- O Banco Africano de Desenvolvimento antecipa uma recuperação económica lenta, depois de uma contracção estimada de 0,2% em 2025. O relatório projecta inflação de 8%, agravamento do défice orçamental para 6% do PIB e crescimento negativo do rendimento real por habitante, evidenciando as limitações estruturais da economia e a necessidade de acelerar as reformas para estimular o investimento, a produtividade e o emprego.
- Crescimento económico: AfDB projecta expansão do PIB de 0,5% em 2026 e 1,5% em 2027, depois de uma contracção estimada de 0,2% em 2025;
- Rendimento por habitante: PIB real per capita deverá recuar 2,3% em 2026 e 1,3% em 2027, indicando crescimento insuficiente face à dinâmica demográfica;
- Inflação: Preços deverão aumentar 8% em 2026, moderando para 6,5% em 2027, num contexto de custos energéticos elevados;
- Finanças públicas: Défice orçamental deverá atingir 6% do PIB em 2026, enquanto a dívida pública poderá aumentar para 79%;
- Sector externo: Défice da conta corrente é projectado em 31,4% do PIB em 2026 e 30,8% em 2027;
- Transformação económica: Banco defende maior diversificação produtiva, integração de empresas nacionais nas cadeias de valor e aceleração das reformas estruturais.
Economia Mantém Ritmo de Crescimento Inferior ao Potencial
A economia moçambicana deverá crescer apenas 0,5% em 2026 e 1,5% em 2027, segundo as novas projecções do Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB), apresentadas no Country Focus Report 2026 – Mozambique, publicado sob o tema da mobilização de financiamento para o desenvolvimento num contexto internacional de crescente fragmentação económica e financeira.
As previsões apontam para uma recuperação gradual depois da contracção de 0,2% estimada para 2025, ano marcado pelos efeitos da instabilidade sociopolítica pós-eleitoral, pela redução da actividade produtiva e pelas dificuldades de financiamento.
O desempenho projectado representa uma expansão económica insuficiente para acompanhar o crescimento da população e produzir melhorias sustentadas do rendimento médio.
O AfDB explica que a recuperação deverá ser sustentada principalmente pelos serviços, pela energia e pela reanimação da indústria extractiva. Contudo, antecipa que a actividade económica fora dos grandes projectos continuará relativamente moderada.
O relatório atribui particular importância à necessidade de diversificar a estrutura produtiva e ampliar a contribuição dos sectores intensivos em emprego, nomeadamente agricultura, indústria transformadora e serviços associados às cadeias de valor.
A trajectória projectada coloca Moçambique numa posição de crescimento significativamente inferior à média africana.
Para 2026, o AfDB aponta uma expansão de 4,2% para o continente africano, contra apenas 0,5% para Moçambique. Em 2027, a economia nacional deverá crescer 1,5%, enquanto as médias africana e da África Austral são projectadas em 4,4% e 2,7%, respectivamente.
PIB Per Capita Permanece Negativo Apesar da Recuperação
Uma das conclusões mais relevantes do relatório está relacionada com a evolução do produto interno bruto por habitante.
Embora o AfDB antecipe um regresso ao crescimento económico agregado, considera que a expansão será insuficiente para acompanhar o aumento da população moçambicana.
O banco projecta uma contracção do PIB real per capita de 2,3% em 2026 e de 1,3% em 2027, prolongando uma trajectória de redução do rendimento médio por habitante.
Este indicador constitui uma medida importante da capacidade de crescimento económico para acompanhar a dinâmica demográfica.
Uma economia pode apresentar taxas positivas de crescimento do PIB e, simultaneamente, registar uma diminuição da produção por habitante quando o ritmo de expansão da população supera o crescimento da actividade económica.
Para 2026, o AfDB estima uma população de 36,6 milhões de habitantes, aumentando para 37,6 milhões em 2027.
A divergência entre crescimento agregado e crescimento por habitante significa que a recuperação económica projectada poderá não se traduzir numa melhoria generalizada das condições materiais de vida.
O relatório assinala que Moçambique continua a enfrentar níveis elevados de pobreza e desigualdade, com limitações na capacidade do crescimento económico para gerar oportunidades de emprego e rendimentos suficientes.
Segundo estimativas do Africa Poverty Clock, citadas pelo AfDB, mais de 20 milhões de pessoas vivem em situação de pobreza extrema, enquanto o índice de Gini é projectado em aproximadamente 0,58 para 2025, indicador de elevada desigualdade na distribuição do rendimento.
A análise reforça a importância de políticas económicas capazes de aumentar a produtividade, desenvolver sectores empregadores e melhorar a capacidade de geração de rendimento das famílias.
Inflação de 8% Introduz Novas Restrições ao Crescimento
A recuperação económica prevista para 2026 deverá ocorrer num ambiente de aceleração da inflação.
