Em entrevista, o CEO da Vulcan Mozambique, Mukesh Kumar, afirma que a integração de quadros nacionais nos processos de decisão contribuiu para o aumento da capacidade operacional de 20 para 48 milhões de toneladas anuais. A empresa está também a desenvolver uma central eléctrica de valorização energética de resíduos, com capacidade de 300 MW, e um programa de formação destinado a 2.000 trabalhadores.

Por Arson Armindo Mbanguine

A Vulcan elevou a participação de trabalhadores moçambicanos na sua força de trabalho de 70% para 97% e aumentou a sua capacidade operacional de 20 milhões para 48 milhões de toneladas por ano, desde 2022. Segundo o Chief Executive Officer (CEO) da Vulcan Mozambique, Mukesh Kumar, os resultados estão associados à valorização do conteúdo local e à integração de profissionais nacionais nos processos de tomada de decisão.

Em entrevista, Kumar explicou que a empresa passou a encarar o conteúdo local como uma oportunidade estratégica para o crescimento do negócio, em vez de o tratar apenas como uma obrigação regulatória. A mudança de abordagem, segundo o responsável, procurou reforçar a participação dos trabalhadores moçambicanos na gestão e no desenvolvimento das operações.

O CEO afirmou ainda que a estratégia de integração de quadros nacionais e regionais contribuiu para a expansão da capacidade operacional da empresa, que passou de 20 milhões para 48 milhões de toneladas anuais.

Da dependência externa à tomada de decisão nacional

Antes de 2022, a operação do empreendimento dependia significativamente de especialistas estrangeiros, conhecidos como expatriados. Com a mudança na direcção executiva, a Vulcan introduziu alterações no modelo de gestão, procurando envolver os trabalhadores locais nos processos de planeamento, gestão e tomada de decisão.

Segundo Mukesh Kumar, a empresa conta actualmente com 21.000 colaboradores, dos quais 97% são moçambicanos. A força de trabalho inclui igualmente cidadãos do vizinho Malawi, cuja participação, segundo o responsável, se estende às operações e aos processos decisórios.

Ao explicar a evolução da empresa desde 2022, Kumar declarou:

“Quando assumimos em 2022, estávamos a operar a uma capacidade de 20 milhões de toneladas por ano. Acreditamos no conteúdo local e nas pessoas locais. É preciso confiar nelas e fazê-las parte da tomada de decisão. A menos que se tornem decisores, não conseguirão ter o desempenho adequado. Mudámos a participação local de 70% para 97% e tornámos cada moçambicano e malawiano parte da tomada de decisão”.

A empresa associa esta transformação ao aumento da capacidade operacional para 48 milhões de toneladas anuais. A evolução representa um acréscimo de 28 milhões de toneladas em relação ao nível indicado para 2022, embora a atribuição directa deste crescimento à integração de trabalhadores locais exija dados adicionais sobre os restantes factores operacionais envolvidos.

Central eléctrica de 300 MW e formação na Índia

No âmbito da expansão das suas infra-estruturas, a Vulcan está a desenvolver um projecto de central eléctrica de valorização energética de resíduos, tecnologia conhecida internacionalmente como waste-to-energy, com uma capacidade instalada prevista de 300 megawatts (MW).

A empresa apresenta o empreendimento como a primeira central deste género em Moçambique. A confirmação independente da primazia do projecto e dos seus detalhes técnicos, contudo, não consta da informação disponibilizada para esta notícia.

Para preparar trabalhadores nacionais para a operação desta tecnologia, a Vulcan implementou um programa de formação destinado a cerca de 2.000 trabalhadores recrutados localmente.

O programa compreende quatro meses de preparação teórica em linha (online), seguidos do envio dos técnicos para a Índia, onde realizam estágios práticos em centrais térmicas e instalações operacionais semelhantes.

A iniciativa visa dotar os participantes de conhecimentos técnicos e experiência prática para trabalharem numa infra-estrutura energética desta dimensão, reforçando as competências nacionais num domínio que exige preparação especializada.

Mukesh Kumar defende investimento no talento local

Durante a entrevista, o CEO da Vulcan Mozambique contestou a ideia de que a falta de experiência prévia em determinadas tecnologias constitui, por si só, uma razão para excluir trabalhadores nacionais de funções técnicas especializadas.

Kumar defendeu que o desenvolvimento das competências profissionais exige investimento em formação, acompanhamento e transferência de conhecimentos, sobretudo quando estão em causa tecnologias com as quais os trabalhadores ainda não tiveram contacto.

