A economia moçambicana poderá registar um crescimento de aproximadamente 21% a 22% até 2042, caso avance o projecto de gás natural da ExxonMobil, na Área 4 da Bacia do Rovuma, juntando-se ao empreendimento da TotalEnergies, na Área 1. A perspectiva foi apresentada pelo presidente da Câmara de Petróleo e Gás de Moçambique, Florival Mucave, que considera que a concretização dos dois investimentos poderá abrir um novo ciclo de expansão económica, embora coloque desafios importantes ao empresariado nacional.
Florival Mucave baseia a projecção num estudo do Standard Bank, realizado há cerca de dois anos, que apontava para um crescimento de 11% até 2030 com o desenvolvimento do projecto da Área 1, liderado pela TotalEnergies. O empreendimento já tomou a Decisão Final de Investimento (FID) e está na fase de mobilização e preparação da construção da planta.
A projecção mais elevada depende do avanço do projecto da ExxonMobil, na Área 4, cujo FID a empresa se comprometeu a anunciar neste ano. “Se eles anunciarem o FID da Exxon, nós perspectivamos um crescimento, pelo menos até 2042, de aproximadamente 21%, 22% para Moçambique”, afirmou.
Mucave alerta que o País precisa de preparar as empresas para integrarem a cadeia de fornecimento.
As oportunidades deverão abranger construção civil, transporte, logística, fornecimento de alimentos, manutenção, carpintaria e outros serviços de apoio à operação dos projectos.
O fornecimento de alimentos é uma das áreas com potencial para fornecedores nacionais. Actualmente, parte dos produtos destinados aos projectos é adquirida na África do Sul, devido à limitada capacidade de resposta do mercado moçambicano.
“Ainda não temos capacidade suficiente para alimentar estes projectos”, reconheceu. A expectativa é que, nos próximos 18 meses a dois anos, empresas moçambicanas assumam parte do fornecimento. Há também espaço na logística, construção de estradas e manutenção.
A robustez empresarial será determinante num sector exigente.
Mucave explica que as empresas interessadas em fornecer bens e serviços terão de cumprir requisitos que incluem certificação, apresentação das contas dos últimos três anos, contabilidade organizada e demonstração da capacidade técnica para executar os trabalhos a que se candidatam.
“Não chega ser empresário para ter um contrato. A empresa vai ter de se certificar, apresentar as suas contas dos últimos três anos e mostrar a sua capacidade técnica para participar na área específica em que pretende entrar”, afirmou.
Considera-os condições normais de participação na indústria. Por isso, as pequenas e médias empresas devem organizar a gestão e procurar parcerias com companhias estrangeiras experientes.
As parcerias poderão facilitar a transferência de conhecimento, o reforço técnico e o acesso a capital, permitindo que as empresas nacionais ganhem experiência e autonomia.
FINANCIAMENTO E FUNDO DE MANEIO ENTRE OS PRINCIPAIS ENTRAVES
O financiamento continua entre os principais constrangimentos. Muitas pequenas e médias empresas não dispõem de garantias suficientes para obter crédito, mesmo depois de conquistarem contratos.
Mucave revelou que a Câmara assinou um memorando de entendimento com o Standard Bank para promover a participação das empresas nacionais. A incubadora do banco deverá apoiar as PME na compreensão dos requisitos financeiros e na organização da gestão.
A Câmara pretende que a banca aceite contratos como garantia, uma vez que muitas empresas não dispõem de colaterais. A empresa nacional continuará responsável pela execução do serviço e pelo reembolso do crédito.
O responsável considera que a existência de um contrato com uma empresa reconhecida na indústria poderá ajudar a demonstrar aos bancos que existe uma oportunidade comercial concreta. Contudo, adverte que as empresas nacionais também devem demonstrar capacidade para cumprir as obrigações assumidas.
Outro problema é a falta de fundo de maneio. Em determinados contratos, o fornecedor nacional tem de adquirir materiais ou matérias-primas e executar o trabalho antes de receber o pagamento, que pode ocorrer entre 20 e 90 dias depois. Sem recursos para suportar esse intervalo, a empresa pode não conseguir executar um contrato que já conquistou.
“A empresa pode ter um contrato, mas precisa de fundo de maneio para comprar materiais, executar o trabalho e esperar 20, 30 ou até 90 dias para receber”, explicou.
A Câmara defende adiantamentos bancários ou prazos de pagamento mais curtos. Mucave espera também que o Fundo de Garantia Mutuária, o Banco Nacional de Investimento e o Fundo Soberano contribuam para criar mecanismos específicos de apoio às empresas do sector.
CONSTRUÇÃO PODERÁ MOBILIZAR DEZENAS DE MILHARES DE TRABALHADORES
Os efeitos dos projectos também poderão fazer-se sentir no mercado de trabalho. Mucave revelou que, numa visita ao projecto da TotalEnergies, em Afungi, a empresa informou que já tinha cerca de 10 mil pessoas nos trabalhos preparatórios. Na construção da planta de liquefacção, o número poderá subir para 20 mil ou mais.
Considerando os dois projectos, Mucave estima que a construção das respectivas infra-estruturas poderá envolver cerca de 50 mil trabalhadores numa primeira fase. O número é uma estimativa do entrevistado.
“Quando juntamos os dois projectos, estamos a falar de cerca de 50 mil trabalhadores numa primeira fase da construção”, afirmou. Para que os moçambicanos beneficiem dessa procura, defende a formação profissional e a transferência de conhecimento, de modo a permitir o acesso a funções especializadas.
CONTEÚDO LOCAL E GÁS DOMÉSTICO COMO PRIORIDADES
Mucave considera que a implementação da Lei de Conteúdo Local será decisiva para ampliar a participação das empresas moçambicanas. A legislação deverá ser acompanhada por formação dos trabalhadores, transferência de conhecimento e condições para que os operadores nacionais consigam responder às exigências dos grandes projectos.
“Não basta termos uma lei. Nós temos, agora, de fazer a formação dos moçambicanos e trabalhar na transferência de conhecimento”, defendeu.
Além do conteúdo local, Mucave aponta o uso do gás doméstico como estratégico. Moçambique deve definir como usar o gás para desenvolver indústrias e reduzir importações.
“Se queremos projectar Moçambique no futuro como um país industrializado, com base no nosso gás, temos de pensar em como vamos utilizar o gás doméstico”, afirmou, defendendo a identificação das indústrias prioritárias e o reforço da capacidade das instituições do Estado que deverão conduzir esse processo.
A Câmara prevê feiras de parcerias para aproximar empresas nacionais de operadores estrangeiros experientes no sector.
Mucave deixa um apelo aos jovens empresários e às pequenas e médias empresas para que não aguardem o anúncio dos investimentos para começarem a preparar-se. “É muito importante começarmos a formação das nossas empresas, termos uma contabilidade em dia, processos administrativos organizados e, sobretudo, procurarmos parceiros estratégicos”, concluiu.



