Quase 200 quilómetros de estradas na província de Cabo Delgado, no norte do País, vão ser reabilitados e asfaltados por cerca de 133 milhões de euros, no âmbito do programa governamental “Mais Estradas – 2031”. As obras abrangem troços rodoviários que servem distritos afectados pela insurgência armada, segundo dados da Administração Nacional de Estradas (ANE) consultados pela Lusa.
De acordo com o anúncio de adjudicação, datado de 19 de Outubro, os três lotes foram atribuídos à empresa Construção A. Varinda e integram o Programa Acelerado de Reabilitação e Construção de Estradas Nacionais 2026-31.
O maior contrato corresponde à intervenção na estrada R760, no troço entre Mecúfi e Mazeze, com uma extensão de 75 quilómetros, adjudicado por 47,9 milhões de euros.
O segundo lote abrange 62 quilómetros da estrada R698, entre Montepuez e Namuno, num investimento de 44,7 milhões de euros. Já o terceiro contempla a asfaltagem de 60 quilómetros da R760, entre Mazeze e Chiúre, por 40,4 milhões de euros.
No total, as três intervenções abrangem 197 quilómetros de estradas numa província marcada por défices históricos de infra-estruturas rodoviárias e pela insurgência armada que afecta o norte de Cabo Delgado desde 2017.
O programa “Mais Estradas – 2031” é uma das principais apostas do Governo para expandir a rede rodoviária asfaltada e melhorar as ligações entre centros de produção, corredores logísticos e zonas costeiras do País.
Este mês, o ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, afirmou que o programa está orçado em 2,5 mil milhões de euros e prevê intervenções em mais de três mil quilómetros de estradas em todo o território nacional.
Segundo o governante, a iniciativa já se encontra numa fase concreta de implementação, com concursos públicos lançados e propostas em avaliação para posterior adjudicação. O Governo prevê avançar com a mobilização e o início das obras durante o primeiro trimestre de 2027, após a conclusão dos processos de avaliação e adjudicação.
Matlombe defendeu ainda uma mudança na gestão da rede rodoviária nacional, com maior rigor no planeamento, na definição de prioridades e na utilização dos recursos disponíveis.
“Não podemos continuar a intervir nas estradas apenas quando a degradação atinge níveis críticos”, afirmou, defendendo uma estratégia centrada na conservação preventiva, na qualidade das obras, no cumprimento dos prazos contratuais e no reforço da fiscalização.
Insurgência continua a afectar Cabo Delgado
Rica em gás natural, Cabo Delgado é afectada desde 2017 por uma insurgência armada que já provocou mais de 6600 mortos e cerca de 1,2 milhões de deslocados, segundo organizações internacionais.
Os incidentes associados ao conflito aumentaram 10% no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. Os raptos têm sido cada vez mais utilizados para exigir resgates e para o recrutamento forçado, incluindo de crianças.
Os dados constam do relatório “Moçambique: O custo da inação”, divulgado em Setembro pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). O documento alerta para o agravamento da situação de segurança no norte do País e para o impacto crescente da violência sobre a população civil.
Segundo o relatório, foram registados mais de 400 incidentes de conflito nos primeiros seis meses de 2026, um aumento de 10% face ao período homólogo de 2025. Entre os episódios reportados estão homicídios, destruição de habitações, pilhagens e raptos.





