A De Beers, empresa internacional de exploração e comercialização de diamantes, poderá aumentar a participação do Governo do Botsuana no seu capital de 15% para cerca de 25%. As negociações para a venda da empresa estão numa fase avançada e a definição da futura estrutura accionista poderá facilitar a saída da Anglo American, grupo mineiro que detém actualmente 85% da De Beers e pretende vender essa participação.

A Anglo American colocou a De Beers à venda em Maio de 2024, no âmbito de uma reestruturação do seu portefólio de negócios. Desde então, a definição da participação do Governo do Botsuana tornou-se uma das principais questões a resolver para concluir a operação. A proposta em discussão prevê a transferência de parte das acções da Anglo American para o Estado botsuanês.

Em Julho de 2026, o Consórcio Global de Diamantes, liderado por Gareth Penny, antigo presidente executivo da De Beers, foi seleccionado como licitante preferencial, ou seja, como o candidato escolhido para negociar a aquisição da empresa. Desde então, as conversações com o Governo do Botsuana têm-se concentrado na percentagem do capital que ficará sob controlo do Estado. Até ao momento, não foi assinado qualquer acordo definitivo.

A proposta prevê também a entrada de Angola e da Namíbia na estrutura accionista da De Beers, ao lado de investidores privados. Em conjunto, os três países da África Austral deteriam menos de 50% do capital, enquanto os investidores privados manteriam a maioria das acções e o controlo da empresa. Esta distribuição permitiria aumentar a participação dos países produtores de diamantes sem transferir o controlo da De Beers para os Estados.

Para o Botsuana, o aumento da participação para cerca de 25% representaria uma oportunidade de reforçar a sua influência nas decisões estratégicas da empresa, sem assumir o controlo maioritário. A entrada de Angola e da Namíbia permitiria, por sua vez, alargar a representação dos interesses dos países africanos produtores de diamantes, mantendo a participação de investidores privados e uma gestão orientada para a rentabilidade.

A definição desta estrutura accionista é importante não só para os Governos envolvidos, mas também para os investidores institucionais, ou seja, entidades que investem grandes volumes de capital, como fundos de investimento e seguradoras. Um acordo sobre a distribuição das acções ajudaria a reduzir as incertezas em torno da venda e a esclarecer o modelo de propriedade da De Beers após a saída da Anglo American. A questão assume particular importância para o Botsuana, que alberga várias das minas mais produtivas da empresa.

Como está o sector diamantífero?

A operação decorre num contexto de dificuldades para o sector diamantífero, marcado pela descida dos preços dos diamantes naturais e pelo aumento da quota de mercado dos diamantes produzidos em laboratório. Estas tendências têm reduzido a atractividade do sector para alguns investidores, tornando ainda mais importante a definição de regras claras de propriedade e de gestão. Um acordo sobre a futura governação da De Beers poderá, assim, contribuir para recuperar a confiança dos investidores.

A forma como os 85% actualmente detidos pela Anglo American serão distribuídos entre o Governo do Botsuana, os investidores privados e os restantes participantes será determinante para estabelecer o preço da venda e definir quem terá maior influência nas decisões da empresa. Além da percentagem de acções atribuída a cada interveniente, será necessário esclarecer os respectivos direitos de governação, incluindo a sua influência na gestão e nas decisões estratégicas. Esta questão é particularmente relevante num sector que constitui uma importante fonte de receitas públicas e de exportações para o Botsuana.

A eventual entrada de Angola e da Namíbia dará à operação uma dimensão regional, alargando a participação de países africanos na De Beers para além da actual relação entre a Anglo American e o Botsuana. A conclusão da venda dependerá da definição das participações de cada interveniente, do acordo sobre as regras de governação, da garantia do financiamento necessário e da aprovação das autoridades reguladoras. Até à formalização do negócio, os investidores deverão acompanhar a composição final do consórcio e os termos do acordo definitivo.

Fonte: Further Africa