Maputo, 18 Out (AIM) – O promotor de Justiça de São Paulo e investigador do Grupo de Actuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), no Brasil, Lincoln Gakiya, defende o estabelecimento de uma cooperação internacional para combater o tráfico de drogas, em linha com o posicionamento de Moçambique sobre a necessidade de reforçar a colaboração entre os países no combate ao crime organizado transnacional.

Segundo Gakiya, o Brasil tem cerca de 88 facções criminosas, entre as quais se destacam o Primeiro Comando da Capital (PCC), criado a 31 de Agosto de 1993, e o Comando Vermelho (CV), fundado em 1979, no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, Estado do Rio de Janeiro.

O investigador explicou que o tráfico de cocaína constitui uma das principais actividades criminosas do PCC, cuja rede de abastecimento tem origem em países sul-americanos, nomeadamente a Bolívia, o Paraguai e o Peru.

A droga é posteriormente comercializada em diferentes mercados internacionais, incluindo a Europa, com trânsito pela África Austral.

Gakiya relatou que, em 2006, na sequência de informações obtidas através de investigações e de acordos de colaboração premiada, decidiu-se isolar as principais lideranças do PCC, transferindo-as para estabelecimentos penitenciários do Estado de São Paulo.

Segundo o promotor, a medida desencadeou uma onda de violência que afectou vários sectores da sociedade brasileira.

«Estes promoveram ataques e paralisaram todo o Estado, queimando autocarros, encerrando escolas e atacando órgãos públicos, chegando a causar quase 500 mortos», afirmou.

O investigador explicou que, quando começaram as investigações destinadas a identificar a estrutura e o funcionamento das principais organizações criminosas brasileiras, tanto o Estado como a Polícia Federal e o Ministério Público dispunham de informações limitadas sobre a dimensão e a capacidade operacional dessas redes.

Com o passar do tempo, o PCC sofisticou os seus métodos de actuação, transformando-se numa organização criminosa com características de uma estrutura mafiosa e capaz de exercer um poder paralelo ao do Estado.

Gakiya referiu ainda o caso do Exército do Povo Paraguaio (EPP), que classificou como uma organização narcoterrorista que disponibiliza treino para operações contra o Estado brasileiro.

À semelhança do EPP, acrescentou, o PCC desenvolveu capacidade para adquirir cocaína e armamento, reforçando os seus meios de actuação criminosa.

«É uma grande multinacional do crime, uma das maiores do mundo. Tem um sector financeiro, advogados, produção de drogas e uma área de controlo do sector prisional, incluindo tudo o que ocorre dentro do sistema penitenciário», afirmou.

De acordo com o investigador, a organização está estruturada em diferentes sectores, que funcionam de forma compartimentada. Esta divisão dificulta a acção das autoridades, uma vez que cada grupo conhece apenas as actividades relacionadas com as funções que lhe foram atribuídas.

Para além das principais lideranças actualmente isoladas nas prisões, o PCC conta com uma rede de apoio que permanece em liberdade, incluindo indivíduos que operam a partir da Bolívia.

«A partir da Bolívia, os indivíduos que integram essa rede de apoio conseguem, através de smartphones, controlar actividades do PCC e as operações a partir do Paraguai», explicou.

Cooperação internacional considerada essencial

Para Gakiya, esta realidade demonstra a necessidade de reforçar a cooperação internacional no combate ao narcotráfico, conforme defendido pelo Presidente da República de Moçambique, Daniel Chapo.

O estadista moçambicano tem sublinhado que a cooperação entre os países constitui uma das principais formas de enfrentar as organizações criminosas que operam além-fronteiras.

«Vejam que esta organização (PCC) está na América do Sul, na Ásia, na Europa e na África Austral», afirmou o investigador.

Segundo Gakiya, a presença da organização em diferentes regiões permite-lhe utilizar países estratégicos para facilitar as suas operações e transacções internacionais, incluindo o abastecimento dos mercados europeus e asiáticos.

Neste contexto, alertou para os efeitos do narcotráfico sobre as comunidades, particularmente em Moçambique, onde o fenómeno contribui para o agravamento de problemas sociais e afecta famílias e jovens.

O investigador destacou igualmente os elevados lucros associados ao comércio de cocaína, que incentivam a expansão das redes criminosas.

«O PCC compra um quilograma de cocaína por mil dólares norte-americanos. Na América do Sul, a produção desta droga está associada a países como a Bolívia, a Colômbia e o Peru», afirmou.

De acordo com os valores apresentados por Gakiya, na Europa, o preço de um quilograma de cocaína pode atingir entre 30 mil e 35 mil euros, enquanto na Austrália e na Nova Zelândia pode chegar aos 150 mil dólares norte-americanos.

O promotor alertou ainda para o crescimento do consumo e da produção de drogas, referindo dados das Nações Unidas que, segundo afirmou, apontam para um aumento de 18 por cento no consumo.

Para Gakiya, o crescimento da procura, aliado à elevada rentabilidade do negócio, torna o combate ao narcotráfico um desafio cada vez maior para as autoridades nacionais e internacionais.

O investigador reiterou que o Brasil enfrenta um problema de grandes proporções, com cerca de 88 facções criminosas e uma população prisional de aproximadamente 727 mil pessoas.

Só no Estado de São Paulo, segundo os dados apresentados, encontram-se 230 mil reclusos, o equivalente a cerca de 40 por cento da população prisional brasileira.

«Vejam a dimensão do nosso problema. Só no Estado de São Paulo existem 230 mil presos», afirmou Gakiya.

(AIM)

MR/pc