O ensino superior privado está a sair de Maputo, a multiplicar cursos e modelos de formação e a disputar uma procura crescente. Mas, à medida que o número de instituições aumenta, ganha também relevância a questão da qualidade, da sustentabilidade do negócio e, sobretudo, do valor que o mercado de trabalho atribui aos seus diplomas.

A os 22 anos, Amélia Lopes teve de decidir entre continuar os estudos perto de casa ou deixar Pemba para procurar em Maputo a formação que pretendia. A primeira opção acabou por prevalecer. A estudante frequenta o curso de Economia e Gestão na Universidade Católica de Moçambique (UCM), na capital da província de Cabo Delgado, onde nasceu. “Queria continuar a estudar, mas não queria obrigar a minha família a pagar casa, alimentação e transporte em Maputo. Quando encontrei o curso que queria aqui, percebi que podia fazer a universidade sem sair da província”.

Na Beira, a decisão de Tomás Tembe, 25 anos, foi determinada por outra necessidade. Já trabalhava quando decidiu ingressar na licenciatura em Engenharia de Computadores e Sistemas, na Universidade Alberto Chipande. Precisava de uma instituição que se adaptasse à sua rotina e encontrou no ensino privado horários pós-laborais e uma modalidade que lhe permitia conciliar emprego e estudos. “Se tivesse de deixar de trabalhar para estudar, provavelmente não teria entrado. A universidade privada deu-me a possibilidade de fazer as duas coisas”, disse.

Não há um perfil único de investidor. Há empresários, sociedades, fundações, cooperativas e organizações de carácter religioso

Em Maputo, Nelma Sitoe, 23 anos, chegou ao ensino privado por uma razão diferente. Não conseguiu entrar em Direito na Universidade Eduardo Mondlane (UEM) e procurou uma alternativa na Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). “Queria estudar aquilo que escolhi e ter condições para aprender”, explicou.

Três estudantes, três circunstâncias e três razões distintas para escolher uma instituição privada. Juntas, estas histórias ajudam a perceber um fenómeno que está a caracterizar o ensino superior em Moçambique, em que as instituições privadas deixam de ser apenas alternativas à oferta pública e passam a assumir um espaço próprio num mercado de formação cada vez mais diversificado.

A universidade chega mais longe

Por muito tempo, Maputo funcionou como o principal centro de formação superior. Hoje, embora continue a dominar a oferta, já não é tão representativo como antes, porque as instituições privadas procuram aproveitar a oportunidade de expandir-se para locais sem oferta.

A procura pelo ensino superior privado cresce e diversifica-se, com estudantes a procurarem cursos e horários com modalidades que respondam às suas necessidades

Desde 2021, pelo menos 11 instituições privadas entraram em funcionamento, segundo o levantamento realizado pela E&M a partir do cruzamento de dados oficiais e da actividade das instituições. Destas, oito foram abertas fora de Maputo, sendo cinco no centro e três no norte do País. Há uma entrada contínua de novos operadores num mercado que ainda está longe de poder absorver toda a procura.

Em 2021, havia 237 777 estudantes no ensino superior moçambicano. Em 2023, eram já 253 227. O crescimento não é explosivo, mas abrange uma população jovem e num país onde o acesso ao ensino superior continua relativamente limitado. A questão, portanto, não é saber quantas universidades existem, mas quantos jovens ainda estão fora delas. É essa procura potencial que torna o sector atractivo.

Quem investe nesta área?

Identificar quem está a colocar capital no crescimento do ensino superior privado em Moçambique não é uma tarefa simples. Os documentos públicos de criação das instituições identificam as entidades fundadoras, mas raramente revelam o montante total investido, a origem dos recursos ou a estrutura financeira dos projectos. A E&M cruzou decretos de autorização, registos de sociedades, documentos institucionais e informação disponibilizada pelas próprias instituições para identificar alguns dos principais modelos que estão por detrás da nova oferta.

Professores, coordenadores, técnicos, administrativos, segurança, limpeza, energia, Internet e manutenção de equipamentos absorvem uma parte significativa das receitas

O resultado mostra que não existe um perfil único de investidor. Há empresários individuais ou sociedades, fundações, cooperativas e organizações de carácter religioso. Nalguns casos, a universidade é um novo negócio de um grupo que já actua noutras áreas. Noutros, resulta de estruturas criadas especificamente para investir em educação.

