Kristalina Georgieva adverte que os riscos da inteligência artificial poderão superar os seus benefícios económicos se a expansão da tecnologia não for acompanhada por regras éticas, mecanismos de segurança e supervisão adequada. O aviso surge nas reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, em Banguecoque, quando a instituição financeira alerta para uma possível correcção dos investimentos em IA e para as consequências sobre o emprego, os mercados financeiros e o crescimento global. Em Moçambique, o debate coincide com a preparação de uma Estratégia Nacional de Inteligência Artificial e evidencia a importância da conectividade, do acesso à electricidade e da qualificação profissional.

Questões-Chave:

  • Directora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, alerta que os riscos da inteligência artificial poderão exceder as oportunidades na ausência de salvaguardas e de um enquadramento ético;
  • Relatório de Estabilidade Financeira Global do FMI, divulgado em Outubro, identifica uma possível correcção das avaliações de activos ligados à IA entre os factores capazes de desencadear turbulência financeira;
  • Expansão dos investimentos em centros de dados, semicondutores e infra-estruturas tecnológicas está a sustentar parte do crescimento mundial, embora os ganhos de produtividade continuem sujeitos a incerteza;
  • Anthropic defende normas comuns de segurança e mecanismos regulatórios que não dependam exclusivamente de compromissos voluntários das empresas;
  • Economistas alertam para dois cenários de risco: deslocação de trabalhadores se a tecnologia produzir ganhos rápidos de produtividade, ou perdas financeiras se os investimentos não gerarem os retornos esperados;
  • FMI identifica o acesso à electricidade, à conectividade e à regulação como condições necessárias para uma distribuição mais ampla dos benefícios da IA;
  • Moçambique iniciou em 2026 a consulta pública da sua Estratégia Nacional de Inteligência Artificial, num contexto de limitações de acesso às infra-estruturas digitais e de necessidade de desenvolver competências tecnológicas.

A inteligência artificial está a transformar as perspectivas de crescimento da economia mundial, mas a velocidade do seu desenvolvimento poderá criar riscos económicos, financeiros e sociais superiores às oportunidades prometidas, caso governos e empresas não estabeleçam mecanismos eficazes de segurança, supervisão e responsabilidade.

O alerta foi lançado esta sexta-feira, 16 de Outubro, pela directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, durante um debate nas reuniões anuais da instituição e do Banco Mundial, realizadas em Banguecoque, na Tailândia.

Georgieva reconheceu que a inteligência artificial já está a contribuir para dinamizar a economia global, através do investimento tecnológico e da modernização de actividades produtivas. Contudo, advertiu que a ausência de regras adequadas poderá transformar uma das principais fontes de optimismo económico da actualidade num factor de instabilidade.

A dirigente considerou indispensável estabelecer salvaguardas e uma base ética para orientar a utilização da tecnologia, manifestando dúvidas sobre a existência de condições suficientes para assegurar esse objectivo à escala mundial.

As declarações, divulgadas pela Reuters, ocorreram num debate que contou com a participação de Jack Clark, cofundador da Anthropic, empresa norte-americana responsável pelo desenvolvimento de sistemas avançados de inteligência artificial.

A discussão realizou-se três dias depois de o FMI ter divulgado o seu relatório semestral sobre a estabilidade financeira internacional, no qual identificou os riscos de uma correcção dos preços dos activos relacionados com a IA como uma das principais ameaças aos mercados.

O alerta surge numa conjuntura particular: os investimentos tecnológicos continuam a estimular a actividade económica em vários países, mas a concentração de capitais, o recurso crescente ao endividamento e as expectativas elevadas de rentabilidade estão a aumentar a exposição dos mercados a eventuais resultados inferiores aos projectados.

A preocupação estende-se ao emprego e à distribuição do rendimento. Os sistemas de inteligência artificial apresentam capacidade para automatizar tarefas, aumentar a produtividade e transformar processos empresariais, mas os seus efeitos sobre os salários, a procura de trabalhadores e a desigualdade económica permanecem incertos.

A ausência de regras adequadas poderá ainda ampliar riscos relacionados com privacidade, utilização indevida de informação, discriminação algorítmica, cibersegurança e responsabilização por decisões automatizadas.

A intervenção de Georgieva coloca, assim, a inteligência artificial numa posição cada vez mais relevante da agenda macroeconómica internacional: uma tecnologia com potencial para aumentar a produtividade e sustentar o crescimento, mas cujos efeitos dependem das condições de adopção, da capacidade institucional e da resposta das políticas públicas.

