristas estão lá”, especificou.

O secretário de Estado confirmou ainda que houve raptos e assassinatos de algumas pessoas em Muidumbe e Mueda, na semana passada. Trata-se do caso reportado esta segunda-feira, em que pelo menos cinco pessoas foram decapitadas nos campos de produção das zonas baixas dos dois distritos. O secretário de Estado não se referiu ao número de vítimas. 

Esta não é a primeira vez que um alto dirigente do Estado admite que o terrorismo ainda não acabou em Cabo Delgado. O próprio Presidente Daniel Chapo já o havia afirmado no ano passado, durante o encerramento dos cursos do ano lectivo de 2025 do Instituto Superior de Estudos de Defesa Tenente-General Armando Emílio Guebuza (ISEDEF), em Maputo.

“Para que não haja mal-entendidos, queremos clarificar que não estamos a afirmar que já não há terrorismo em Cabo Delgado. Não. Simplesmente estamos a dizer que as nossas Forças Armadas, as FDS no seu todo, estão no terreno a defender o seu povo destes ataques esporádicos que ainda acontecem na província”, afirmou Chapo na ocasião.

Este posicionamento do Governo revela uma mudança de discurso quanto à ameaça terrorista em Cabo Delgado. Durante a governação de Nyusi, em várias ocasiões, o Governo apresentou um discurso triunfalista, afirmando que os terroristas tinham sido derrotados, contrariando a realidade no terreno.

Por exemplo, em Maio de 2024, durante o encerramento do Curso de Forças Especiais em Nacala, na província de Nampula, Nyusi afirmou que já não existia nenhuma base de terroristas em nenhum distrito da província de Cabo Delgado.

Mas esta não era a primeira vez que Nyusi e os seus aliados faziam tais afirmações. Em Junho de 2023, o Presidente do Ruanda e aliado de Filipe Nyusi, que destacou mais de seis mil militares e polícias para ajudar a combater o terrorismo em Cabo Delgado, afirmou que 80% da ameaça terrorista havia sido debelada. “Devo dizer que 80% do problema foi resolvido”, afirmou Paul Kagame, num discurso amplamente citado pela comunicação social internacional.

Embora o poder de fogo dos insurgentes tenha diminuído significativamente e estes já não consigam atacar e ocupar vilas-sede distritais como faziam entre 2020 e 2021, antes do destacamento das tropas do Ruanda e da Missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral em Moçambique (SAMIM), a ameaça terrorista continua elevada, sobretudo contra as populações civis.

Recentemente, a Missão de Assistência Militar da União Europeia em Moçambique (EUMAM-MOZ) revelou ter registado 154 ataques terroristas nos últimos cinco meses, o que representa uma média de um ataque por dia.

Os dados, apresentados em Maputo pelo brigadeiro-general Sérgio Estrella, mostram que os grupos insurgentes mantêm liberdade de movimento e capacidade de realizar ataques em vários distritos de Cabo Delgado e das províncias vizinhas de Nampula e do Niassa.

Isto acontece apesar da presença de tropas estrangeiras no terreno e do apoio logístico e de formação prestado às tropas moçambicanas pela União Europeia e por outros parceiros internacionais.

Apoio internacional não é a solução

Para o professor de Estudos de Segurança Calton Cadeado, embora o apoio internacional seja válido e necessário, não pode ser considerado uma solução definitiva.

Cadeado é professor da Escola Superior de Relações Internacionais da Universidade Joaquim Chissano, em Maputo. Em entrevista ao MOZTIMES, afirmou que a resposta ao terrorismo em Moçambique exige uma mudança de paradigma.

“O primeiro agente de combate ao terrorismo temos de ser nós, Moçambique, tem de ser o povo moçambicano, e não necessariamente a componente armada da luta. O terrorismo não se vence, primeiramente, com métodos militares”, afirmou.

Para o professor de Estudos de Segurança, o êxito contínuo dos insurgentes reflecte fragilidades do Estado na componente de inteligência. A erradicação definitiva da ameaça terrorista passa, inevitavelmente, por concentrar os esforços no topo da cadeia de comando inimiga e por investimentos socioeconómicos que previnam o aliciamento de jovens vulneráveis.

“Diríamos que o sucesso dos terroristas é o fracasso do Estado moçambicano. Houve, no princípio, uma dificuldade em perceber quem são os terroristas; levou-se muito tempo para isso, porque os terroristas, na sua acção de se esconderem, conseguiram esconder-se bem”, afirmou.

Para o professor, a mudança do cenário actual exige que o Estado restabeleça uma cooperação profunda entre as Forças de Defesa e Segurança e as populações residentes nas comunidades afectadas pelos ataques terroristas.

Os ataques terroristas em Cabo Delgado começaram em Outubro de 2017, na vila costeira de Mocímboa da Praia. Desde então, estima-se que tenham custado a vida a pelo menos 6 600 pessoas, das quais cerca de 40 são civis. Mais de 1,3 milhões de pessoas foram deslocadas devido aos ataques, das quais cerca de metade regressou às suas terras de origem, mas continua a conviver com a insegurança.

Os ataques terroristas paralisaram, durante cerca de quatro anos e meio, o projecto de exploração de gás natural liderado pela TotalEnergies, cujo investimento é de cerca de 20 milhões de dólares. No entanto, o projecto foi retomado em Janeiro deste ano, sob fortes medidas de segurança.

Com todos os esforços de segurança voltados à protecção dos projectos de exploração de gás, as comunidades locais ficam expostas a ataques aos militantes islamistas.

Um relatório publicado em Setembro pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), intitulado “Moçambique: O custo da inacção”, indica um aumento de 10% nos incidentes associados ao conflito no primeiro semestre de 2026, em comparação com o período homólogo do ano anterior. (RD)