- O novo programa regional ATHAZ, lançado no Zimbabwe, abrange também a Zâmbia e o Botswana e prevê beneficiar cerca de 75 mil pessoas até 2030. A iniciativa combina adaptação climática, inovação agrícola, gestão eficiente da água e acesso aos mercados, num modelo que oferece referências para a modernização da agricultura e o desenvolvimento do agronegócio em Moçambique.
- Financiamento europeu: União Europeia disponibiliza €14 milhões para o programa regional ATHAZ, implementado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA);
- Cobertura regional: Zimbabwe, Zâmbia e Botswana integram a iniciativa, prevista para o período 2026–2030;
- Beneficiários: Programa pretende alcançar 15 mil agregados familiares de pequenos produtores, correspondentes a aproximadamente 75 mil pessoas;
- Inovação agrícola: Serão estabelecidos nove centros de inovação agroecológica e fortalecidas 30 cadeias de valor hortícolas;
- Resiliência climática: Prioridade à eficiência no uso da água, sistemas de sementes resistentes, gestão de pragas e práticas produtivas sustentáveis;
- Relevância para Moçambique: A experiência regional evidencia oportunidades de integração entre financiamento, investigação, produção, transformação agro-industrial e acesso a mercados.
Financiamento Europeu Apoia Nova Abordagem à Agricultura Regional
A União Europeia e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) lançaram um programa regional de €14 milhões destinado a promover a transformação da produção hortícola em zonas áridas da África Austral, combinando adaptação às alterações climáticas, inovação tecnológica e integração dos pequenos produtores em cadeias de valor comercialmente sustentáveis.
Designado Agroecological Transitions for Horticulture in Arid Zones (ATHAZ), o programa foi apresentado a 8 de Outubro de 2026, em Harare, e será implementado até 2030 no Zimbabwe, na Zâmbia e no Botswana.
Segundo a Delegação da União Europeia no Zimbabwe, a iniciativa pretende aumentar a produtividade e a rentabilidade da horticultura em regiões particularmente vulneráveis à escassez de água e à variabilidade climática, promovendo simultaneamente melhores condições de acesso aos mercados.
O programa beneficiará aproximadamente 15 mil agregados familiares de pequenos agricultores, abrangendo cerca de 75 mil pessoas, com particular atenção às mulheres e aos jovens.
A estrutura do ATHAZ reflecte uma abordagem de desenvolvimento agrícola centrada na articulação entre produtividade, sustentabilidade ambiental e viabilidade económica.
Em lugar de concentrar os recursos exclusivamente na expansão da produção, o programa integra investigação aplicada, eficiência hídrica, desenvolvimento de mercados e fortalecimento da capacidade empresarial dos agricultores.
Esta orientação responde a um dos principais problemas estruturais da agricultura africana: a dificuldade de converter produção agrícola em rendimento estável e competitividade comercial, particularmente nas zonas rurais expostas a choques climáticos.
Eficiência Hídrica Torna-se Factor Central da Produtividade
A escassez de água constitui um dos principais obstáculos à expansão sustentável da horticultura em várias regiões da África Austral.
A produção de frutas e hortícolas exige disponibilidade relativamente regular de água, sobretudo em sistemas agrícolas orientados para mercados que valorizam continuidade de fornecimento, qualidade e previsibilidade dos volumes comercializados.
No âmbito do ATHAZ, os agricultores serão apoiados na adopção de soluções para melhorar a eficiência do uso da água, desenvolver sistemas de sementes adaptados a condições climáticas adversas e implementar métodos integrados de gestão de pragas.
O programa desenvolverá igualmente práticas agroecológicas destinadas a melhorar a produtividade, preservar os recursos naturais e reduzir determinadas vulnerabilidades ambientais.
Francesca Fabbri, encarregada de Negócios interina da Delegação da União Europeia no Zimbabwe, destacou, durante o lançamento, a importância de associar o conhecimento dos agricultores à investigação e ao investimento.
Segundo a responsável europeia, a disponibilidade de água pode determinar a diferença entre uma colheita bem-sucedida e a perda da produção, situação agravada pela crescente imprevisibilidade climática.
Fabbri sublinhou que a iniciativa permitirá trabalhar directamente com os produtores, sobretudo mulheres e jovens, para aumentar a produção utilizando menos água e melhorar o acesso a compradores capazes de oferecer preços adequados.
