A Associação dos Albinos em Nampula queixa-se da falta de recursos financeiros para custear as deslocações das suas equipas aos distritos da província, situação que limita o mapeamento de pessoas com albinismo.
Segundo a delegada da agremiação, Márcia Bacará Lipo, até ao momento foram identificadas 221 pessoas com albinismo em 14 dos 23 distritos da província.
Lipo prestou estas declarações durante uma conferência de imprensa realizada no Hospital Central de Nampula, no âmbito do lançamento de uma campanha médica de rastreio e cirurgia de casos de cancro da pele, com início previsto para o dia 19 do mês em curso.
“Pretende-se com a campanha fazer observação médica e cirurgias às pessoas com albinismo que apresentam lesões pré-cancerosas, tratamento com crioterapia, distribuição de protectores solares, para além de assistência em dermatologia e oftalmologia”, explicou.
A campanha, a terceira do género, prevê atender 50 pessoas e decorrerá de segunda a quinta-feira, para adultos, e na sexta-feira, para crianças. Os pacientes são provenientes de vários distritos, incluindo Nampula, Nacaroa, Lalaua, Monapo, Angoche e Ilha de Moçambique.
Questionada sobre as perseguições contra pessoas com albinismo, Lipo reconheceu melhorias, mas afirmou que o estigma e o preconceito persistem.
“Estamos cientes de que o preconceito, que leva ao estigma, sempre vai existir, mas, quando comparada com os anos anteriores, a situação melhorou um pouco, graças às palestras de sensibilização sobre a necessidade de convivência na diversidade”, explicou.
De acordo com a responsável, se anteriormente poucas pessoas conheciam o albinismo e sabiam como conviver com quem apresenta esta condição, actualmente estima que entre 60% e 65% da população já tenha algum conhecimento sobre o assunto.
Na mesma conferência de imprensa, o médico dermatologista do Hospital Central de Nampula, Marcelo Banquimane, explicou a origem da campanha e esclareceu alguns mitos que ainda circulam nas comunidades sobre as pessoas com albinismo.
“O albinismo é uma condição genética autossómica recessiva, decorrente de um defeito que provoca a redução ou ausência de melanina, pigmento que ajuda a proteger a pele dos efeitos do sol. Como Moçambique tem radiação solar intensa, estas pessoas estão mais expostas ao desenvolvimento de lesões pré-cancerosas, como as queratoses actínicas, que podem evoluir para carcinoma espinocelular e basocelular”, afirmou.
O médico explicou que a campanha visa rastrear estas lesões e operar os casos em que a intervenção cirúrgica seja possível.
“Em campanhas anteriores, já tivemos pacientes que não foi possível operar por causa do estado avançado do cancro. Outros tinham lesões pré-cancerígenas e fizemos crioterapia”, explicou.
Sobre a crença de que o consumo de peixe seco provoca feridas na pele das pessoas com albinismo, Banquimane rejeitou essa ideia.
“Não há alimento que provoque feridas na pele da pessoa com albinismo. Se as feridas ocorrem, é por causa de uma questão meramente genética”, afirmou.
O médico considerou igualmente infundadas as crenças segundo as quais a pele das pessoas com albinismo contém “ouro”.