Investimento em IA Sustenta Crescimento, Mas FMI Alerta Para Correcção Financeira

A preocupação da directora-geral do FMI surge numa altura em que a inteligência artificial se tornou uma das principais forças de dinamização do investimento mundial.

Os grandes grupos tecnológicos estão a mobilizar recursos para expandir centros de dados, adquirir semicondutores, desenvolver modelos avançados e assegurar capacidade energética suficiente para operar sistemas de computação cada vez mais exigentes.

Estes investimentos criam procura de equipamentos, construção, electricidade, serviços de engenharia e infra-estruturas digitais, produzindo efeitos económicos que ultrapassam o sector tecnológico.

No seu Relatório Anual de 2026, o FMI estima que o investimento associado à inteligência artificial tenha acrescentado aproximadamente 0,5 pontos percentuais ao crescimento do PIB dos Estados Unidos em 2025.

O documento refere ainda estimativas externas segundo as quais o investimento privado mundial em IA poderá ultrapassar US$ 2 biliões em 2026, embora este valor constitua uma projecção e não um montante de despesa efectivamente confirmado.

O crescimento do investimento tecnológico também influenciou as perspectivas macroeconómicas apresentadas pelo Fundo nas reuniões de Banguecoque.

Na edição de Outubro do World Economic Outlook, a instituição projecta uma expansão da economia mundial de 3,1% em 2026 e 3,4% em 2027, reconhecendo que o dinamismo associado à IA está a compensar parcialmente os efeitos negativos da instabilidade geopolítica e do aumento dos preços da energia.

Inteligência Artificial e Economia Global — Indicadores do FMI

Indicador Valor
Contributo estimado da IA para o PIB dos EUA em 2025+0,5 pontos percentuais
Investimento privado global em IA, 2026Mais de US$ 2 biliões (estimativa)
Crescimento económico mundial previsto para 20263,1%
Crescimento económico mundial previsto para 20273,4%

O problema identificado pelo FMI reside na distância que poderá existir entre a dimensão dos investimentos realizados e a produtividade que a tecnologia efectivamente vier a proporcionar.

Os investidores estão a atribuir valor elevado a empresas cuja rentabilidade futura depende da expansão da procura por serviços de inteligência artificial e da capacidade dos respectivos clientes para obter ganhos económicos com a sua utilização.

Se esses ganhos demorarem a concretizar-se, ou forem inferiores aos esperados, as empresas poderão enfrentar dificuldades para justificar a magnitude das despesas de capital realizadas.

Uma revisão das expectativas poderá provocar quedas nas avaliações bolsistas, redução dos investimentos e dificuldades financeiras em empresas particularmente expostas ao sector.

O Global Financial Stability Report, publicado a 13 de Outubro, identifica uma possível correcção dos activos relacionados com a IA como um dos principais factores de risco para os mercados internacionais.

O FMI alerta que a concentração dos investimentos em determinadas empresas e o aumento do recurso ao endividamento poderão ampliar os efeitos de uma eventual correcção, transmitindo perdas a investidores, instituições financeiras e outros segmentos da economia.

A instituição identifica ainda os riscos associados ao aumento das taxas de rendibilidade da dívida soberana e à sofisticação crescente dos ataques informáticos.

A avaliação não significa que o FMI esteja a antecipar necessariamente uma crise financeira provocada pela inteligência artificial. O alerta refere-se a vulnerabilidades que poderão intensificar os efeitos de um ajustamento do mercado caso os retornos esperados não se concretizem.

Dani Rodrik Identifica Dois Riscos: Desemprego Tecnológico ou Correcção Financeira

As incertezas sobre o retorno económico da inteligência artificial foram igualmente abordadas pelo economista da Universidade de Harvard Dani Rodrik.

Em declarações à Reuters, Rodrik considerou que a economia mundial enfrenta duas possibilidades com consequências distintas.

Se a inteligência artificial proporcionar os ganhos de produtividade esperados, poderá acelerar a automatização de actividades e reduzir a procura de determinados trabalhadores.

Se esses ganhos não se concretizarem, o elevado investimento realizado em centros de dados e outras infra-estruturas tecnológicas poderá originar perdas financeiras significativas.

