O Banco de Investimento Global (BiG) Moçambique apresentou um estudo que aponta para um crescimento económico moderado no País, num contexto marcado pelo elevado endividamento público, pela escassez de divisas e pelas dificuldades do ambiente de negócios. Apesar destes constrangimentos, os investidores institucionais inquiridos pelo banco esperam uma recuperação gradual da economia nos próximos anos, com o sector energético a destacar-se como um dos principais motores do crescimento, das exportações e da entrada de divisas.
De acordo com a 4.ª edição do Estudo de Mercado sobre Investimento Institucional em Moçambique, desenvolvido pelo BiG, 67% dos participantes consideram desfavorável o ambiente de negócios no País. Ainda assim, 62% esperam que a actividade das instituições em que trabalham cresça no próximo ano, demonstrando confiança na capacidade de expansão dos seus negócios, apesar das dificuldades económicas e financeiras.
As perspectivas de crescimento económico identificadas pelo estudo continuam moderadas para 2026. Cerca de 38% dos investidores inquiridos pelo BiG prevêem um crescimento entre 0% e 2%, enquanto igual percentagem admite uma contracção da economia. Para 2027, as expectativas são mais favoráveis: 48% dos participantes projectam um crescimento entre 0% e 2%, enquanto 38% esperam uma expansão entre 2% e 4%, apontando para uma recuperação gradual da actividade económica.
No que respeita à inflação, 95% dos participantes no estudo esperam que a taxa se situe entre 5% e 10% em 2026, enquanto 81% prevêem que permaneça nesse intervalo em 2027. Em relação ao mercado cambial, 95% antecipam que o metical se mantenha estável face ao dólar norte-americano em 2026. O estudo revela ainda que 57% dos investidores consideram que as pressões sobre os preços provocadas pelas tensões geopolíticas serão temporárias, apesar das incertezas internacionais.
Dívida pública e energia condicionam as perspectivas económicas
O endividamento público figura entre as principais preocupações identificadas pelo estudo do BiG, num contexto em que a dívida pública se aproxima de 74% do Produto Interno Bruto (PIB). Cerca de 71% dos participantes esperam que a dívida aumente em 2026, enquanto 67% prevêem uma nova subida do peso da dívida pública na economia em 2027. Para 2028, porém, 81% antecipam uma estabilização ou redução do endividamento, sugerindo a expectativa de um alívio gradual da pressão sobre as finanças públicas.
Questionados pelo BiG sobre uma eventual reestruturação da dívida pública, 62% dos participantes manifestaram preferência por soluções que não provoquem perdas para os credores. O resultado mostra que os investidores dão prioridade à preservação do valor dos títulos de dívida e defendem mecanismos de ajustamento que permitam responder aos desafios financeiros do País sem comprometer os seus investimentos.
Apesar das preocupações com o endividamento, o sector energético continua a ser apontado pelos participantes no estudo como determinante para o futuro da economia moçambicana. Cerca de 62% identificam o sector como o principal motor para reduzir a vulnerabilidade económica do País, enquanto 24% destacam a diversificação das fontes de energia. No entanto, 67% consideram improvável que o projecto de gás natural liquefeito (GNL) Rovuma LNG alcance uma decisão final de investimento ainda em 2026.
As perspectivas para o sector externo, que abrange as relações comerciais e financeiras de Moçambique com outros países, também variam entre o curto e o médio prazo. Segundo o estudo do BiG, 71% dos investidores esperam uma redução das exportações em 2026, enquanto 57% prevêem uma diminuição das reservas internacionais. Para 2027, as expectativas melhoram: 76% antecipam um aumento das exportações e 71% esperam uma recuperação das reservas internacionais. Em 2028, a percentagem dos que prevêem o crescimento das exportações sobe para 81%, reflectindo a importância atribuída aos grandes projectos, sobretudo no sector extractivo.
Investidores privilegiam liquidez e instrumentos de menor risco
Os resultados do estudo mostram que as instituições abrangidas pelo BiG privilegiam investimentos que permitam preservar o capital, obter rendimentos e manter recursos disponíveis para responder a necessidades financeiras. A dívida pública representa 66,6% do total dos activos sob gestão das instituições inquiridas, evidenciando a forte concentração dos investimentos neste segmento do mercado financeiro nacional.
