O Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GIFiM) identificou operações suspeitas de branqueamento de capitais no sector imobiliário envolvendo cerca de 5 mil milhões de meticais, entre Janeiro de 2021 e Novembro de 2025. A análise abrange movimentações associadas a empresários, empresas de fachada, funcionários públicos e pessoas politicamente expostas (PPE).

Segundo a Lusa, as conclusões constam do segundo Relatório de Análise Estratégica divulgado este ano pelo GIFiM. O documento descreve situações em que pessoas singulares e colectivas receberam montantes elevados, através de depósitos em numerário e transferências bancárias, posteriormente canalizados para a aquisição de imóveis.

As operações analisadas totalizaram 5 006 719 207 meticais. O organismo suspeita de que os fundos tenham origem ilícita e de que a sua aplicação no imobiliário tenha servido para dissimular essa proveniência.

Os montantes detectados aumentaram sobretudo nos últimos três anos do período observado: passaram de cerca de 408 milhões de meticais, em 2023, para 1589 milhões, em 2024, e 3009 milhões, entre Janeiro e Novembro de 2025. Este último valor representa aproximadamente 60% do total identificado.

Entre as categorias de intervenientes, destacam-se operações associadas a empresários, no valor de 2696 milhões de meticais, empresas de fachada, com 940,5 milhões, funcionários públicos, com 793,9 milhões, e PPE, com 503,7 milhões.

O relatório descreve igualmente situações em que entidades públicas transferiram recursos para empresas privadas que, mais tarde, adquiriram imóveis. Em alguns casos, o GIFiM suspeita de que os bens tenham sido comprados em nome de terceiros, de funcionários públicos ou de pessoas com ligações a estes, como forma de pagamento de subornos.

Foram também identificadas empresas alegadamente fictícias que receberam montantes elevados sem demonstrarem uma actividade económica compatível com os valores movimentados. Os fundos acabaram por ser encaminhados para operadores imobiliários.

Maputo, Matola, Beira e Nampula concentram a maioria dos casos analisados. O organismo admite, contudo, que a dimensão real do fenómeno possa ser superior à identificada.

Entre os possíveis crimes que terão originado os fundos encontram-se corrupção, fraude fiscal, tráfico de influências, associação criminosa e falsificação de documentos. As conclusões constituem suspeitas identificadas na análise financeira, não uma confirmação judicial da prática destes crimes.

O estudo baseou-se em 672 comunicações de operações suspeitas, 15 comunicações de actividades suspeitas, 11 612 comunicações de limiares, 12 pedidos de informação e 36 relatórios de informação financeira produzidos pelo GIFiM.

A análise surge num contexto de consolidação dos mecanismos de prevenção e combate ao branqueamento de capitais. Moçambique saiu da “lista cinzenta” do Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI) a 24 de Outubro de 2025, após três anos sob monitorização reforçada. A partir de Setembro de 2027, deverá começar a demonstrar os progressos na consolidação das medidas de combate ao branqueamento de capitais, ao financiamento do terrorismo e ao financiamento da proliferação de armas de destruição em massa.