Os jovens moçambicanos enfrentam uma transição difícil para o mercado de trabalho. Um diploma nem sempre garante estabilidade. Falta correspondência entre competências e oportunidades profissionais e é preciso criar mais empregos.

Quando terminou a licenciatura em Tradução Inglês-Português, Sílvio Mapure tinha a expectativa de transformar a formação académica numa carreira ligada à comunicação internacional. Imaginava-se a trabalhar numa embaixada, num Ministério ligado aos negócios estrangeiros ou numa organização não-governamental. Ao chegar ao mercado de trabalho, porém, descobriu que as oportunidades existentes exigiam, muitas vezes, mais competências. Candidatou-se a mais de 100 vagas em diferentes áreas, sem sucesso e muitas vezes sem respostas. A experiência levou-o a concluir que a universidade lhe deu uma base, mas que lhe falta algo mais.

“Nenhum formando está pronto para o mercado, tal como as empresas exigem”. Para Sílvio, é necessário complementar a formação académica com competências práticas que só podem ser desenvolvidas através da experiência profissional.

Neyma Bay terminou a formação em Psicologia Organizacional. Candidatou-se a várias vagas, voluntariados e bolsas de estudo. Nalguns processos chegou à entrevista, mas não voltou a receber contacto. “Não sou chamada”. Neyma questiona a ligação entre aquilo que se aprende na universidade e aquilo que é exigido pelo mercado. “Quando chegas a uma empresa, as pessoas não estão tão preocupadas com aquilo em que te formaste. O mais importante é aquilo que sabes fazer”.

Só metade encontra emprego no primeiro ano

Um trabalho de pesquisa da Universidade das Nações Unidas – Instituto Mundial de Investigação sobre Economia do Desenvolvimento (UNU-WIDER) procurou analisar a situação em Moçambique. O estudo seguiu graduados universitários e do ensino técnico-profissional, entre 2019 e 2024. “Quase metade consegue encontrar emprego no primeiro ano. Para os restantes, o processo demora significativamente mais tempo”, escrevem os autores Sam Jones e Ricardo Santos. Só três ou quatro anos depois da formação é que a grande maioria consegue encontrar algum tipo de trabalho.

Cerca de 31% dos graduados universitários trabalham em áreas diferentes daquelas em que estudaram. Entre os finalistas do ensino técnico–profissional, a proporção sobe para 43%

Entre os graduados universitários, a proporção de pessoas empregadas aumenta de cerca de 69% pouco depois da conclusão do curso para quase 90% cinco anos mais tarde. Entre os formados do ensino técnico-profissional, a evolução é ainda mais lenta: começa nos 42% e chega a 79% quatro anos depois.

Os investigadores alertam, contudo, que estas médias escondem percursos muito diferentes. Alguns jovens conseguem trabalho rapidamente, enquanto outros passam anos entre a procura de emprego, trabalhos ocasionais e períodos de inactividade. É o que a pesquisa descreve como uma transição “staggered”, ou escalonada, para o emprego estável.

Emprego não significa estabilidade

O estudo alerta para aquilo que as estatísticas de emprego podem esconder. Estar a trabalhar não significa necessariamente ter um emprego estável, formal ou satisfatório. Entre os graduados universitários empregados, cerca de 72% ocupam posições fixas numa entidade empregadora. No ensino técnico-profissional, essa proporção é de apenas 39%, havendo maior dependência do auto-emprego e de trabalhos ocasionais.

A situação é particularmente evidente entre os graduados do ensino técnico-profissional: 42% não possuem contrato escrito e 41% não estão inscritos na segurança social. Para os investigadores, estes dados mostram que a questão não deve ser apenas “quantos jovens têm emprego”, mas também “que tipo de emprego têm”.

A insatisfação com o trabalho é igualmente elevada. Cerca de dois terços dos graduados universitários dizem estar insatisfeitos com o seu emprego, enquanto entre os graduados do ensino técnico-profissional a proporção ultrapassa quatro quintos. “Empregos assalariados nem sempre são bons empregos”, alertam os autores, sublinhando que ter um salário não é sinónimo de ter um bom emprego.

Um em cada três trabalhafora da sua área

Outro resultado da pesquisa aproxima-se directamente da experiência relatada pelos dois jovens: a distância entre a área estudada e o trabalho efectivamente realizado. Cerca de 31% dos graduados universitários trabalham em áreas diferentes daquelas em que estudaram. Entre os finalistas do ensino técnico-profissional, a proporção sobe para 43%. Além disso, 32% destes últimos afirmam que o trabalho que desempenham nem sequer utiliza as competências para as quais receberam formação. A situação, contudo, não afecta todas as áreas da mesma maneira. Os graduados em áreas especializadas apresentam resultados melhores. Na saúde, a taxa de emprego chega a 95%, enquanto na engenharia ultrapassa 90%.

Economia cresce, mas empregos não acompanham

Para a UNU-WIDER, este é um dos principais desafios da economia nacional. O crescimento económico tem sido impulsionado, em parte, por sectores intensivos em capital, como as indústrias extractivas. “O crescimento e o emprego estão a ficar dissociados, tal como as competências e as oportunidades”, afirmam os investigadores. A expansão da formação, por si só, não resolve o problema se a economia não criar simultaneamente empregos capazes de absorver os jovens formados.

A dimensão do desafio torna-se mais evidente quando se compara o número de graduados com a dimensão das novas gerações que chegam à idade activa. Em 2017, cerca de 18 mil jovens concluíram o ensino universitário, com uma idade média de 26 anos. No ensino técnico-profissional, cerca de 16 mil concluíram a formação em 2019, com uma idade média de 22 anos. Cada grupo representava aproximadamente 2,5% da respectiva faixa etária, num país onde cerca de 600 mil jovens atingem os 18 anos.

Para os investigadores, o facto de mesmo estes grupos relativamente pequenos enfrentarem dificuldades significativas de integração no mercado de trabalho constitui um sinal de alerta. Ou seja, “a expansão da formação, por si só, não irá resolver os desafios do emprego juvenil”.

Outra prioridade deve ser a melhoria da ponte entre escola e trabalho. Estágios, aprendizagens profissionais e serviços eficazes de orientação vocacional podem aproximar as instituições de ensino dos empregadores e reduzir o período que os jovens passam entre a conclusão da formação e a entrada no mercado.

O problema também é a qualidadedo emprego

A UNU-WIDER defende ainda que as políticas de emprego não devem medir apenas o número de postos criados, mas a sua qualidade. Ao mesmo tempo, alerta que uma formalização demasiado rápida ou regras laborais rígidas podem produzir efeitos contrários e empurrar mais trabalhadores e empresas para a informalidade.

O recurso ao auto-emprego e à informalidade entre jovens formados não deve ser interpretado apenas como uma escolha individual. Segundo os investigadores, quando graduados acabam em actividades informais, isso reflecte também a capacidade limitada da economia formal para absorver trabalhadores qualificados.

“A informalidade entre os licenciados representa, na sua maioria, uma subutilização do capital humano”, escrevem. Ou seja, quando um jovem formado não consegue aplicar as suas competências no trabalho, não é apenas o indivíduo que perde: a própria economia deixa de aproveitar plenamente o investimento feito na sua formação.

O estudo defende, por isso, uma política que combine formação, criação de empregos produtivos, melhor ligação entre instituições de ensino e empresas e maior atenção à qualidade das oportunidades disponíveis.

Texto Nário Sixpene • Fotografia D.R.