Maputo (O Destaque) — A ministra da Educação e Cultura, Samaria Tovela, veio a público atirar as culpas do sufoco financeiro da classe docente para a própria gestão pessoal dos professores. À margem do segundo Conselho Coordenador do sector, que decorreu na Ponta do Ouro, a governante assegurou que o endividamento crónico dos mestres se deve ao recurso excessivo a empréstimos e à falta de habilidade para gerir os orçamentos domésticos.

Confrontada com o cenário de miséria e de baixos salários debatido no programa Debate da Nação da STV, Samaria Tovela foi peremptória ao afirmar que o problema não reside exclusivamente nos vencimentos, mas sim na incapacidade de poupança.

“O que nós nos apercebemos são as dívidas. Os professores têm dívidas aqui, dívidas ali. Pedem emprestado aqui e ali. A questão é que, quando se tem um orçamento, é preciso saber organizar-se dentro desse orçamento e não criar dívidas que não se conseguem pagar“, declarou a governante.

A ministra ilustrou a gravidade da situação com casos em que os docentes ficam reduzidos a tostões no final do mês:

“Temos professores que, hoje, quando recebem salário só sobram com 200 meticais, porque estão a pagar dívidas. Com 200 meticais, uma pessoa vai fazer o quê?”.

Formação financeira obrigatória para os mestres

Para estancar a sangria financeira que assola a classe, a titular da pasta da Educação defende uma reviragem na formação pedagógica do país. Segundo Tovela, os Institutos de Formação de Professores devem urgentemente integrar no seu currículo competências de administração orçamental, preparando os futuros docentes para evitarem compromissos financeiros incompatíveis com os seus bolsos.

Apesar de reconhecer que o custo de vida atinge níveis sufocantes para todos os moçambicanos e que os salários continuam aquém do desejável, a ministra vincou que a actual tabela salarial regista melhorias face à anterior, exigindo em contrapartida um maior rendimento prático nas escolas.

Pressão demográfica e analfabetismo no centro das preocupações

Durante o encontro, Samaria Tovela apontou ainda os colossais desafios estruturais que estrangulam o sistema de ensino nacional, destacando a entrada anual de 1,6 milhão de novas crianças no sistema e a transição do ensino básico para nove classes, o que continua a pressionar a construção de infra-estruturas e a reduzir as indesejadas turmas ao ar livre.

Contudo, o maior grito de alerta da governante foi lançado contra a ineficácia na aprendizagem básica: o elevado número de alunos que chegam a fases avançadas sem saber ler nem escrever.

“O aluno saber ler e escrever é o nosso rendimento. O Estado paga-nos salários e nós temos de produzir”, concluiu a ministra, exigindo maior rigor e compromisso colectivo de professores, pais e sociedade na salvação da qualidade do ensino em Moçambique.