O Governo prevê mobilizar cerca de 27 mil milhões de meticais para financiar o Plano Nacional de Mitigação dos Impactos do El Niño 2026-2027, destinado a apoiar os sectores da agricultura, saúde, educação, abastecimento de água, assistência alimentar e protecção social. O anúncio foi feito esta quarta-feira, 4 de Novembro, no Parlamento, pela primeira-ministra, Benvinda Levi.

Citada pela Agência de Informação de Moçambique (AIM), a governante explicou que as previsões para a época chuvosa 2026-2027 apontam para o risco de seca severa em 76 distritos das províncias de Maputo, Gaza, Inhambane, Sofala, Manica e Tete, enquanto Nampula, Cabo Delgado e Niassa deverão registar níveis de precipitação dentro da normalidade.

Para minimizar os efeitos da seca, o Executivo prevê distribuir kits de insumos agrícolas a mais de 185 mil famílias, construir silos multiusos para complementar os sistemas de regadio de pequena escala e construir ou reabilitar represas, sistemas de abastecimento de água e furos multiusos. As intervenções nas infra-estruturas hídricas deverão beneficiar mais de um milhão de pessoas.

Na área da saúde, o plano contempla o reforço da vigilância epidemiológica e a constituição antecipada de reservas de medicamentos e outros produtos essenciais, incluindo sais de reidratação oral, kits de resposta à cólera, antimaláricos e testes rápidos.

Recentemente, um estudo da FurtherMarkets identificou Moçambique como um dos países mais vulneráveis aos efeitos de um El Niño intenso, entre sete economias da África Subsaariana analisadas, devido à baixa produtividade cerealífera e à elevada dependência da energia hidroeléctrica. O relatório alerta para possíveis perturbações na produção agrícola, no abastecimento alimentar, na geração de electricidade e nos corredores logísticos durante a campanha de 2026-2027.

Intitulado As Linhas de Falha do El Niño em África, o documento avalia a exposição de sete economias africanas ao fenómeno climático, com base em indicadores de produtividade agrícola, peso da agricultura na economia, dependência hidroeléctrica e desempenho logístico.

O estudo cita previsões da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que, na actualização de Outubro, apontavam para uma probabilidade superior a 83% de ocorrência de condições de El Niño forte a muito forte até ao primeiro trimestre de 2027. A entidade estimava ainda em 83% a probabilidade de o fenómeno atingir uma intensidade histórica, com anomalias de temperatura iguais ou superiores a 2,5 graus Celsius, no período de Outubro a Dezembro de 2026.

Segundo os dados apresentados, Moçambique registou, em 2024, uma produtividade cerealífera de 776 quilogramas por hectare, a mais baixa entre os sete países analisados. A agricultura representou 25,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, enquanto a produção hidroeléctrica correspondeu a 83% da electricidade gerada no País em 2024.

Esta combinação, segundo o relatório, aumenta a exposição da economia a períodos de precipitação insuficiente, com potenciais consequências para a produção alimentar e o abastecimento de energia.

O documento recorda ainda os efeitos do El Niño de 2015-2016, quando a produção moçambicana de milho caiu cerca de 35% em termos homólogos, em 2016. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), citados no estudo, indicam que a seca afectou aproximadamente 864 mil hectares de terras agrícolas e 459 mil agricultores, enquanto as cheias atingiram 194100 pessoas.