O AfDB projecta uma taxa de inflação de 8% para 2026, depois de estimar 4,4% em 2025, antecipando uma moderação para 6,5% em 2027.
A deterioração das perspectivas de preços está associada sobretudo ao encarecimento dos transportes e combustíveis, num contexto de instabilidade no Médio Oriente e perturbações nas rotas internacionais de abastecimento energético.
O banco considera que a exposição de Moçambique às importações de combustíveis constitui um importante mecanismo de transmissão dos choques internacionais para a economia doméstica.
No capítulo dedicado aos riscos macroeconómicos, o AfDB destaca que cerca de 80% das importações de combustíveis do país transitam pelo Estreito de Ormuz, segundo a informação utilizada na preparação do relatório.
Esta exposição torna a economia particularmente vulnerável a eventuais interrupções no transporte marítimo e ao aumento das cotações internacionais de petróleo.
O documento identifica ainda riscos associados à importação de fertilizantes e outros insumos agrícolas, cujos preços podem ser afectados pela evolução do conflito no Médio Oriente.
A persistência destas pressões poderá afectar a estrutura de custos das empresas, reduzir o poder de compra das famílias e limitar a recuperação da procura interna.
Ao analisar as perspectivas para 2026–2027, o AfDB salienta que a inflação deverá situar-se, em média, em aproximadamente 7,3% durante o período, reflectindo sobretudo o aumento dos custos de transporte.
Consolidação Fiscal Continua Frágil e Dívida Pode Atingir 79% do PIB
As finanças públicas constituem outro elemento central do diagnóstico apresentado pelo AfDB.
O relatório estima que o défice orçamental tenha diminuído de 6,2% do PIB em 2024 para 3,7% em 2025.
Contudo, o banco observa que uma parte relevante desse ajustamento resultou da compressão da despesa pública, incluindo investimento e despesas sociais, em lugar de um aumento sustentado da capacidade de mobilização de receitas internas.
Esta composição do ajustamento introduz limitações à sustentabilidade da consolidação fiscal, na medida em que a redução do investimento público pode comprometer a expansão futura da capacidade produtiva e a melhoria dos serviços.
Para 2026, o AfDB projecta um agravamento do défice orçamental para 6% do PIB, seguido de uma redução para 4% em 2027.
A evolução reflecte pressões associadas ao serviço da dívida, às necessidades de financiamento e à redução dos recursos externos concessionais.
No domínio do endividamento, o banco estima que o rácio da dívida pública tenha diminuído para 74,7% do PIB em 2025, mas prevê uma subida para 79% em 2026.
A alteração da composição da dívida constitui igualmente uma preocupação.
Segundo o relatório, o recurso crescente ao financiamento doméstico tem aumentado os custos de endividamento e os riscos de refinanciamento, sobretudo devido ao peso de instrumentos de maturidade relativamente curta.
O AfDB identifica ainda pressões associadas ao pagamento de juros e ao vencimento de obrigações financeiras anteriormente contratadas.
Entre os compromissos relevantes destaca-se a obrigação soberana internacional de US$ 900 milhões, com cupão anual de 9%, cujo reembolso do capital deverá começar em 2028.
A instituição considera que a gestão prudente da dívida, o aumento da eficiência da despesa e a mobilização de receitas internas constituem prioridades para recuperar espaço orçamental e preservar os investimentos necessários ao desenvolvimento económico.
Sector Externo Enfrenta Agravamento dos Desequilíbrios
As perspectivas para o sector externo revelam outro conjunto de vulnerabilidades.
O AfDB projecta que o défice da conta corrente aumente de 13,5% do PIB em 2025 para 31,4% em 2026, mantendo-se em 30,8% em 2027.
A conta corrente reflecte, entre outros factores, as transacções internacionais de bens e serviços e os fluxos de rendimentos entre residentes e não residentes.
Um défice de grande dimensão indica necessidades significativas de financiamento externo, embora a sua interpretação dependa da composição das importações, dos investimentos associados e das fontes de financiamento disponíveis.
No caso de Moçambique, o aumento das importações de equipamentos e bens de capital associados aos grandes empreendimentos energéticos pode contribuir para ampliar temporariamente o défice externo.
Contudo, a concentração do financiamento em grandes investimentos extractivos introduz vulnerabilidades relacionadas com a evolução dos projectos, a disponibilidade internacional de capital e os fluxos financeiros das empresas investidoras.
O AfDB assinala que os fluxos de investimento directo estrangeiro atingiram aproximadamente US$ 5,6 mil milhões em 2025, apoiados principalmente pelos sectores do gás natural e da mineração.
Paralelamente, a assistência pública ao desenvolvimento tem perdido importância relativa, aumentando a necessidade de diversificar as fontes de financiamento.