A análise apresenta um dilema económico: o sucesso tecnológico pode provocar ajustamentos relevantes no mercado de trabalho, enquanto o insucesso comercial pode desencadear uma correcção dos investimentos.

A dimensão dos efeitos dependerá da capacidade das empresas para utilizar a IA como instrumento de aumento da produtividade, da rapidez de adopção e da existência de mecanismos de adaptação profissional.

A substituição de determinadas tarefas poderá reduzir a procura de trabalhadores em algumas funções, mas a tecnologia também poderá criar actividades, serviços e especializações que actualmente apresentam uma dimensão reduzida.

A distribuição dos benefícios continuará a variar entre sectores económicos, empresas e categorias profissionais.

O presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, acrescentou outra preocupação durante os debates em Banguecoque: os elevados investimentos necessários em equipamentos e software poderão ampliar os desequilíbrios internacionais.

As economias com maior capacidade financeira e tecnológica estão melhor posicionadas para desenvolver e comercializar sistemas avançados, enquanto outros países poderão tornar-se predominantemente consumidores de serviços digitais produzidos no exterior.

Este processo poderá aprofundar a concentração empresarial e tecnológica, sobretudo se o acesso aos sistemas mais avançados continuar limitado a um número reduzido de operadores.

FMI Estima Que 40% do Emprego Mundial Está Exposto à Inteligência Artificial

A transformação do mercado de trabalho constitui uma das principais dimensões económicas da expansão da IA.

Segundo as análises do FMI, aproximadamente 40% dos empregos mundiais apresentam exposição potencial à inteligência artificial, proporção que aumenta para cerca de 60% nas economias avançadas.

Nos mercados emergentes, o indicador situa-se em torno de 40%, enquanto nos países de baixo rendimento corresponde a aproximadamente 28%.

Empregos Potencialmente Expostos à IA

Grupo de economias Exposição potencial
Economias avançadas60%
Economias emergentes40%
Países de baixo rendimento28%
Média mundial40%

Estimativas de exposição ocupacional à inteligência artificial, não previsões de desemprego. Fonte: FMI, estudo sobre competências e emprego na era da IA, Janeiro de 2026.

Estes indicadores não significam que os empregos identificados serão necessariamente eliminados.

A exposição mede a proporção de funções cujas tarefas poderão ser afectadas pela tecnologia, através de automatização, reorganização do trabalho ou complementaridade entre trabalhadores e sistemas de IA.

Nas economias avançadas, a elevada participação de profissões intensivas em informação e conhecimento aumenta a exposição a ferramentas capazes de executar tarefas de análise, programação, produção de conteúdos e tratamento de dados.

Nos países de menor rendimento, a predominância de actividades agrícolas, informais e manuais reduz a exposição directa em determinados sectores, mas também limita o potencial de aproveitamento imediato dos ganhos de produtividade.

O Fundo considera que os trabalhadores com competências digitais e capacidade de adaptação poderão beneficiar de novas oportunidades, enquanto profissões com tarefas facilmente automatizáveis enfrentarão maior pressão.

Os jovens que entram no mercado de trabalho e os profissionais com qualificações intermédias estão entre os grupos que poderão encontrar mudanças significativas nas oportunidades de emprego.

A evolução poderá também influenciar a distribuição do rendimento entre trabalho e capital.

Se uma parcela crescente da produção passar a ser assegurada por sistemas automatizados, os ganhos de produtividade poderão concentrar-se nas empresas proprietárias da tecnologia e nos trabalhadores com competências mais valorizadas.

Este movimento poderá criar novos desafios à política fiscal, especialmente em economias onde uma parte importante da arrecadação tributária está associada aos rendimentos do trabalho.

O FMI defende, por isso, políticas de qualificação, requalificação profissional e protecção social capazes de acompanhar a reorganização das actividades económicas.

Anthropic Defende Normas Comuns e Supervisão das Empresas de Tecnologia

A velocidade de desenvolvimento dos sistemas de IA está a colocar dificuldades aos modelos tradicionais de regulação.

Durante o debate em Banguecoque, Kristalina Georgieva utilizou uma analogia com a Fórmula 1 para ilustrar a rapidez da evolução tecnológica e a necessidade de estabelecer mecanismos de protecção.

A directora-geral do FMI considerou que a regulamentação exclusivamente governamental poderá ter dificuldades para acompanhar as mudanças técnicas, defendendo uma combinação de autorregulação empresarial, participação dos governos e envolvimento da sociedade.

