O Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GIFiM) pretende reforçar a supervisão de sectores económicos considerados vulneráveis ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo, com destaque para o imobiliário, os casinos, o comércio de viaturas e os serviços jurídicos e contabilísticos. A iniciativa visa consolidar os progressos alcançados pelo País no combate aos crimes financeiros e evitar um eventual regresso à lista cinzenta do Grupo de Acção Financeira (GAFI).
A informação foi avançada esta segunda-feira (2), durante a abertura de um workshop regional sobre supervisão baseada no risco das actividades e profissões não financeiras designadas, que decorre durante uma semana, em Maputo, com a participação de representantes de 22 países da África Austral e Oriental, segundo informou Lusa.
Na ocasião, a secretária permanente do Ministério das Finanças, Albertina Fruquia, destacou a necessidade de intensificar os mecanismos de fiscalização fora do sistema bancário, alertando que as redes criminosas procuram explorar vulnerabilidades noutros sectores da economia à medida que as instituições financeiras reforçam os seus mecanismos de prevenção. “Sectores como o imobiliário, os casinos, o comércio de pedras e metais preciosos, os serviços legais de advogados, auditores e contabilistas tornam-se, por isso, linhas da frente da nossa estratégia de defesa”, afirmou a responsável.
A iniciativa, que conta com o apoio de especialistas do GAFI e do Banco Mundial, pretende reforçar as capacidades técnicas dos reguladores e supervisores na identificação de actividades, serviços, produtos e entidades com maior exposição ao risco de branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo.
De acordo com o director dos Serviços Centrais de Estudos e Cooperação do GIFiM, Alberto Cangela Júnior, a formação permitirá substituir os métodos tradicionais de fiscalização por uma abordagem baseada na avaliação dos riscos associados às diferentes actividades económicas. “Antes, a supervisão era feita de forma aleatória; agora há necessidade de fazer uma avaliação do risco e identificar as entidades que representam alto risco”, explicou o responsável, acrescentando que o encontro inclui componentes teóricas e práticas, bem como a partilha de experiências entre os países participantes.
Em Moçambique, o GIFiM já assegura a supervisão das actividades imobiliárias e do comércio de compra e revenda de viaturas, no âmbito da prevenção e combate ao branqueamento de capitais, por se tratar de sectores que não dispõem de entidades supervisoras próprias nesta matéria. O reforço da fiscalização surge numa altura em que o País procura consolidar a sua posição no sistema financeiro internacional, depois de ter sido retirado, em Outubro de 2025, da lista cinzenta do GAFI, na sequência de três anos de monitorização reforçada.
Segundo Alberto Cangela Júnior, Moçambique deverá enfrentar uma nova avaliação internacional em 2030, cujo processo preparatório terá início em 2028, sendo necessário assegurar que os mecanismos de prevenção e fiscalização estejam plenamente operacionais. “Até lá temos de ter todos os mecanismos no lugar, de tal sorte que a avaliação em 2030 possa ocorrer com um grau de conformidade do País e não corramos o risco de retornar à lista cinzenta”, declarou.
Alberto Cangela Júnior – director dos Serviços Centrais de Estudos e Cooperação do Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GIFiM).
“Até lá temos de ter todos os mecanismos no lugar, de tal sorte que a avaliação em 2030 possa ocorrer com um grau de conformidade do País e não corramos o risco de retornar à lista cinzenta.”
O responsável sublinhou ainda que entidades como a Ordem dos Advogados deverão reforçar as suas capacidades de supervisão, com vista à identificação dos riscos associados à prestação de serviços jurídicos e ao acompanhamento de actividades consideradas mais vulneráveis à utilização de fundos de origem ilícita.
A necessidade de maior fiscalização é igualmente sustentada por um relatório divulgado pelo GIFiM em Outubro, que identificou fragilidades nos mecanismos de controlo do sector imobiliário, incluindo insuficiências na comunicação de operações suspeitas e dificuldades de articulação entre as entidades responsáveis.
Conforme noticiou o Diário Económico, apenas 234 das 851 entidades imobiliárias identificadas como activas em 2025 estavam registadas junto do organismo, evidenciando limitações na abrangência dos mecanismos de supervisão. O relatório identificou ainda suspeitas de aplicação de fundos de origem ilícita no sector imobiliário, avaliados em aproximadamente 78,2 milhões de euros, no período compreendido entre Janeiro de 2021 e Novembro de 2025.
Perante estas constatações, o GIFiM recomendou o reforço da monitorização das transacções imobiliárias, a adopção de mecanismos de supervisão baseados no risco e uma maior partilha de informações entre as autoridades competentes. As medidas pretendem melhorar a capacidade de identificação e prevenção de operações financeiras suspeitas, reforçando o cumprimento das normas internacionais de combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo, numa altura em que Moçambique se prepara para uma nova avaliação do GAFI.





