O Instituto Superior de Transportes e Comunicações (ISUTC) tem 26 anos e quem o acompanha está a par da complexidade de uma actividade que exige elevados investimentos, custos permanentes, escala e capacidade de atracção de estudantes.

O Instituto Superior de Transportes e Comunicações (ISUTC) foi uma das primeiras instituições privadas de ensino superior no País, vocacionada para a engenharia, transportes, comunicação e gestão. É a partir desta experiência de 26 anos que o director-geral, José Leopoldo Nhampossa, explica a economia por detrás de uma actividade num mercado que cresce, mas que está longe de dar retorno rápido. Nhampossa aborda ainda a evolução da procura e os critérios que pesam na escolha de uma instituição.

Os números mostram-nos uma rápida expansão das instituições privadas de ensino superior em Moçambique, sobretudo nos últimos 5 anos. Quais são, na sua perspectiva, os principais factores que explicam este crescimento?

Existem três razões principais. A primeira é a procura. Todos os anos aumenta o número de estudantes que concluem a 12.ª classe, tanto no ensino geral como no profissional, enquanto o número de vagas disponíveis no ensino público é limitado e tende a ficar saturado.

A segunda razão reside no próprio mercado de trabalho. Actualmente, há procura por quadros formados em áreas como os transportes, a construção e infra-estruturas, comunicação, engenharia, energia, logística e gestão. O mercado exige formação com qualidade.

“Quando abrimos um curso, temos de fazer um trabalho sério de captação para formar a primeira turma e, posteriormente, garantir novas matrículas todos os anos”

A terceira razão está relacionada com a oferta. As instituições privadas têm maior flexibilidade para responder às necessidades dos estudantes. Podem, por exemplo, oferecer horários pós-laborais, permitindo que quem trabalha também estude. A localização dos campus é outro factor importante. As instituições procuram estar próximas dos potenciais estudantes.

Quanto custa manter uma instituição privada de ensino superior em funcionamento em Moçambique?

Depende da dimensão da instituição, da distribuição geográfica e da modalidade de ensino, se é presencial ou à distância. Também depende muito do nível de qualificação dos docentes. Não posso avançar com um valor, porque existem muitas variáveis. Mas podemos falar de dezenas ou centenas de milhões [de meticais] por ano, dependendo da dimensão e das características da instituição. É preciso considerar laboratórios, manutenção, plataformas académicas, licenças, Internet e outros recursos. Há também custos relacionados com a acreditação dos cursos e com os sistemas académicos.

Mas quais são as componentes que mais pesam na estrutura de custos?

Numa instituição de ensino superior técnico, eu colocaria, em primeiro lugar, os docentes e o pessoal académico. É uma componente crítica e representa uma parte muito significativa. Depois temos as instalações e a sua manutenção, incluindo a factura de energia. A tecnologia também tem um peso importante, sobretudo quando existe oferta de ensino à distância, porque são necessárias plataformas, conectividade e outros sistemas. Depois vêm os laboratórios, que são fundamentais para uma instituição como o ISUTC. Em engenharia, por exemplo, não se pode pensar em formação sem laboratórios. A comunicação e o marketing também têm importância, embora não tenham o mesmo peso das componentes anteriores.

Que nível de investimento é necessário para criar e lançar um novo curso?

Abrir um novo curso não significa apenas preparar um plano curricular. É necessário desenvolver um projecto pedagógico e submetê-lo ao processo de acreditação pelo Conselho Nacional de Avaliação da Qualidade do Ensino Superior (CNAQ). Se for um curso à distância, há igualmente requisitos específicos de acreditação pelo Instituto Nacional de Educação à Distância (INED). Depois existem os custos relacionados com os docentes, tanto em número como em qualificação, bem como com os equipamentos e os recursos necessários para garantir a qualidade da formação.

Há ainda um custo que muitas vezes fica escondido: o tempo entre a decisão de abrir o curso e o momento em que ele atinge uma dimensão sustentável. Quando abrimos um curso, temos de fazer um trabalho sério de captação para formar a primeira turma e, posteriormente, garantir novas matrículas todos os anos. Só quando conseguimos construir um ciclo completo e chegar a uma base significativa de estudantes activos é que o curso começa a ganhar sustentabilidade.

Quantos estudantes são necessários, em média, para que um curso atinja uma dimensão economicamente sustentável?

No mínimo, 30 a 40 estudantes por ano. Torna-se economicamente confortável quando o ciclo completo (todos os anos em funcionamento) se aproxima de 120 a 200 estudantes activos, conforme a propina e o peso laboratorial. Abaixo disso, o curso vive à custa de outros. Este é um trabalho que exige uma estratégia consistente de captação e, depois, de retenção.

