Quatro décadas após a tragédia de Mbuzini, as causas da queda do avião presidencial continuam sem uma explicação definitiva consensual.
O antigo Presidente da República de Moçambique, Joaquim Chissano, afirmou que a investigação às circunstâncias da morte de Samora Machel ainda não está concluída. A declaração foi destacada numa entrevista publicada pelo jornal português Expresso, na quinta-feira, 15 de Outubro de 2026, a poucos dias da passagem do 40.º aniversário da tragédia de Mbuzini.
O acidente ocorreu a 19 de Outubro de 1986, quando o avião presidencial se despenhou em território sul-africano, provocando a morte de Samora Machel, primeiro Presidente de Moçambique independente, e de outros ocupantes da aeronave.
A afirmação de Chissano volta a colocar em evidência as dúvidas que persistem há quatro décadas sobre as circunstâncias que levaram à queda do avião e sobre a ausência de uma conclusão definitiva aceite pelas diferentes partes.
Tragédia de Mbuzini continua envolta em dúvidas
Samora Machel regressava de uma cimeira realizada em Lusaca, na Zâmbia, quando a aeronave presidencial, um Tupolev Tu-134A-3, caiu numa zona montanhosa próxima de Mbuzini, na actual província sul-africana de Mpumalanga.
O acidente vitimou o então Chefe do Estado moçambicano, além de outros passageiros, membros da tripulação e jornalistas que se encontravam a bordo.
Desde então, as circunstâncias da queda têm sido objecto de diferentes interpretações e investigações. Contudo, os trabalhos realizados não conseguiram produzir uma explicação definitiva consensual sobre a causa do desastre aéreo.
Duas versões sobre as causas do acidente
Uma das principais investigações foi conduzida pela Comissão Margo, criada pelas autoridades sul-africanas para apurar as circunstâncias da tragédia. A comissão atribuiu a queda a erros cometidos pela tripulação.
Entretanto, uma equipa soviética apresentou uma explicação diferente, segundo a qual a aeronave poderá ter sido desviada da rota prevista por um possível sinal de navegação falso.
As duas hipóteses alimentaram o debate sobre o que realmente aconteceu na noite de 19 de Outubro de 1986, sem que as divergências fossem definitivamente ultrapassadas.
Em 1998, a Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul concluiu que não existiam provas conclusivas suficientes para confirmar qualquer uma das duas explicações.
O relatório levantou ainda questões sobre as conclusões da investigação anterior, incluindo a possibilidade de ter sido utilizado um sinal de navegação falso e a ausência de um aviso das autoridades sul-africanas sobre o desvio da aeronave.
Perante as dúvidas que permaneceram, a Comissão de Verdade e Reconciliação considerou necessária a realização de investigações adicionais para esclarecer os aspectos ainda por resolver.
Moçambique e África do Sul assinalam 40 anos da tragédia
Moçambique e África do Sul deverão assinalar, na próxima segunda-feira, 19 de Outubro de 2026, o 40.º aniversário da tragédia de Mbuzini.
A cerimónia está prevista para o memorial de Mbuzini, local associado à memória das vítimas do acidente aéreo de 1986. A iniciativa conjunta pretende homenagear Samora Machel e os restantes cidadãos moçambicanos que perderam a vida na tragédia.
O memorial, que inclui um monumento e um espaço museológico dedicados à memória do antigo Presidente, constitui um dos locais de referência para recordar o acidente e as suas vítimas.
A declaração atribuída a Joaquim Chissano, divulgada poucos dias antes da efeméride, reacende o debate sobre a necessidade de esclarecer historicamente as circunstâncias da morte de Samora Machel.
Quatro décadas depois, as diferentes explicações sobre a queda do avião presidencial continuam a marcar um dos episódios mais significativos e controversos da história contemporânea de Moçambique.



