As más condições das estradas do país têm sido um dos principais nós de estrangulamento para as empresas mineiras que operam em território nacional, aumentando sobremaneira os custos de transporte de minérios e de toda a cadeia logística. Esta situação tem contribuído para reduzir a eficiência das operações mineiras e colocar pressão sobre a competitividade das exportações moçambicanas. O alerta foi lançado por Laura Mateus, responsável pela área de exportações da Twigg, ligada à exploração e comercialização de grafite, ao descrever os constrangimentos enfrentados no transporte do minério de Balama, em Cabo Delgado, para os portos de Nacala e Pemba.
Uma realidade presente em quase toda a extensão do país, a qualidade e a disponibilidade das vias de acesso, com destaque para as rodoviárias, foram alguns dos principais constrangimentos que dominaram os debates do terceiro dia da CAVAME-d.
Laura Mateus, uma das oradoras do painel dedicado às “Necessidades logísticas actuais das empresas mineradoras que operam em Moçambique”, alertou que o transporte de grafite de Balama para Nacala passou de 10 para mais de 15 horas, enquanto a ligação a Pemba, que levava entre seis e oito horas, passou a demorar mais de 11 horas, devido às más condições das estradas EN1, EN14 e EN12, utilizadas no transporte dos minérios para exportação.
A degradação das vias obriga as empresas a gastar mais tempo e dinheiro para levar a produção das minas aos portos de exportação. Entre os custos adicionais estão a necessidade de mobilizar mais camiões, as despesas de manutenção das viaturas e os constrangimentos operacionais provocados pelas condições das estradas.
“É importante salientar que termos os minérios no subsolo ou acedermos aos extraídos não basta”, advertiu Laura Mateus, defendendo que Moçambique precisa de condições de transporte que permitam colocar os seus recursos minerais nos mercados internacionais a preços competitivos.
A responsável falava num painel dedicado às oportunidades de logística e transporte para as indústrias de petróleo, gás e mineração, no qual explicou que a existência de recursos minerais não garante, por si só, a industrialização nem o crescimento económico. Para que os investimentos produzam resultados, é necessário assegurar que a produção chegue aos mercados de forma eficiente.
Numa província com elevado potencial mineiro e extractivo, os problemas das estradas em Cabo Delgado não afectam apenas a Twigg. O Evidências apurou que grande parte dos investimentos naquela região enfrenta os mesmos constrangimentos, tanto no transporte de minérios como nas operações logísticas e nas deslocações dos colaboradores.
Por exemplo, o Evidências apurou que empresas como a Montepuez Ruby Mining também enfrentam constrangimentos semelhantes. Para assegurar as suas operações logísticas e o transporte de pessoal, a empresa de exploração de um dos rubis mais badalados do mundo é obrigada a fretar uma avioneta para efectuar ligações a partir de Pemba, devido à má qualidade das estradas.
Vulkan defende investimento em corredores logístico
Embora as suas operações sejam asseguradas por via de um corredor logístico próprio, o CEO da Vulcan Mozambique, Mukesh Kumar, considera vital uma aposta em infra-estruturas que são indispensáveis para a dinamização do sector mineiro.
“Ao contrário de alguns projectos de hidrocarbonetos, que podem recorrer a condutas para movimentar a produção, a mineração depende fortemente de corredores ferroviários ou de outras soluções de transporte de grande capacidade”, sublinhou Kumar.
Por essa razão, defendeu que a eficiência logística deve ser tratada como uma componente central da viabilidade dos projectos mineiros e metalúrgicos.
“Temos de continuar a investir no corredor logístico, porque é a linha de vida de todos os projectos minerais e metalúrgicos”, defendeu.
Falta de energia aumenta dependência dos combustíveis
Para além das estradas, a falta de energia eléctrica constitui outro obstáculo à actividade mineira em Balama. De acordo com Laura Mateus, a operação não dispõe de fornecimento de energia adequado desde o início das actividades, obrigando a empresa a recorrer a combustíveis para alimentar os processos industriais.
A responsável explicou que a exploração não se limita à extracção do minério. A empresa realiza o processamento da matéria-prima para atingir os padrões de qualidade exigidos pelos clientes, uma actividade que necessita de grandes quantidades de energia.
Neste contexto, defendeu a necessidade de encontrar soluções que permitam levar energia ao distrito de Balama, reduzindo os constrangimentos operacionais e os custos associados ao uso de combustíveis.
Insegurança também pesa nos custos
A situação de insegurança em Cabo Delgado representa mais uma fonte de pressão sobre as operações. Segundo a responsável, as empresas são obrigadas a adoptar medidas adicionais para proteger os trabalhadores e garantir a segurança do produto durante o transporte, desde a entrada da matéria-prima até à saída do produto final.
Estas exigências aumentam as despesas e tornam mais complexa a movimentação da produção numa província que concentra importantes projectos de exploração de recursos naturais. A combinação entre estradas degradadas, energia insuficiente e custos de segurança ameaça, assim, reduzir os benefícios económicos que o país pretende obter da exploração dos seus recursos minerais.
Laura Mateus apontou ainda problemas de comunicação e coordenação entre os diferentes intervenientes no processo de exportação, nomeadamente exportadores, alfândegas, portos e linhas de navegação.
Na sua avaliação, estes actores continuam a trabalhar com procedimentos que nem sempre estão alinhados, criando situações em que as exigências de uma instituição entram em conflito com as de outra.
A falta de articulação obriga os operadores a repetir procedimentos, regressar a etapas anteriores e suportar despesas adicionais, tornando o processo de exportação mais demorado e dispendioso.
“Não podemos ter processos da alfândega que contradizem o processo do porto”, afirmou, defendendo a criação de uma plataforma de diálogo entre os intervenientes para harmonizar procedimentos, identificar necessidades e garantir maior previsibilidade nas operações.
Para a responsável, a transformação digital poderá ajudar a resolver parte destes problemas, mas será necessário assegurar que as instituições e as empresas trabalhem de forma articulada.