A instituição considera que a mobilização de recursos domésticos, o desenvolvimento do sistema financeiro e a melhoria das condições de investimento privado serão determinantes para reduzir estas vulnerabilidades a médio e longo prazo.
Crescimento Extractivo Continua Com Ligações Limitadas à Economia Real
Apesar do potencial dos recursos minerais e energéticos, o AfDB considera que Moçambique apresenta progressos limitados na transformação estrutural da economia.
O relatório assinala que os serviços continuam a representar a maior parcela do PIB, enquanto a agricultura e a indústria apresentam desempenhos condicionados por problemas de produtividade, investimento e integração nas cadeias de valor.
Em 2025, segundo as estimativas do banco, os serviços representavam 44,4% do PIB, a agricultura 32,2% e a indústria 23,5%.
A maior participação relativa da agricultura reflecte também a alteração do peso dos restantes sectores, não constituindo necessariamente evidência de uma melhoria significativa da produtividade agrícola.
O AfDB considera que a dependência dos grandes empreendimentos extractivos limita a capacidade de geração de empregos e rendimentos distribuídos de forma mais ampla pela população.
Na análise das perspectivas de crescimento, a instituição salienta que a retoma dos projectos de gás natural liquefeito poderá melhorar as receitas externas e as reservas internacionais.
Contudo, a capacidade de converter esses benefícios em crescimento inclusivo exige o desenvolvimento de ligações produtivas com a economia nacional, a diversificação para actividades intensivas em emprego e a integração das empresas locais nas cadeias de valor regionais e internacionais.
Este diagnóstico converge com a necessidade de desenvolver uma estratégia de industrialização que permita aumentar o processamento nacional de matérias-primas e ampliar a participação das pequenas e médias empresas nos grandes investimentos.
A capacidade de transformar os recursos naturais em desenvolvimento económico sustentado continuará associada à qualidade das políticas industriais, à formação de competências, à disponibilidade de infra-estruturas e à competitividade empresarial.
AfDB Defende Reformas Fiscais, Produtivas e Institucionais
Perante a persistência de um crescimento reduzido, o AfDB apresenta um conjunto de recomendações destinadas a melhorar o desempenho económico de Moçambique.
No curto prazo, o banco privilegia o reforço da mobilização de receitas internas, o controlo da despesa, a modernização da administração tributária e a melhoria da gestão da dívida pública.
O relatório recomenda igualmente uma estratégia abrangente de formalização da economia informal, com instrumentos capazes de ampliar a base tributária sem comprometer a actividade económica dos pequenos operadores.
No domínio monetário e cambial, a instituição considera essencial preservar a estabilidade macroeconómica, melhorar a gestão das disponibilidades de divisas e desenvolver mecanismos de resposta a choques externos.
Para o médio e longo prazo, a prioridade recai sobre a redução da dependência de importações, o fortalecimento da produção nacional e a criação de condições mais favoráveis ao investimento privado.
O AfDB destaca ainda a importância da integração económica regional e da harmonização dos instrumentos comerciais no quadro da Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA).
A instituição recomenda investimentos em infra-estruturas produtivas, inovação, agricultura e desenvolvimento das indústrias associadas às cadeias agroalimentares.
Estas medidas são apresentadas como componentes de uma estratégia orientada para aumentar a competitividade, diversificar a economia e criar condições para um crescimento mais robusto e resiliente.
Recuperação Económica Continua Insuficiente Para Melhorar o Rendimento Médio
As projecções do AfDB para 2026 e 2027 apresentam uma economia que regressa gradualmente ao crescimento, mas permanece distante de uma trajectória de expansão capaz de produzir melhorias consistentes no rendimento por habitante.
O contraste entre o crescimento agregado e a contracção projectada do PIB per capita evidencia a importância de acelerar a transformação produtiva, aumentar a produtividade e estimular a criação de emprego.
A persistência de desequilíbrios fiscais e externos acrescenta restrições à capacidade de financiamento do investimento público e privado, enquanto a dependência dos grandes projectos extractivos mantém a economia exposta a riscos de concentração sectorial.
O relatório indica que a estabilização macroeconómica constitui uma condição necessária para o desenvolvimento, mas a recuperação sustentada exige políticas capazes de expandir a base produtiva e melhorar a capacidade de geração de rendimento.
A combinação entre consolidação fiscal, eficiência institucional, investimento privado e integração das empresas nacionais nas cadeias de valor apresenta-se, assim, como um dos principais eixos da agenda económica identificada pelo AfDB.
Com crescimento projectado de apenas 0,5% em 2026 e 1,5% em 2027, a economia moçambicana continuará a enfrentar uma distância significativa entre o seu potencial produtivo e os resultados efectivos do crescimento.



