Uma equipa médica do Hospital Renmin da Universidade de Wuhan, na China, implantou um chip na parede externa do globo ocular de um homem que sofria de deficiência visual há mais de 30 anos e estava completamente cego desde 2022. A intervenção permitiu-lhe recuperar parcialmente a percepção visual, passando a reconhecer números, letras e objectos, através de um sistema que combina um implante ocular com óculos equipados com câmaras.
A cirurgia foi realizada em Julho e recorreu a uma tecnologia experimental de visão artificial, baseada numa interface cérebro-computador, que transforma imagens captadas pelos óculos em sinais eléctricos.
Estes sinais são transmitidos sem fios para um pequeno chip implantado na esclerótica, a camada externa branca do olho. O dispositivo estimula estruturas nervosas da retina, permitindo que a informação seja transmitida ao cérebro e interpretada como padrões luminosos.
O paciente, identificado pelo apelido Qiu, começou a perceber pontos de luz assim que o sistema foi activado, após um período de recuperação da cirurgia.
Segundo Xiao Xuan, responsável pela equipa médica, os progressos tornaram-se evidentes nas primeiras semanas de reabilitação. Com três sessões de treino por semana, Qiu passou a reconhecer e escrever números, caracteres chineses e letras do alfabeto inglês, a agarrar objectos com maior precisão e a deslocar-se seguindo referências visuais.
A médica explicou, contudo, que a leitura de textos e a identificação de objectos com detalhes mais finos continuam a exigir treino prolongado. A equipa prevê um período de adaptação de vários meses antes de o paciente poder prosseguir a reabilitação em casa.
Uma das particularidades da técnica é a colocação de um chip de pequenas dimensões na parede externa do globo ocular, sem necessidade de penetrar no seu interior.
O procedimento dispensa fios de ligação entre o interior e o exterior do olho, bem como dispositivos externos de fixação magnética.
Segundo os investigadores, esta abordagem semi-invasiva poderá reduzir alguns dos riscos associados às técnicas que exigem a introdução de eléctrodos no interior do olho.
O sistema procura compensar a perda de função das células responsáveis pela captação da luz, estimulando electricamente as vias nervosas que ainda conservam capacidade para transmitir informação ao cérebro.
A visão obtida é, porém, diferente da visão natural. Em vez de reproduzir imagens com todos os seus detalhes, o dispositivo gera pontos luminosos que, após treino, podem ser associados a letras, números, objectos e obstáculos.
Tecnologia poderá beneficiar doentes com diferentes causas de cegueira
A equipa médica considera que a tecnologia poderá vir a ser utilizada em pessoas com determinadas doenças que provocam perda irreversível da visão, desde que as vias nervosas necessárias à transmissão dos sinais permaneçam funcionais.
Entre as patologias apontadas estão a retinite pigmentosa, a degeneração macular relacionada com a idade em fase avançada, a oclusão da artéria central da retina, a neuropatia óptica isquémica, o glaucoma avançado, o descolamento da retina em fase tardia e a retinopatia diabética.
A técnica não será, contudo, adequada a todos os casos de cegueira, nomeadamente quando existe destruição completa das estruturas necessárias à transmissão dos sinais visuais.
Apesar dos resultados alcançados, a recuperação da percepção das cores, da profundidade e dos detalhes permanece um desafio. A tecnologia terá ainda de demonstrar a sua segurança e eficácia a longo prazo e em mais pacientes antes de poder ser utilizada de forma generalizada.
Paciente espera recuperar maior autonomia
Qiu, que trabalhou durante anos como massagista, relatou que as dificuldades de visão o levaram a recear deslocar-se sozinho, depois de ter estado perto de ser atropelado por uma motorizada eléctrica.
O paciente manifestou satisfação com os progressos alcançados, sobretudo com a possibilidade de reconhecer referências visuais que o ajudem nas actividades quotidianas.
Durante a fase inicial de estimulação eléctrica e ajuste do dispositivo, sentiu uma ligeira irritação ocular, mas afirmou ter-se adaptado rapidamente.
A equipa médica continuará a acompanhar a sua evolução, procurando melhorar a interpretação dos sinais luminosos e avaliar até que ponto o sistema poderá aumentar a autonomia de pessoas com deficiência visual grave.