O ensino superior privado é viável, mas exige identidade, disciplina de custos e retenção de estudantes

É importante perceber que, independentemente do número de estudantes numa turma, há custos que permanecem fixos. Podemos ter uma turma com 50 estudantes ou com cinco, mas o número de docentes necessários não diminui na mesma proporção. O pessoal de apoio pode variar, mas existem custos que permanecem.

Quanto investe a instituição na captação e retenção de estudantes e que peso este investimento representa nos seus custos?

Fazemos actividades de captação, incluindo participação em feiras e iniciativas como o Dia Aberto do ISUTC, em que convidamos estudantes do ensino secundário e outros parceiros para conhecerem a instituição. Mas, para nós, a captação não deve ser o centro da estratégia. Podemos captar muitos estudantes e, depois, não ter capacidade para os reter. Isso seria um problema. Por isso, entendemos que é preferível crescer de forma sustentada e com qualidade a abrir muitos cursos sem capacidade interna para acompanhar os estudantes.

A retenção exige acompanhamento, atendimento e assessoria ao estudante durante o seu percurso. A desistência tem impacto directo na sustentabilidade de uma instituição. Por isso, uma parte importante dos recursos deve ser destinada à capacidade de acompanhar e reter os estudantes, e não apenas à sua captação.

Até que ponto a escala, em número de estudantes e de cursos, é determinante para que uma instituição privada consiga alcançar rentabilidade?

A escala é determinante. É preciso ter um número mínimo de estudantes, mas também é importante ter um conjunto de cursos que partilhem recursos. Por exemplo, diferentes cursos podem utilizar os mesmos docentes, laboratórios e sistemas. Um docente pode leccionar disciplinas em mais do que um curso, enquanto os mesmos laboratórios podem servir vários programas. É através dessa partilha de recursos que conseguimos alcançar escala e melhorar a sustentabilidade da instituição.

Num contexto de maior concorrência e de pressão sobre o poder de compra das famílias, o ensino superior privado continua a oferecer margens de rentabilidade atractivas?

O ensino superior privado é um negócio viável, sem dúvida. Mas é viável para instituições que tenham uma identidade clara, disciplina em termos de custos e capacidade de reter estudantes. Não é, contudo, um negócio de lucro rápido. É um investimento de longo prazo. É necessário construir uma identidade, controlar os custos e garantir que os estudantes permanecem na instituição. No nosso caso, somos uma escola de engenharia e gestão. Os estudantes procuram os nossos cursos porque os associam à reputação da instituição e à possibilidade de inserção no mercado de trabalho. Temos parcerias com empresas e estudantes que são procurados directamente pelo mercado. Há instituições que financiam ou atribuem bolsas para estudantes frequentarem os nossos cursos. Temos graduados no sector financeiro, na banca, em organizações não-governamentais e em instituições internacionais, incluindo o Banco Mundial, bem como em países como Portugal, Estados Unidos, Inglaterra e França.

“Os estudantes procuram os nossos cursos porque os associam à reputação da instituição e à possibilidade de inserção no mercado de trabalho”

Como evoluiu a procura pelo ensino superior privado no País nos últimos dez anos?

Acredito que a procura evoluiu de forma sustentada. Temos, por um lado, um aumento do número de estudantes que concluem o ensino secundário e, por outro, a saturação das vagas no ensino público. A procura também está a mudar geograficamente e em termos de modalidades. No ISUTC estamos presentes fisicamente em Maputo e, através do ensino à distância, conseguimos chegar a estudantes de outras províncias. A nossa política é: crescer de forma sustentável. Não queremos crescer rapidamente para depois termos problemas de retenção.

Quem escolhe o ensino superior privado? É quem não consegue ingressar nas instituições públicas ou famílias que fazem uma escolha deliberada pelo privado?

Há os dois perfis. Temos estudantes que procuram o ensino privado porque não conseguiram vaga no público, mas também há famílias que passaram a olhar para a educação como um investimento. Estas famílias procuram instituições cuja formação está associada ao emprego e às necessidades do mercado. Eu diria que, actualmente, ainda temos muitos estudantes que chegam ao ensino privado por não terem conseguido uma oportunidade no público, mas o cenário está a mudar. Cada vez mais famílias percebem que é necessário investir na formação, mas procuram fazê-lo em cursos com procura no mercado. O que estão a comprar, no fundo, é a empregabilidade.

O preço também pesa, naturalmente, assim como as modalidades, condições de pagamento, flexibilidade dos horários, modalidade de ensino (presencial ou à distância), localização da instituição e acesso digital. As instalações também contam. Geralmente, os estudantes visitam as instituições, observam as condições e fazem essa avaliação antes de tomar uma decisão.