A Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) prevê lançar, ainda este ano, uma plataforma de informação empresarial para facilitar o registo de empresas, a apresentação de ideias de negócio e a identificação de projectos com potencial para obter financiamento. O anúncio foi feito na segunda-feira, 26 de Outubro, pela presidente da organização, Nelma Fernandes, durante o Fórum de Investimento da África Lusófona, que decorre na ilha do Sal, em Cabo Verde.
A plataforma pretende apoiar as empresas na estruturação de projectos e na preparação de propostas capazes de atrair financiamento, aproximando empresários, investidores e instituições financeiras. A iniciativa faz parte dos esforços da Confederação para dinamizar o tecido empresarial lusófono e transformar oportunidades identificadas nos diferentes mercados em negócios sustentáveis.
Durante a sua intervenção, Nelma Fernandes destacou também a certificação dos produtos como um factor importante para aumentar as trocas comerciais entre os países da comunidade e facilitar o acesso a mercados internacionais, incluindo o europeu. Neste sentido, revelou que a Confederação já trabalha na certificação de produtos dos países da CPLP e dispõe de um protocolo com uma das principais distribuidoras de Portugal, destinado a facilitar a entrada de produtos dos países africanos lusófonos naquele mercado.
Corredor do Lobito exige empresas e transformação local
Ao abordar as oportunidades de investimento em Angola, Nelma Fernandes destacou o Corredor do Lobito como uma infra-estrutura estratégica para dinamizar a actividade empresarial, facilitar o escoamento da produção e promover a transformação de matérias-primas. Defendeu, por isso, que o desenvolvimento do corredor não deve limitar-se à construção e modernização das infra-estruturas de transporte e logística, devendo também ser acompanhado pela instalação de empresas ao longo do seu percurso.
“Um corredor sem empresas é apenas uma linha no mapa”, afirmou Nelma Fernandes, defendendo a mobilização de financiamento para negócios que permitam transformar recursos naturais, criar empregos e aumentar o valor acrescentado da produção nacional. A responsável considerou ainda que Angola tem potencial para participar mais activamente na transformação de matérias-primas críticas utilizadas pela indústria tecnológica e na produção de baterias.
Para aproveitar estas oportunidades, Nelma Fernandes sublinhou a necessidade de desenvolver capacidades industriais, empresariais e financeiras que permitam a Angola passar da exploração de recursos naturais para a sua transformação no país. A dirigente chamou igualmente a atenção para o reduzido volume de comércio entre os países africanos de língua portuguesa, indicando que as trocas comerciais entre estes Estados representam menos de 5% do comércio considerado na análise apresentada.
Comércio intracomunitário exige mais produção local
Na perspectiva de Nelma Fernandes, a partilha da língua portuguesa facilita a aproximação entre os mercados, mas não é suficiente para garantir a integração económica. Para reforçar o comércio entre os países membros, a responsável defendeu o aumento da produção, o processamento local de matérias-primas e a criação de mecanismos que facilitem a comercialização de bens e serviços dentro da comunidade.
A Guiné-Bissau foi apontada como exemplo dos desafios que persistem na transformação dos recursos locais. Segundo os dados apresentados, a castanha de caju representa cerca de 90% das exportações do país, mas menos de 10% da produção é transformada localmente. Perante este cenário, Nelma Fernandes defendeu o financiamento de unidades industriais para o processamento da castanha, de modo a aumentar o valor acrescentado da produção nacional e criar oportunidades de emprego, sobretudo para jovens e mulheres.
A presidente da Confederação identificou também oportunidades de diversificação económica na Guiné Equatorial, de desenvolvimento de fornecedores locais em Moçambique e de valorização do cacau e do chocolate em São Tomé e Príncipe. Em Cabo Verde, destacou o potencial dos sectores do turismo, da agricultura e da economia azul, apontando áreas que podem contribuir para dinamizar a actividade económica nos países africanos de língua portuguesa.
Seis projectos-âncora para 2027
Para transformar as propostas apresentadas no fórum em iniciativas concretas, Nelma Fernandes defendeu a identificação de seis projectos-âncora para 2027, correspondentes aos seis países africanos de língua portuguesa referidos na sua intervenção. A proposta consiste em seleccionar um projecto por país e garantir que cada iniciativa esteja devidamente estruturada e preparada para ser apresentada aos financiadores, com vista à sua análise, ao financiamento e à execução.
A dirigente defendeu ainda a criação de uma mesa permanente de co-financiamento, a adopção de mecanismos de partilha de risco e o reforço das trocas comerciais entre empresas lusófonas. Para Nelma Fernandes, o próximo fórum deverá apresentar resultados mensuráveis, nomeadamente projectos efectivamente financiados, em vez de se limitar à identificação de oportunidades de negócio e à realização de encontros institucionais.
Entre as propostas apresentadas está o incentivo à compra de produtos provenientes dos próprios países da comunidade, incluindo o café de Angola, o atum de Cabo Verde, a castanha de caju da Guiné-Bissau e o cacau de São Tomé e Príncipe. A iniciativa pretende aumentar a procura por estes produtos nos mercados lusófonos, criar novas oportunidades para os produtores e estabelecer relações comerciais mais consistentes entre os países membros.
Para Nelma Fernandes, o reforço da cooperação económica entre os países de língua portuguesa exige uma maior articulação entre governos, empresas, instituições financeiras e investidores privados. A responsável defendeu que os resultados devem ser avaliados pelo número de projectos estruturados, financiados e efectivamente executados, bem como pela sua capacidade de criar emprego, estimular a produção e aumentar o valor acrescentado nas economias nacionais.
Fonte: Forbes África Lusófona





