Edivaldo Ernesto fala de Maputo com a distância de quem vive há quase duas décadas fora, mas também com a proximidade de quem nunca deixou a cidade completamente para trás. Foi na capital moçambicana que começou a dançar, em 1997, e foi a partir da dança tradicional moçambicana que encontrou o caminho que o levaria à Europa, primeiro para experiências pontuais e, mais tarde, para Berlim, onde construiu uma carreira internacional como bailarino, coreógrafo, professor e especialista em improvisação.

Hoje, o seu nome está ligado a vários países. Trabalhou durante anos com a companhia alemã Sasha Waltz & Guests, colaborou com artistas como David Zambrano, Hauschka e Marco Blaauw, criou os solos Tears e Brace e desenvolveu os workshops Depth Movement e Next Level, ensinados em diferentes partes do mundo. Chegar a Berlim foi também uma oportunidade de levar consigo o nome e a cultura do país onde nasceu.

Das raízes para o mundo

A carreira de Edivaldo começou nas danças tradicionais, nos grupos Tsemba e Ussoforal, seguindo-se trabalho de dança contemporânea na companhia Esculturas Humanas. Participou também num programa de desenvolvimento coreográfico entre Maputo e Lisboa, experiência que lhe deu contactos com outros artistas e diferentes formas de pensar o movimento.

Em 2005, participou na DanceWEB Scholarship, no festival ImPulsTanz, em Viena. Antes de se fixar na Alemanha, passou ainda por experiências profissionais em Bruxelas e Amesterdão, ligadas ao trabalho com David Zambrano.

Chegou a Berlim em 2007. A cidade representava um novo desafio, mas também uma mudança na forma de encarar a profissão. Pela primeira vez, encontrou uma rotina de trabalho muito mais intensa, com cerca de seis horas diárias de treino, cinco dias por semana. “Era uma coisa nova para mim. Tive de me adaptar, observar, aprender outras línguas, outras formas de trabalhar e, ao mesmo tempo, trazer aquilo que eu carregava de Moçambique”.

O nosso convidado trabalhou com a companhia alemã Sasha Waltz & Guests e colaborou com artistas como David Zambrano, Hauschka e Marco Blaauw

A adaptação não aconteceu apenas dentro do estúdio. O clima, a alimentação, a comunicação e até a forma de estabelecer relações sociais foram desafios. Mas havia um espaço com o qual Edivaldo se sentia familiarizado. “No estúdio, quando estava com os meus colegas a treinar e a dançar, sentia-me feliz, calmo, protegido. Sentia que estava em casa”, conta à E&M.

De Maputo para os grandes palcos

Berlim acabou por se tornar a sua principal base profissional. Desde 2007 que Edivaldo trabalha com a companhia internacional de dança contemporânea Sasha Waltz & Guests, tendo participado em numerosas produções da mesma como membro permanente e convidado. Ao longo dos anos, passou por trabalhos como Travelogue-Twenty to Eight, Continu, Metamorphoses, Sacre, In C, Beethoven e For The Time Being.

A colaboração com David Zambrano – bailarino, coreógrafo e professor de dança venezuelano – tornou-se também uma parte importante do percurso, como intérprete e assistente.

Mas a carreira deixou de estar limitada à interpretação. Em 2015, apresentou Tears, o seu primeiro solo coreográfico, que passou por palcos na Europa, Ásia e América do Sul, incluindo França, Hong Kong, Itália, Alemanha, Grécia e Brasil.

Cinco anos depois, o projecto I Can’t Breathe, desenvolvido com o trompetista Marco Blaauw, trouxe outro momento importante: Edivaldo foi distinguido como ‘Best Performer’ pelo júri dos Italian Danza & Danza Awards de 2020.

Edivaldo Ernesto, bailarino, coreógrafo e professor moçambicano

Em 2022, estreou Brace, no Kalamata Dance Festival, na Grécia. A peça mergulha em questões de memória, ancestralidade e identidade, procurando olhar para aquilo que existia antes das fronteiras que dividiram os povos da região. A produção passou depois por diferentes palcos europeus e brasileiros.

Para Edivaldo, essas criações são também uma forma de procurar respostas sobre a sua própria origem. “Em Brace, tentei perceber quem éramos antes das fronteiras, antes dessas divisões no sul de África. Queria olhar para os nossos conhecimentos, para as nossas formas de viver e para aquilo que carregamos até hoje”, diz o coreógrafo.

O corpo não esquece Maputo

Edivaldo não vê a distância como uma ruptura com Moçambique. “Fez-me valorizar muito mais o facto de ser moçambicano, a nossa cultura, os nossos costumes e as nossas raízes.” Essa influência também aparece no seu trabalho. Os movimentos que aprendeu na infância, os ritmos, as formas de convivência e até determinadas memórias acabam por aparecer no corpo, muitas vezes sem que sejam reproduzidos de forma literal. “O corpo guarda coisas que a nossa consciência nem sempre consegue explicar”. “Não quero ser convidado só porque sou africano ou moçambicano. Quero que o meu trabalho e a minha linguagem sejam a razão do convite. A minha origem faz parte de mim, mas não pode ser apenas a razão.”

Um caminho de volta

Edivaldo continua atento às dificuldades enfrentadas pelos artistas no País e considera que a dança moçambicana tem talento, mas ainda luta para encontrar condições para se desenvolver. Foi também com essa preocupação que criou o projecto M.A.P.A., em parceria com o Projecto Utopia, no bairro da Mafalala, Maputo. A iniciativa proporciona formação e troca de experiências com bailarinos moçambicanos, uma tentativa de criar pontes entre artistas que trabalham dentro e fora do País.

Não sabe se um dia voltará a viver em Moçambique, mas a ligação à terra natal nunca desaparece

Edivaldo admite que não sabe se um dia voltará definitivamente a viver em Moçambique. Diz, no entanto, que regressaria com gosto se encontrasse condições para continuar a desenvolver o seu trabalho e colaborar com artistas locais. Enquanto isso, continua a viajar, ensinar e criar.

O seu calendário passa por diferentes países e, em 2026, voltou a apresentar-se em palcos europeus e brasileiros, além de ter levado o Depth Movement – metodologia de dança contemporânea – a novos espaços de formação.

Se pudesse levar apenas um elemento da cultura moçambicana para um palco internacional, a escolha seria o Limbondo. Não apenas para reproduzir os seus movimentos, mas para explorar a sua cadência, a sua música e a sua complexidade.

Texto Germano Ndlovo  •  Fotografia D.R.