Ao abordar a questão, afirmou:

“Dizem por vezes que as pessoas não têm talento porque nunca montaram uma central eléctrica. Se pedir a alguém para operar uma fábrica que nunca viu na vida, dirá que essa pessoa não tem talento. Não: é preciso gastar algum tempo e dinheiro com elas. O talento local é obrigatório. A menos que se comece a utilizar o talento local, nenhuma empresa conseguirá sobreviver. Onde ele não existir, façam acompanhamento directivo (hand-holding), dêem formação e empoderamento”.

Na perspectiva do responsável, as empresas devem assumir um papel activo na preparação dos profissionais nacionais, investindo na aquisição de competências e criando condições para que estes possam assumir responsabilidades progressivamente mais complexas.

Esta abordagem pressupõe que as lacunas de experiência sejam enfrentadas através de formação e acompanhamento profissional, em vez de serem utilizadas automaticamente como fundamento para privilegiar o recrutamento de especialistas estrangeiros.

Conteúdo local no contexto dos grandes projectos

A participação de trabalhadores nacionais nos grandes empreendimentos extractivos e industriais tem sido objecto de debate em Moçambique, particularmente no que diz respeito ao acesso a empregos qualificados, à presença de cidadãos nacionais em cargos de chefia e à transferência de conhecimentos técnicos.

Ao longo dos anos, grandes projectos de exploração de recursos naturais e de infra-estruturas têm sido questionados quanto à sua capacidade de gerar oportunidades profissionais qualificadas para os moçambicanos e de promover o desenvolvimento de competências locais.

A estratégia descrita pela direcção da Vulcan procura responder a algumas destas preocupações através da integração de trabalhadores nacionais nas operações e nos processos de decisão, bem como do investimento na sua formação.

Todavia, a avaliação dos resultados exige considerar não apenas a proporção de trabalhadores moçambicanos, mas também a distribuição destes por níveis hierárquicos, as oportunidades de progressão profissional, a participação de fornecedores nacionais e a transferência efectiva de tecnologia.

A análise destes indicadores permitiria compreender melhor até que ponto o aumento do conteúdo local se traduz em maior autonomia técnica, capacidade de gestão e benefícios económicos duradouros para o país.

Emprego, autonomia técnica e desenvolvimento regional

A estratégia apresentada por Mukesh Kumar tem implicações em diferentes dimensões da actividade económica, nomeadamente no emprego, na formação profissional e na participação de trabalhadores nacionais e regionais.

Soberania e autonomia técnica: a formação de cerca de 2.000 trabalhadores para uma central eléctrica com capacidade prevista de 300 MW poderá contribuir para desenvolver competências nacionais na área da produção energética. A consolidação dessa capacidade dependerá da formação contínua e da participação efectiva dos técnicos nas operações.

Emprego e rendimento familiar: segundo os dados apresentados pela empresa, a Vulcan conta com 21.000 colaboradores, dos quais 97% são moçambicanos. Estes números indicam uma elevada participação nacional na força de trabalho. Contudo, a avaliação do impacto sobre a estabilidade financeira das famílias exige informação adicional sobre salários, modalidades contratuais e condições de trabalho.

Integração regional: a participação de trabalhadores malawianos nas operações e nos processos decisórios reflecte uma dimensão regional da estratégia empresarial. O alcance dos benefícios desta integração dependerá também das oportunidades de formação, da mobilidade profissional e das relações económicas entre os dois países.

Sustentabilidade empresarial: a aposta na formação e na participação dos trabalhadores nacionais constitui, segundo a abordagem defendida por Kumar, uma componente da estratégia de crescimento da empresa. A sustentabilidade dos resultados deverá ser avaliada à luz da produtividade, da evolução das competências profissionais e da capacidade de manter os ganhos operacionais ao longo do tempo.

O desafio de transformar conteúdo local em desenvolvimento sustentável

Os números apresentados pela Vulcan apontam para uma mudança significativa na composição da sua força de trabalho e na capacidade operacional desde 2022. A empresa declara ter elevado a participação de trabalhadores moçambicanos de 70% para 97%, aumentado a capacidade de 20 milhões para 48 milhões de toneladas anuais e iniciado a preparação de cerca de 2.000 trabalhadores para um projecto de produção energética de 300 MW.

A consolidação deste modelo dependerá da capacidade de transformar a participação laboral em autonomia técnica, progressão profissional e presença efectiva dos moçambicanos nos níveis de gestão e decisão.

Para Moçambique, a questão central consiste em assegurar que a expansão dos grandes empreendimentos industriais contribua não apenas para o aumento da capacidade operacional, mas também para a formação de quadros nacionais, o desenvolvimento de fornecedores locais e a criação de oportunidades económicas sustentáveis.

A experiência relatada pela Vulcan coloca, assim, a formação profissional e a integração de trabalhadores nacionais no centro do debate sobre o conteúdo local, sem dispensar a necessidade de dados independentes que permitam avaliar os resultados económicos, sociais e operacionais da estratégia.