O sector da saúde continua a representar um dos maiores desafios de Moçambique. Enquanto os hospitais públicos enfrentam dificuldades para assegurar o fornecimento de medicamentos, equipamentos e condições básicas de atendimento aos pacientes, vários dirigentes e pessoas com capacidade financeira continuam a procurar assistência médica fora do país.
A situação, que também se verifica em diferentes países africanos, levanta questões sobre a confiança dos próprios responsáveis pela governação nos serviços de saúde nacionais, precisamente aqueles que deveriam trabalhar para melhorar o seu funcionamento.
A morte de figuras moçambicanas em unidades hospitalares estrangeiras, nomeadamente Luísa Diogo, Oldemiro Balói, Máximo Dias e João Fumane, volta a colocar em debate a capacidade do sistema nacional de saúde para responder às necessidades da população. Embora cada uma destas situações tenha ocorrido em circunstâncias próprias, a procura de tratamentos no estrangeiro por dirigentes e cidadãos com recursos financeiros evidencia uma realidade preocupante: a falta de confiança na qualidade dos serviços de saúde disponíveis em Moçambique.
As dificuldades tornam-se ainda mais evidentes quando se observam as condições enfrentadas diariamente pelos utentes dos hospitais públicos. Em várias unidades sanitárias, persistem problemas relacionados com a falta de medicamentos, salas de operações sem condições adequadas, ausência de lençóis, dificuldades no abastecimento de água potável e instalações sanitárias degradadas.
A estas limitações juntam-se as reclamações dos profissionais de saúde, que também trabalham, em muitos casos, sem condições adequadas para desempenhar as suas funções. Perante este cenário, torna-se compreensível que os cidadãos com possibilidades financeiras procurem alternativas de tratamento fora das fronteiras nacionais.
Entretanto, uma das questões mais preocupantes é o facto de muitos dirigentes, que deveriam estar na linha da frente da transformação do sector, recorrerem a hospitais da África do Sul e de Portugal, em vez de confiarem nas unidades sanitárias moçambicanas.
Esta realidade expõe uma contradição difícil de ignorar: como exigir que os cidadãos confiem no sistema nacional de saúde quando os próprios responsáveis pela sua melhoria não demonstram a mesma confiança?
É inegável que, em determinadas circunstâncias, o recurso a hospitais estrangeiros pode ser necessário, sobretudo quando Moçambique não dispõe de determinadas especialidades médicas ou tecnologias capazes de responder a casos específicos. Contudo, essa necessidade não deve servir de justificação para a falta de investimento nem para o abandono das unidades sanitárias nacionais.
Os valores que muitos dirigentes e respectivas famílias gastam em tratamentos médicos no estrangeiro poderiam igualmente contribuir para o fortalecimento dos serviços de saúde nacionais, caso existisse um compromisso mais firme com o investimento interno.
Importa reconhecer que, em períodos anteriores, algumas unidades sanitárias conseguiam responder de forma mais satisfatória a determinadas necessidades dos pacientes, principalmente no que diz respeito à disponibilidade de medicamentos e às condições de atendimento. Actualmente, porém, a escassez de recursos e os problemas de gestão continuam a comprometer o funcionamento de vários hospitais.
Existem igualmente preocupações relacionadas com a administração dos fundos destinados ao sector da saúde, perante suspeitas de que determinados interesses privados possam estar a beneficiar de recursos que deveriam ser aplicados no atendimento à população. Neste sentido, não basta aumentar o orçamento destinado à saúde. É fundamental assegurar transparência, fiscalização e uma utilização responsável do dinheiro público.
Perante este cenário, o Governo precisa de assumir uma responsabilidade acrescida na recuperação do sistema nacional de saúde. A formação de médicos, enfermeiros e outros profissionais não é suficiente quando as unidades sanitárias não dispõem de equipamentos modernos, medicamentos e condições adequadas para que os profissionais exerçam as suas actividades com dignidade.
Torna-se, por isso, indispensável investir na reabilitação das infra-estruturas hospitalares, melhorar as condições de trabalho dos profissionais de saúde e garantir que todos os pacientes tenham acesso a uma assistência médica de qualidade, independentemente da sua situação económica.
Moçambique dispõe também de recursos e oportunidades que podem ser aproveitados para reforçar o sector. Entre as alternativas está a criação de mecanismos capazes de incentivar o envolvimento de investidores na construção de hospitais e no apetrechamento das unidades sanitárias com equipamentos modernos.
Por outro lado, a dependência excessiva de financiamentos externos não pode continuar a ser encarada como a principal solução para os problemas da saúde. O Governo deve desenvolver estratégias próprias, assumindo que a saúde constitui uma responsabilidade nacional que exige investimento permanente, compromisso político e uma gestão rigorosa dos recursos disponíveis.
A recuperação do sistema nacional de saúde depende, acima de tudo, de medidas concretas que devolvam a confiança dos cidadãos nas unidades sanitárias moçambicanas e garantam que a qualidade da assistência médica não seja determinada pela capacidade financeira de cada paciente.
Fonte: O Tempo