Jack Clark, cofundador da Anthropic, concordou com a necessidade de criar normas comuns para o sector, salientando que a empresa já realiza testes regulares aos seus sistemas e divulga informações sobre os resultados.

Contudo, Clark reconheceu que a supervisão não deveria depender inteiramente da vontade individual das empresas.

O gestor defendeu o desenvolvimento de padrões de segurança amplamente partilhados, capazes de aumentar a confiança dos utilizadores e das instituições.

A União Europeia avançou com mecanismos regulatórios destinados a estabelecer obrigações diferenciadas consoante os riscos das aplicações de IA, enquanto nos Estados Unidos se desenvolveram compromissos empresariais e diferentes iniciativas de supervisão.

As divergências internacionais continuam, contudo, a dificultar a definição de regras comuns.

Durante as reuniões de Banguecoque, representantes norte-americanos defenderam uma abordagem que atribuísse maior destaque às oportunidades económicas da IA, considerando excessiva a atenção dedicada aos seus riscos.

A subsecretária do Tesouro dos Estados Unidos, Erin Browne, argumentou que a instituição deveria considerar também a possibilidade de choques positivos de produtividade e crescimento.

O contraste evidencia duas preocupações que coexistem entre os responsáveis económicos: evitar riscos tecnológicos e financeiros, sem criar obstáculos desnecessários à inovação.

Para o FMI, a resposta passa por equilibrar as duas dimensões, assegurando que a rapidez da transformação tecnológica seja acompanhada por mecanismos de segurança, responsabilidade e confiança.

Moçambique Prepara Estratégia Nacional de IA Enquanto FMI Alerta Para os Riscos da Adopção

As advertências apresentadas em Banguecoque encontram Moçambique numa fase de definição das orientações nacionais para o desenvolvimento e utilização da inteligência artificial.

Em Maio de 2026, o Instituto Nacional de Tecnologias de Informação e Comunicação (INTIC) disponibilizou para consulta pública a primeira versão da proposta da Estratégia Nacional de Inteligência Artificial, reconhecendo o potencial da tecnologia para aumentar a produtividade, modernizar a prestação de serviços públicos e estimular a inovação empresarial.

O processo contempla a participação de instituições públicas, empresas, universidades, profissionais de tecnologia e organizações da sociedade civil.

Em Setembro, o INTIC voltou a destacar a importância de desenvolver competências nacionais, infra-estruturas digitais e mecanismos de utilização responsável dos sistemas de IA.

A 30 de Setembro, durante um workshop na Universidade Eduardo Mondlane, o presidente do Conselho de Administração do INTIC, Lourino Chemane, apresentou as principais orientações para a governação da inteligência artificial em Moçambique.

O debate abrangeu aplicações na educação, saúde, agricultura, direito e outras actividades, articulando o desenvolvimento tecnológico com princípios de segurança, inclusão e responsabilidade.

Na mesma ocasião, a Universidade Eduardo Mondlane apresentou uma directriz institucional para orientar a utilização responsável da IA nas suas actividades académicas.

A proposta nacional contempla seis dimensões de intervenção, incluindo infra-estruturas, economia digital, aplicações sociais, segurança, direitos fundamentais e governação.

Estas prioridades apresentam correspondência com as preocupações defendidas pela directora-geral do FMI sobre a necessidade de integrar o desenvolvimento da tecnologia com regras éticas, capacidade institucional e mecanismos de supervisão.

Contudo, a documentação oficial consultada até 16 de Outubro confirma a elaboração e consulta pública da estratégia, não a sua aprovação definitiva como instrumento nacional em vigor.

A consolidação do quadro institucional será importante para estabelecer responsabilidades, orientar investimentos, proteger informação sensível e apoiar a utilização da tecnologia por empresas e instituições públicas.

A articulação com a Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044 e com a Estratégia Nacional de Transformação Digital, também em preparação, poderá contribuir para integrar a IA nos objectivos de diversificação económica, modernização administrativa e aumento da produtividade.

Electricidade e Internet Continuam a Limitar a Difusão da Tecnologia

Uma das observações mais relevantes de Kristalina Georgieva relaciona-se com as condições necessárias para assegurar que a inteligência artificial produza benefícios económicos amplamente distribuídos.

