A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou que o controlo do surto de ébola na República Democrática do Congo (RDC) ainda está longe, devido à chegada tardia de doentes aos centros de tratamento, à persistência de mortes nas comunidades e à desconfiança da população em relação às estruturas de saúde.
A coordenadora da MSF em Bunia, na província de Ituri, Rita Magano, acompanha a gestão clínica no Centro de Tratamento de ébola (CTE), a vigilância epidemiológica e as actividades de resposta nas comunidades, num contexto em que a evolução do surto continua difícil de avaliar.
Segundo a responsável, apesar da redução das admissões em Bunia, continuam a registar-se mortes fora dos centros de tratamento, o que demonstra a necessidade de reforçar a assistência sanitária nas comunidades, sobretudo nas zonas mais isoladas. A organização enfrenta ainda dificuldades relacionadas com a chegada de doentes em estado grave, quando as possibilidades de tratamento são mais limitadas.
Rita Magano considera prematuro afirmar que a epidemia está a abrandar, uma vez que foram reportados casos em sete províncias e algumas regiões continuam a registar novas infecções. Embora Ituri e Bunia apresentem sinais de melhoria em determinados indicadores, a situação epidemiológica permanece instável.
De acordo com os dados mais recentes do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), até 4 de Outubro, a RDC registava 8603 casos confirmados e 4148 mortes, com 896 doentes hospitalizados em isolamento. Ituri continuava a ser a província mais afectada, com 6450 casos e 2968 mortes.
A desconfiança e o medo da população constituem outros obstáculos ao controlo do surto. A coordenadora da MSF defende que é necessário esclarecer os rumores sobre os centros de tratamento, sem desvalorizar as preocupações das comunidades, e envolver líderes comunitários e religiosos na identificação precoce dos casos e na interrupção das cadeias de transmissão.
A resposta clínica é igualmente condicionada pela ausência de uma vacina específica para o vírus bundibugyo, responsável pelo actual surto. Neste contexto, o diagnóstico precoce, os cuidados de suporte e as medidas de prevenção da transmissão assumem particular importância, enquanto prosseguem estudos sobre potenciais vacinas e tratamentos.
Entretanto, a vacina desenvolvida contra o vírus ébola do tipo zaire começou a ser administrada a profissionais da linha da frente, no âmbito do estudo PARTNERS, que procura avaliar o seu eventual efeito neste surto. Rita Magano ressalva que não se trata de uma vacina específica para o bundibugyo, embora exista a expectativa de que uma possível imunidade cruzada contribua para reduzir a mortalidade.
A responsável alerta ainda que a elevada mortalidade, próxima dos 50%, e a fragilidade do sistema de saúde congolês tornam difícil reduzir o esforço internacional de assistência. Além do ébola, é necessário assegurar cuidados a doentes com malária, cólera, VIH, tuberculose e doenças crónicas. Para a MSF, a vulnerabilidade da população e a persistência de novos casos indicam que o fim da epidemia continua distante.
Fonte: Lusa