A Universidade Alberto Chipande, por exemplo, nasceu da Globalvisa Protocolos, Lda., sociedade cujo capital social inicial, de 5 milhões de meticais, era integralmente detido por Rizuane Mubarak. A instituição foi autorizada a funcionar em 2021, tornando-se num exemplo de entrada de capital empresarial privado através de uma sociedade de proprietário único. Na Universidade Aberta ISCED (UnISCED), o modelo é diferente. A instituição está ligada ao IAPED, actualmente IAPED Holdings, uma estrutura empresarial que possui também negócios fora da educação. O grupo tem vindo a financiar a expansão física da universidade e, em 2025, destinou cerca de 180 milhões de meticais de receitas próprias à construção de um Centro de Recursos na KaTembe.

A Universidade de Ciência e Tecnologia Joaquim Alberto Chissano (UJAC) representa ainda outro modelo. A instituição foi criada através da Edupac Soluções, sociedade constituída por diferentes parceiros, entre os quais a Educo – Educação e Comunicação, a Fundação Joaquim Chissano e Simão Manuel Nhambi. A sociedade nasceu com um objecto que incluía expressamente o investimento e desenvolvimento da educação em Moçambique. No Instituto Superior Politécnico de Engenharia e Ciências (ISUPEC), em Tete, a entidade fundadora é o Grupo Marara, uma sociedade por quotas que já desenvolvia actividades empresariais noutras áreas. No Instituto Superior União Geral das Cooperativas (ISUGC), a origem é diferente: a entidade promotora é uma organização cooperativa com experiência anterior na formação técnico-profissional.

A expansão do ensino superior privado está a chegar além de Maputo, aproximando a formação de estudantes de outras provincias

Há também investimento associado a organizações de natureza religiosa. A Universidade Íris, autorizada em 2023, é promovida pela Global Íris – Ministério Arco Íris, ligada à organização internacional que já desenvolvia actividades educacionais em Moçambique antes de entrar no ensino superior.

Como funciona o negócio?

O ensino superior privado tem uma característica económica importante. Depois de instalada a estrutura, cada novo estudante pode acrescentar receita sem aumentar os custos na mesma proporção. A explicação é de Eusébio Saíde, fundador do Instituto Politécnico de Tecnologia e Empreendedorismo (IPET), para quem a escala é determinante num negócio que envolve custos elevados com instalações, equipamentos, tecnologia e pessoal. “A principal fonte de receita são as propinas. Os valores variam entre instituições, cursos e modalidades”, explicou.

Seguindo esta lógica, na Universidade Wutivi (UniTiva), por exemplo, a própria instituição indica que tem 5024 estudantes e publica diferentes valores de propinas para os seus cursos. A partir destes dados reais, a E&M fez uma simulação meramente ilustrativa, sem pretender estimar a facturação da UniTiva. Se, por hipótese, 4000 estudantes pagassem uma propina média de 8000 meticais durante dez meses, essa componente representaria 320 milhões de meticais por ano. Outros 500 estudantes, pagando em média 12 000 meticais durante o mesmo período, acrescentariam 60 milhões de meticais. A receita simulada seria, portanto, de 380 milhões de meticais anuais em propinas.

O exercício ajuda a perceber a importância da escala. Salas, laboratórios, bibliotecas, plataformas digitais e parte da estrutura administrativa representam custos que não aumentam na mesma proporção de cada novo estudante, de acordo com Eusébio Saíde. Ou seja, “quanto maior a utilização dessa estrutura, menor tende a ser o custo fixo por aluno”.

Mas a escala não elimina os custos. Professores, coordenadores, técnicos, administrativos, segurança, limpeza, energia, Internet e manutenção de equipamentos absorvem uma parte significativa das receitas. Cursos de engenharia, saúde e ciências podem exigir ainda laboratórios, consumíveis e equipamentos especializados. Por isso, a sustentabilidade depende menos da propina isoladamente e mais da combinação entre o número de estudantes, a mensalidade, os custos de operação e a capacidade de utilização da estrutura instalada. A receita pode ainda ser diversificada através de mestrados, doutoramentos, pós-graduações, cursos de curta duração, formação executiva e programas para empresas. O ensino à distância e os modelos híbridos permitem alcançar estudantes fora da área onde a instituição possui instalações, reduzindo a necessidade de replicar toda a estrutura física.

Texto Celso Chambisso • Fotografia Mariano Silva e D.R.