A directora-geral do FMI identificou três requisitos importantes: acesso à electricidade, disponibilidade de infra-estruturas digitais e enquadramento regulatório adequado.

A questão adquire particular importância nas economias africanas, onde os constrangimentos energéticos e de conectividade continuam a limitar a utilização de tecnologias digitais por empresas, instituições públicas e famílias.

Em Moçambique, os indicadores do Banco Mundial ilustram a dimensão destas limitações.

Segundo a base de dados da instituição, 36% da população tinha acesso à electricidade em 2023, enquanto a proporção de indivíduos que utilizavam a Internet atingia aproximadamente 21% em 2024. São os anos de referência dos indicadores consultados, pelo que estes valores não devem ser confundidos com uma medição da situação em Outubro de 2026.

A expansão posterior das redes energéticas e de telecomunicações poderá alterar estes indicadores, mas a desigualdade de acesso continua a constituir uma questão relevante para a transformação digital.

Sem fornecimento eléctrico regular, conectividade de qualidade e equipamentos acessíveis, numerosas empresas terão dificuldades para utilizar ferramentas digitais avançadas de forma consistente.

Os custos de acesso à Internet e a disponibilidade de profissionais qualificados também influenciam a adopção de sistemas de IA.

A diferença entre empresas com capacidade para investir em soluções tecnológicas e unidades económicas que ainda enfrentam dificuldades de digitalização básica poderá acentuar disparidades de produtividade.

As pequenas e médias empresas apresentam vulnerabilidades particulares, considerando as limitações de capital, formação e acesso a serviços especializados.

Neste contexto, a utilização da IA poderá contribuir para melhorar a competitividade empresarial, mas os resultados dependerão da capacidade de integrar a tecnologia em processos produtivos existentes.

A expansão da conectividade, a alfabetização digital e o desenvolvimento das competências tecnológicas constituem, por isso, componentes económicas da transformação digital.

Agricultura, Saúde, Educação e Serviços Financeiros Oferecem Oportunidades de Produtividade

Apesar das limitações estruturais, a inteligência artificial poderá apoiar melhorias de produtividade em diferentes sectores da economia moçambicana.

Na agricultura, ferramentas de análise de dados e previsão podem contribuir para melhorar a gestão das culturas, acompanhar condições meteorológicas, identificar determinadas pragas e apoiar decisões de produção e comercialização.

A sua utilização exige, contudo, informação fiável, acesso a equipamentos e soluções adaptadas às condições dos produtores.

Na saúde, sistemas de apoio à análise clínica e gestão de informação podem contribuir para melhorar processos administrativos e apoiar profissionais, desde que a sua utilização respeite requisitos de validação técnica, confidencialidade e supervisão humana.

Na educação, a IA oferece possibilidades de apoio à aprendizagem, preparação de materiais e desenvolvimento de competências, mas introduz preocupações relacionadas com a fiabilidade da informação e a avaliação do desempenho dos estudantes.

Nos serviços financeiros, a tecnologia pode melhorar o tratamento de dados, a detecção de fraudes, a prestação de serviços e determinados processos de avaliação de risco.

A utilização destes sistemas exige especial atenção à protecção de dados pessoais, à segurança informática e à possibilidade de decisões automatizadas produzirem resultados discriminatórios.

Na administração pública, aplicações de IA podem apoiar a organização documental, o atendimento aos cidadãos, a análise de informação e a identificação de inconsistências em determinados procedimentos.

Estas utilizações deverão ser avaliadas em função dos custos, da qualidade dos resultados e da capacidade das instituições para assegurar controlo e responsabilização.

Em todos os sectores, os ganhos económicos dependerão da forma como a tecnologia é integrada no trabalho, da qualidade dos dados disponíveis e da formação dos utilizadores.

A experiência internacional demonstra que a aquisição de novas ferramentas tecnológicas não produz necessariamente aumentos imediatos de produtividade. São frequentemente necessárias mudanças nos processos de gestão, investimento complementar e adaptação das competências profissionais.

Segurança Cibernética Acrescenta Uma Nova Dimensão ao Risco Financeiro

A expansão da inteligência artificial também está a modificar a natureza dos riscos enfrentados pelas instituições financeiras.

O FMI identifica as ameaças cibernéticas entre os factores capazes de comprometer a estabilidade dos mercados, numa altura em que bancos, sistemas de pagamentos e intermediários financeiros dependem crescentemente de plataformas digitais.

