As cidades costumam ser vistas como consequência do desenvolvimento económico. Edward Glaeser defende o contrário: são elas que o produzem. No Dia Mundial das Cidades, celebrado a 31 de Outubro, esta tese ganha particular relevância para um país como Moçambique.
Durante décadas, a economia procurou explicar o crescimento dos países através da abundância de recursos naturais, da industrialização, do comércio internacional ou da estabilidade macroeconómica. Edward Glaeser propôs uma mudança de perspectiva. Em vez de olhar para os países, passou a olhar para as cidades como “a maior invenção da economia”. Concluiu que as cidades não são uma consequência da riqueza, mas uma das suas principais causas.
Professor de Economia na Universidade de Harvard, Glaeser dedicou mais de 30 anos a estudar cidades: história económica, estatística, análise demográfica e microeconomia. Cruzou produtividade, educação, salários, emprego, preços da habitação e mobilidade. Em vez de formular teorias abstractas, procurou perceber porque prosperam cidades como Nova Iorque, Londres ou Singapura, enquanto outras, com recursos semelhantes, entram em declínio. O resultado (“Triumph of the City”, 2011) é a face mais visível de uma investigação construída ao longo de décadas. A sua tese central pode resumir-se numa frase: as cidades tornam as pessoas mais produtivas porque aproximam talentos.
A proximidade cria riqueza
A economia sempre atribuiu valor à tecnologia, ao capital e ao trabalho. Glaeser acrescentou um quarto elemento: a proximidade. Quando milhares de pessoas vivem, trabalham e interagem na mesma urbe, o conhecimento circula mais depressa, os problemas resolvem-se com maior rapidez e as oportunidades multiplicam-se. É aquilo a que os economistas chamam “economias de aglomeração”.
Quando milhares vivem, trabalham e interagem num mesmo espaço urbano, o conhecimento circula mais depressa e as oportunidades multiplicam-se
Glaeser demonstrou, empiricamente, que trabalhadores em cidades maiores tendem a ser mais produtivos e a auferir salários superiores aos de trabalhadores com qualificações semelhantes em territórios dispersos.
Ao contrário do que se pensava, a tecnologia não eliminou esta vantagem. Mesmo na era da Internet, as empresas mais inovadoras continuam a concentrar-se em grandes centros urbanos. A razão, segundo o economista, é simples: nenhuma plataforma digital substitui completamente o contacto humano, a troca informal de ideias ou a confiança que nasce da proximidade.

Crescimento motiva desenvolvimento ou não?
Nas últimas décadas, o País conheceu um processo acelerado de urbanização. Este movimento acompanha uma tendência global: África será, nas próximas décadas, o continente com maior crescimento urbano.
Uma das virtudes do pensamento de Edward Glaeser é evitar um equívoco frequente, que aponta o crescimento urbano como sinónimo de desenvolvimento. As cidades podem crescer (em população e construção) sem crescer em produtividade. Podem concentrar pobreza em vez de riqueza. O crescimento urbano produz benefícios quando é acompanhado por instituições eficazes, mercados funcionais, educação, mobilidade, segurança jurídica e investimento privado.
Em Maputo, a mobilidade continua limitada, o acesso a habitação condigna permanece insuficiente, a economia informal predomina e a expansão urbana não tem planeamento. Uma das conclusões mais consistentes da investigação de Edward Glaeser é que as cidades mais bem-sucedidas são as que investem mais nas pessoas.

O valor de escolas de qualidade
Ao analisar décadas de dados sobre cidades norte-americanas, Glaeser verificou que o nível de escolaridade da população era um dos melhores indicadores da capacidade de uma cidade se desenvolver. O capital humano revelou-se mais determinante do que a localização geográfica, os recursos naturais ou a especialização industrial.
Esta conclusão ajuda também a olhar para Moçambique sob outra perspectiva. Melhorar estradas, portos ou sistemas de transporte é essencial, mas não suficiente. Sem escolas de qualidade, as cidades dificilmente conseguirão prosperar.
Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R.