A abordagem insere-se no conceito de agricultura climaticamente resiliente, que combina medidas de adaptação às alterações climáticas com melhorias de produtividade e gestão sustentável dos recursos.
Na horticultura, esta orientação pode traduzir-se em sistemas de rega eficientes, tecnologias de monitorização da humidade, selecção de variedades adaptadas e melhor programação dos ciclos de produção.
A relevância económica destas medidas está associada à redução dos custos, à diminuição das perdas produtivas e à maior estabilidade dos rendimentos agrícolas.
Nove Centros de Inovação Aproximam Investigação e Produção
O ATHAZ prevê a criação de nove centros de inovação agroecológica nos três países abrangidos.
Estas estruturas deverão funcionar como plataformas de colaboração entre agricultores, investigadores, serviços de extensão rural e parceiros tecnológicos, permitindo testar e adaptar soluções às condições específicas de cada território.
A iniciativa contempla igualmente o fortalecimento de 30 cadeias de valor hortícolas, procurando melhorar a articulação entre produção, transformação e comercialização.
A implementação será coordenada pelo FIDA, com apoio técnico do International Centre of Insect Physiology and Ecology (icipe), do Research Institute of Organic Agriculture (FiBL) e da Biovision Africa Trust.
A participação destas instituições introduz uma componente científica destinada a melhorar a qualidade das soluções adoptadas e permitir a sua replicação noutras regiões.
Francesco Rispoli, director do FIDA para o Zimbabwe, explicou que o programa se apoia nos investimentos anteriormente realizados em irrigação e acesso aos mercados, procurando ampliar os resultados através da colaboração entre agricultores, investigadores e serviços de extensão rural.
De acordo com Rispoli, a iniciativa permitirá testar e disseminar soluções práticas para melhorar a produtividade, aumentar a eficiência no uso da água e facilitar a comercialização dos produtos agrícolas.
A integração da investigação nos processos produtivos constitui um elemento relevante para reduzir o distanciamento entre o conhecimento científico disponível e as práticas efectivamente utilizadas pelos pequenos produtores.
Esta aproximação poderá contribuir para acelerar a adopção de tecnologias, melhorar a gestão dos riscos agrícolas e criar condições para a expansão de modelos produtivos economicamente sustentáveis.
Integração nos Mercados Determina Rentabilidade Agrícola
Um dos aspectos centrais do programa reside no desenvolvimento das ligações entre agricultores e mercados consumidores.
A produção hortícola apresenta características que tornam particularmente importante a organização das cadeias de abastecimento.
Frutas e hortícolas são produtos perecíveis, frequentemente sujeitos a perdas significativas quando existem deficiências de armazenamento, transporte, conservação e distribuição.
A ausência de compradores estáveis, informação de mercado e mecanismos de financiamento pode reduzir a capacidade dos produtores para transformar aumentos de produtividade em rendimentos efectivos.
Neste contexto, o ATHAZ pretende fortalecer a organização das cadeias de valor, promover oportunidades de transformação agro-industrial e facilitar o acesso a mercados de maior valor comercial.
Segundo a Delegação da União Europeia, a iniciativa integra uma estratégia mais ampla de apoio a cadeias agroalimentares sustentáveis, incluindo a utilização de tecnologia europeia, equipamentos especializados e instrumentos de financiamento.
A estratégia contempla igualmente o desenvolvimento de oportunidades comerciais entre empresas africanas e europeias, incluindo o acesso a mercados internacionais com maiores exigências de qualidade e certificação.
A ligação entre produção e comercialização assume particular importância na análise da rentabilidade agrícola.
O aumento da produção pode gerar benefícios limitados quando não existe capacidade de absorção pelo mercado ou quando as deficiências logísticas provocam perdas elevadas após a colheita.
Pelo contrário, uma organização mais eficiente da cadeia de valor pode permitir melhores preços ao produtor, maior regularidade dos fornecimentos e desenvolvimento de actividades complementares de armazenamento, transporte, embalagem e processamento.
Financiamento Agrícola Passa Pela Redução dos Riscos Produtivos
A iniciativa também apresenta implicações para o financiamento da actividade agrícola.