Ferramentas avançadas de IA podem contribuir para melhorar a detecção de fraudes e o acompanhamento de operações suspeitas, mas também podem ser utilizadas para desenvolver ataques informáticos mais sofisticados.

A utilização automatizada de técnicas de manipulação, identificação de vulnerabilidades e produção de mensagens fraudulentas pode aumentar a velocidade e a escala de determinadas ameaças.

O risco torna-se particularmente relevante quando diferentes instituições dependem dos mesmos fornecedores tecnológicos, infra-estruturas informáticas ou modelos de inteligência artificial.

Uma falha num serviço utilizado por numerosas entidades poderá produzir efeitos simultâneos, afectando operações, pagamentos e confiança dos utilizadores.

A preocupação levou representantes financeiros das principais economias industrializadas a discutir mecanismos de cooperação e exercícios de preparação para incidentes cibernéticos associados à IA.

Durante as reuniões de Banguecoque, ministros das Finanças do G7 analisaram propostas de simulação de ataques informáticos dirigidos ao sector bancário e a infra-estruturas financeiras críticas.

Em Moçambique, a digitalização do sistema bancário, dos pagamentos electrónicos e dos serviços públicos aumenta a importância de desenvolver mecanismos de protecção de dados e segurança operacional.

A incorporação da IA nestas actividades poderá proporcionar ganhos de eficiência, mas deverá ser acompanhada por avaliações de risco, testes, procedimentos de auditoria e mecanismos de resposta a incidentes.

As preocupações internacionais apontam para uma necessidade crescente de coordenação entre autoridades reguladoras, instituições financeiras e entidades responsáveis pela segurança cibernética.

Governar a IA Torna-se Parte da Agenda de Competitividade Económica

A intervenção de Kristalina Georgieva reflecte uma mudança na forma como as instituições económicas internacionais estão a analisar a inteligência artificial.

O debate deixou de estar concentrado exclusivamente no potencial tecnológico e passou a integrar questões de estabilidade financeira, produtividade, emprego, desigualdade, governação e segurança.

A capacidade de desenvolver e utilizar sistemas avançados pode tornar-se um factor importante de diferenciação competitiva entre países e empresas.

Economias com infra-estruturas adequadas, capital humano qualificado e instituições capazes de acompanhar as mudanças tecnológicas poderão estar melhor posicionadas para captar oportunidades de investimento e ganhos de produtividade.

Nos países com maiores limitações estruturais, a adopção da IA poderá avançar de forma desigual, beneficiando inicialmente as empresas e instituições que dispõem de melhor acesso a energia, conectividade e competências digitais.

O risco identificado pelo FMI envolve, portanto, duas dimensões complementares.

A primeira relaciona-se com a possibilidade de o entusiasmo dos investidores ultrapassar os resultados económicos efectivamente gerados pela tecnologia, provocando ajustamentos nos mercados financeiros.

A segunda corresponde às consequências sociais e económicas da adopção acelerada da IA, particularmente sobre o emprego, a distribuição do rendimento e a segurança dos sistemas utilizados.

A resposta defendida por Georgieva assenta na combinação entre inovação, normas de segurança, responsabilidade empresarial, regulação e participação dos governos.

Em Moçambique, a preparação da Estratégia Nacional de Inteligência Artificial oferece uma oportunidade para integrar estas preocupações na agenda económica e institucional, ao mesmo tempo que se identificam aplicações capazes de melhorar a produtividade e a prestação de serviços.

A definição das prioridades deverá considerar as condições concretas do País, incluindo energia, infra-estruturas digitais, competências profissionais, financiamento empresarial e capacidade de regulação.

A tecnologia apresenta oportunidades para modernizar sectores produtivos e estimular novas actividades económicas, mas os benefícios não decorrerão automaticamente da disponibilidade dos sistemas.

A advertência do FMI coloca a inteligência artificial perante uma exigência económica e institucional: assegurar que o crescimento dos investimentos tecnológicos seja acompanhado por ganhos efectivos de produtividade, adaptação do mercado de trabalho e mecanismos capazes de proteger a estabilidade financeira e os direitos dos cidadãos.

O desenvolvimento da IA está a acelerar. A dimensão dos seus benefícios económicos será influenciada pela qualidade das instituições, pela capacidade de adopção das empresas e pela existência de condições que permitam distribuir os ganhos tecnológicos de forma mais ampla.

/wp:post-content