Um grupo de cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no Brasil, desenvolveu géis à base de nanocelulose extraída do bagaço de cana-de-açúcar para controlar a aplicação de líquidos na limpeza e conservação de obras de arte. A tecnologia permite reduzir a penetração de água e solventes nas camadas dos materiais, ajudando a preservar pinturas, documentos antigos e peças têxteis.

A solução procura responder aos desafios enfrentados pelos profissionais de conservação e restauro, que precisam de controlar rigorosamente a quantidade de líquido aplicada sobre superfícies delicadas. Quando utilizados directamente, a água e os solventes podem penetrar em camadas que devem ser preservadas, danificando os materiais originais. A evaporação rápida também pode reduzir a eficácia da limpeza e aumentar a exposição dos profissionais a substâncias potencialmente tóxicas.

Os géis desenvolvidos pelas investigadoras funcionam como estruturas capazes de armazenar e libertar líquidos de forma controlada. Em vez de realizarem directamente a limpeza, actuam como suportes para a aplicação dos líquidos, limitando a sua penetração e reduzindo a evaporação durante o procedimento.

A investigação envolve Camila Rezende, professora do Instituto de Química da Unicamp, e Camilla Camargos, professora da UFMG com formação em conservação e restauro de bens culturais móveis. O trabalho resultou num pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com apoio estratégico da Agência de Inovação Inova Unicamp. A titularidade é partilhada pelas duas universidades.

A formulação utiliza nanocelulose extraída do bagaço de cana-de-açúcar, combinada com outros biopolímeros. Foram desenvolvidos dois sistemas principais: um à base de gelatina e outro à base de alginato, um polissacarídeo obtido a partir de algas. A combinação dos componentes permite obter estruturas resistentes e flexíveis, capazes de reter líquidos e libertá-los gradualmente.

Para alcançar estas características, as investigadoras ajustaram o processo de reticulação, que estabelece ligações entre as cadeias de polímeros e influencia a porosidade do material. O controlo dessa estrutura determina a quantidade de líquido que o gel consegue armazenar e a velocidade com que o liberta durante a limpeza.

O trabalho começou a ganhar forma em 2020, durante um período de investigação de Camargos na Universidade de Florença, em Itália. Na altura, a investigadora trabalhava com nanocelulose e nanopartículas de lignina para desenvolver revestimentos protectores destinados a bens culturais de papel, madeira e tecido. Uma experiência levou à formação inesperada de um gel contínuo e rígido, o que despertou o interesse em adaptar o material à conservação de obras de arte.

As primeiras formulações apresentavam limitações de resistência e manuseamento, o que levou a equipa a aperfeiçoar a composição para melhorar a flexibilidade, controlar a retenção de líquidos e evitar a libertação de resíduos sobre as superfícies tratadas.

A tecnologia poderá também ter aplicações na conservação de outros materiais delicados, sobretudo quando é necessário limitar a utilização de líquidos ou actuar apenas sobre determinadas camadas. Entre os próximos desafios estão o aumento da flexibilidade dos géis e a adaptação das formulações a superfícies com relevos, ondulações e pequenas ranhuras.

Fonte: Ciclo Vivo