Moçambique vai realizar, nesta sexta-feira (23), o primeiro leilão nacional de rubis e corindo, na cidade de Nacala, província de Nampula, norte do País, numa iniciativa promovida pela empresa mineira Fura Gems que já despertou o interesse de pelo menos quatro empresas. A iniciativa marca uma mudança no modelo de comercialização destas pedras preciosas, tradicionalmente leiloadas no estrangeiro e pretende reforçar a valorização dos recursos minerais em território nacional.
De acordo com informações avançadas pelo Governo, serão colocados à venda três quilogramas de rubis e corindo, distribuídos por quatro lotes, num processo que visa promover maior transparência nas transacções e estimular a participação de empresas nacionais no mercado de pedras preciosas. “São quatro lotes. Estamos com o primeiro avaliador ao qual é dado tempo para ver cada lote e para dar a sua proposta”, explicou o secretário executivo da Unidade de Gestão do Processo Kimberley, Castro Elias, citado pela Lusa.
Segundo o responsável, pelo menos quatro empresas se mostraram interessadas em participar no leilão, que representa uma alteração face à prática anterior de comercialização destas pedras preciosas em mercados internacionais. Castro Elias considera que a realização dos leilões em Moçambique permitirá reforçar a transparência na gestão dos recursos minerais, possibilitando que a sociedade acompanhe mais de perto os processos de comercialização das pedras extraídas no território nacional.
Além disso, o responsável aponta potenciais benefícios fiscais para o Estado, associados à comercialização e à futura transformação local dos recursos, bem como oportunidades para o desenvolvimento do turismo e da indústria de processamento de pedras preciosas. “Queremos industrializar Moçambique e a nossa expectativa não é ter empresas estrangeiras a participarem do leilão, mas sim as nacionais a adquirirem os produtos”, afirmou Castro Elias.
O dirigente acrescentou que a iniciativa pretende facilitar o acesso dos empresários moçambicanos às pedras preciosas produzidas no País, reduzindo a necessidade de recorrer aos mercados externos para adquirir recursos extraídos em território nacional. “Sabemos que os melhores e maiores rubis mundiais são de Moçambique, mas para os aceder, os empresários têm de viajar, e queremos mudar esse cenário”, declarou.
Na perspectiva do responsável, o desenvolvimento de uma indústria nacional de lapidação e processamento poderá contribuir para a criação de postos de trabalho, particularmente para os jovens, e ampliar as oportunidades económicas dos operadores envolvidos na mineração artesanal.

O ministro dos Recursos Minerais e Energia, Estêvão Pale, defendeu igualmente a necessidade de promover a realização de leilões de pedras preciosas em Moçambique, considerando que a iniciativa poderá contribuir para aumentar o valor acrescentado dos recursos minerais e melhorar a transparência dos processos de comercialização.
O governante sublinhou que o objectivo estratégico passa por desenvolver capacidades nacionais de transformação dos minerais, permitindo que uma parte maior do valor económico gerado pela exploração destes recursos permaneça no País. “Futuramente queremos entrar noutra fase que é de processamento em Moçambique dos nossos minerais”, afirmou Estêvão Pale, acrescentando que o Executivo pretende também criar uma marca de rubis moçambicanos.
As declarações foram prestadas em Nacala, província de Nampula, à margem da Conferência sobre Adição de Valor com Base em Minerais e Recursos Energéticos Disponíveis (CAVAME-d), que decorre de 19 a 24 de Outubro, reunindo representantes do Governo, investidores e operadores do sector mineiro para discutir oportunidades de investimento e industrialização. No âmbito do evento, o ministro inaugurou, na quinta-feira (22), a exposição de Gemas e Metais Preciosos, integrada na 8.ª edição da Feira Anual de Gemas de Nampula, que decorre até 24 de Outubro.
A aposta na comercialização e transformação local de pedras preciosas surge num contexto em que Moçambique se afirma como um dos principais produtores mundiais de rubis, dispondo de jazigos de elevado valor comercial, particularmente na província de Cabo Delgado. Entre os empreendimentos de referência destaca-se o projecto de Montepuez, que abrange quatro licenças numa área de aproximadamente 19 300 hectares, junto ao depósito de rubis descoberto pela multinacional Gemfields em 2012.
A relevância internacional dos rubis moçambicanos ficou igualmente demonstrada com a venda de uma pedra preciosa extraída pela Fura Gems em Moçambique. Descoberto em 2022, o rubi apresentava inicialmente 101 quilates e, depois de trabalhado, ficou com 55,22 quilates, tendo sido vendido em Nova Iorque por 34,8 milhões de dólares. A transacção colocou a pedra entre as mais valiosas alguma vez comercializadas em leilão, evidenciando o potencial económico dos recursos gemológicos existentes no território moçambicano.
Com a realização do primeiro leilão nacional, o Governo pretende criar condições para reforçar a participação dos operadores locais na cadeia de valor das pedras preciosas, promover a industrialização e aumentar os benefícios económicos associados à exploração dos recursos minerais. O evento de Nacala constitui, assim, um primeiro passo na estratégia de aproximar a comercialização dos rubis dos locais de produção, embora o desenvolvimento de uma indústria nacional de lapidação e transformação continue a representar uma etapa futura da política de valorização dos minerais moçambicanos.