Os pequenos produtores enfrentam frequentemente dificuldades de acesso ao crédito devido à irregularidade dos rendimentos, à exposição climática e à reduzida disponibilidade de garantias financeiras.
A combinação de irrigação eficiente, assistência técnica, organização empresarial e acesso a compradores pode contribuir para reduzir parte destes riscos.
Esta lógica aproxima-se dos modelos de financiamento das cadeias de valor agrícolas, nos quais a concessão de crédito considera as relações comerciais entre produtores, fornecedores de insumos, compradores e entidades de transformação.
Ao melhorar a previsibilidade da produção e da comercialização, estas estruturas podem criar condições mais favoráveis para a participação das instituições financeiras.
Contudo, o financiamento europeu anunciado para o ATHAZ não deve ser confundido com uma linha de crédito integralmente destinada aos agricultores.
O montante de €14 milhões corresponde ao orçamento global do programa regional, que inclui actividades de investigação, inovação, capacitação, assistência técnica e fortalecimento das cadeias de valor.
A informação institucional disponível não apresenta uma distribuição financeira detalhada por país ou componente de intervenção.
A avaliação dos resultados deverá, por isso, considerar indicadores como produtividade agrícola, adopção de tecnologias, eficiência hídrica, rendimentos dos agricultores, acesso aos mercados e capacidade de sustentabilidade das actividades após o encerramento do programa.
Experiência Regional Apresenta Referências Para a Agricultura Moçambicana
Embora Moçambique não integre os três países beneficiários directos do ATHAZ, a iniciativa apresenta elementos relevantes para o debate sobre a transformação dos sistemas agroalimentares nacionais.
A agricultura moçambicana enfrenta problemas relacionados com produtividade, dependência das condições climáticas, limitações de irrigação, acesso ao financiamento e integração insuficiente entre produção, transformação e comercialização.
A experiência regional demonstra a importância de estruturar intervenções que articulem diferentes componentes do sistema agrícola, evitando que os investimentos em produção ocorram de forma desligada das condições de acesso aos mercados.
A expansão da horticultura comercial poderá contribuir para aumentar o abastecimento interno de alimentos, reduzir determinadas importações, diversificar os rendimentos rurais e desenvolver pequenas unidades agro-industriais.
Contudo, estes resultados exigem intervenções complementares em infra-estruturas de irrigação, estradas rurais, energia, armazenamento, conservação e serviços de extensão agrária.
A integração dos produtores em cadeias comerciais mais organizadas também pode contribuir para melhorar a previsibilidade dos rendimentos e facilitar o acesso ao financiamento.
A existência de experiências regionais como o ATHAZ proporciona referências para a formulação de programas que articulem agricultura resiliente, desenvolvimento empresarial e criação de valor acrescentado.
Transformação Agrícola Exige Produtividade, Mercados e Rendimento
O lançamento do ATHAZ ocorre num período em que a adaptação climática e a transformação dos sistemas agroalimentares assumem crescente importância nas estratégias de desenvolvimento económico da África Austral.
Os €14 milhões disponibilizados pela União Europeia representam um investimento orientado para demonstrar soluções de produção agrícola mais eficientes, resilientes e comercialmente sustentáveis.
A meta de beneficiar aproximadamente 75 mil pessoas e fortalecer 30 cadeias de valor estabelece uma referência quantitativa para acompanhar os resultados da iniciativa até 2030.
Entretanto, a capacidade de transformar essas metas em benefícios económicos efectivos será observável através da evolução dos rendimentos dos agricultores, da estabilidade da produção e do acesso a mercados estruturados.
O programa evidencia uma tendência crescente no financiamento internacional do desenvolvimento agrícola: a combinação entre investigação aplicada, adaptação climática, produtividade e integração comercial.
Esta abordagem reconhece que a sustentabilidade económica das explorações agrícolas exige uma articulação funcional entre recursos naturais, conhecimento, investimento, infra-estruturas e procura.
A experiência do Zimbabwe, da Zâmbia e do Botswana poderá, assim, oferecer referências relevantes para outras economias da região, incluindo Moçambique, particularmente na construção de sistemas agroalimentares capazes de aumentar a produção, criar emprego e ampliar o valor acrescentado gerado nas zonas rurais.