Para os próximos 12 meses, 57% dos participantes pretendem aumentar os investimentos em Bilhetes do Tesouro, enquanto 48% planeiam reforçar os montantes mantidos em caixa e em depósitos à ordem. Outros 43% esperam aumentar a exposição a Obrigações do Tesouro. Em contrapartida, 38% prevêem reduzir os investimentos em depósitos a prazo, 33% antecipam uma diminuição da exposição a papel comercial e 29% admitem reduzir os activos denominados em moeda estrangeira.
A preferência por instrumentos de menor risco e com maior facilidade de conversão em dinheiro também se reflecte nas decisões sobre a aplicação de excedentes de liquidez, ou seja, recursos financeiros disponíveis que não são necessários para despesas imediatas. De acordo com o estudo do BiG, 33% dos participantes escolheriam Bilhetes do Tesouro, enquanto 27% optariam por depósitos a prazo e 20% por instrumentos financeiros de médio prazo. Outros 13% manteriam os recursos em depósitos à ordem e apenas 7% investiriam em acções, confirmando a preferência por aplicações de rendimento fixo e menor exposição às oscilações do mercado accionista.
Na escolha dos investimentos, a rentabilidade é o critério mais referido, representando 20% das respostas, seguida do risco, com 19%, e da liquidez, com 17%. Em conjunto, os três factores representam 56% da ponderação atribuída pelos participantes. O estudo revela ainda que 48% dos investidores não utilizam um índice de referência formal (benchmark) para avaliar o desempenho das suas carteiras. Entre os que recorrem a referências específicas, 14% utilizam as taxas dos Bilhetes do Tesouro e outros 14% a inflação.
Riscos financeiros e política monetária marcam o horizonte de 2027
O estudo desenvolvido pelo BiG identifica o endividamento público, a escassez de divisas e os atrasos na execução de grandes projectos de investimento como alguns dos principais riscos para a economia moçambicana. Estes factores podem limitar o crescimento económico e prolongar a recuperação, que depende, em parte, da concretização dos investimentos previstos, sobretudo no sector do gás natural. A falta de moeda estrangeira também dificulta o pagamento de importações, o funcionamento das empresas e o cumprimento de obrigações financeiras no exterior.
No que respeita aos riscos para a actividade das instituições em 2026, 30% das respostas dos participantes apontam para o risco de mercado, relacionado com possíveis perdas provocadas pelas variações dos preços dos activos financeiros. O risco de liquidez surge em segundo lugar, com 29%, seguido do risco tecnológico, com 13%, e do risco regulatório, com 8%. Estes resultados ajudam a compreender a preferência por activos líquidos e investimentos de menor duração, que permitem reduzir a exposição às oscilações do mercado e manter recursos disponíveis para responder a compromissos financeiros.
Em relação à política monetária, 67% dos participantes consideram expansionista a actual orientação do Banco de Moçambique, associada ao ciclo de redução das taxas de juro iniciado em 2024. Para 2026, 86% esperam que a taxa de juro de política monetária, conhecida como MIMO, permaneça inalterada. Para 2027, contudo, o estudo aponta para a possibilidade de uma postura mais cautelosa, com eventuais aumentos das taxas de juro caso as pressões inflacionistas e cambiais o justifiquem. Quanto ao risco soberano, 81% dos investidores consideram moderada a probabilidade de Moçambique melhorar a sua classificação de crédito (rating) nos próximos 24 meses.
Em síntese, os resultados do estudo do BiG apontam para uma recuperação económica gradual e desigual em 2027, com expectativas de crescimento moderado, inflação entre 5% e 10% e manutenção da pressão sobre a dívida pública. Embora os investidores esperem uma recuperação das exportações nos próximos anos, os riscos fiscais, cambiais e financeiros deverão continuar a condicionar a actividade económica. Neste cenário, os participantes atribuem ao sector energético um papel central no crescimento do País.
Texto: Florença Nhabinde





