Mapai-Rio (ou Mapai-Ngala)
Ponto prévio. Correção. Na primeira crónica desta série, usamos o termo Ngale. Deve ler-se Ngala em todas as passagens onde se faz menção a este termo. O nome que se usa na região para designar o animal ‘leão’ é Ngala. Não fomos a tempo de procurar entender o porquê deste nome que se usa mais em Gazankulu, na África do Sul, se, na língua Xangana que muito se fala na região sul de Moçambique (incluindo a região de Mapai), o correspondente de leão é Ngonyama!

Conforme apontado na primeira crónica sobre a minha “descoberta” de Mapai e Chicualacuala, a viagem até ao Distrito de Mapai foi muito doce. Sem reparos. De Chókwè à barragem de Macaretane, a estrada está boa, mas precisa ser percorrida a uma velocidade moderada, pois há buracos aqui e acolá, alguns dos quais até podem estragar a viatura. O troço que não está nada bom é de cerca de cinco quilómetros, começa pouco antes da estação ferroviária de Macaretane e vai até à barragem com o mesmo nome. Após descer da barragem… murarara (andar sem controlo, na língua Xangana) até ao destino final: a vila Eduardo Mondlane, Distrito de Chicualacuala! Mas, atenção, cuidado que pode encontrar “gados” (bovino, caprino, asninha (burros) e ouvino) no meio da estrada. Por isso, há que moderar a velocidade sempre.

Mas retomemos o fio à meada. Eis-nos ali, diante da localidade de Mapai-Rio (ou Mapai-Ngala). Segundo o chefe da Localidade, Eduardo Chipanga, a quem abordámos na casa um pouco mais vistosa onde parámos, que serve de sede da Localidade, as duas designações são usadas. Mapai-Rio destaca o rio como tal. Mapai-Ngala… Ngala é leão, na linguagem local. Depoimentos colhidos indicam que pela zona havia alguma frequência de leões vindos do Parque Nacional do Limpopo ou do Kruger Park que para ali ou iam beber água, ou caçar outros animais que também iam bebê-la. Daí a referência de Mapai-Ngala…. Na verdade, aquela localidade situa-se na margem norte do rio Limpopo; atravessando-a, vai dar a Pafuri, perto do Kruger Park, mais a norte, no lado sul-africano; e ao Parque Nacional do Limpopo do lado moçambicano. Documentos oficiais falam mais de Mapai-Ngala, como a Escola Primária de Mapai-Ngala (EP1).

É uma pequena vila que antecedeu a de Mapai-Estação, hoje sede do Distrito de Mapai. Os colonos portugueses tinham construído, por ali, uma vila de pequena dimensão, vivendo de agricultura, pesca e pecuária. Durante bom tempo, até que apareceu a ferrovia Lourenço Marques (Maputo) – Rodésia do Sul (Zimbabwe), foi uma vila com certa dinâmica econômica, comercial e industrial. Chegou a ser a sede de uma companhia/empresa que desenvolvia uma série de negócios, denominada Ngala, que até tinha uma frota de transportes rodoviários que iam para Rodésia/Zimbabwe e para o sul de Gaza, Massingir, Chókwè, por aí. Consta que esta companhia é que terá publicitado mais o nome Ngala. Daí que as coordenadas geográficas que prevalecem no Google Map são deste local, e ainda não as de Mapai-Estação. Por isso é que ali fomos parar… O Google Maps não nos levou necessariamente a lugar errado. Levou-nos, sim, a um lugar que não era o nosso destino inicial, mas que acabou por revelar uma parte importante da história de Mapai, que esperávamos obtê-lá na integridade da viagem. Talvez seja necessário melhorar a distinção entre Mapai-Ngala e Mapai-Estação nos mapas e nos sistemas de localização, para que não só os outros viajantes não tenham a mesma surpresa, mas para que se saiba distinguir uma coisa da outra.
Já no terreno e depois da explicação dada ao chefe da Localidade, este aconselhou-nos a ligar à nossa hospedeira, Maria Helena Langa, a actual Administradora do Distrito de Mapai. Nem Vodacom, nem Movitel tinham rede por ali. Com o seu próprio TMcel, num gesto de benevolência, Eduardo Chipanga estabeleceu o contacto e a “Boss” recomendou que ele nos levasse até ao rio. E levou-nos até ao rio. Uma distância de não mais de 800 metros de onde estávamos. À medida que íamos descendo para o rio, um outro cenário, que esperávamos que encontrássemos mais adiante e muito em Chicualacuala, agride a nossa vista e mente. A curiosidade de ver o rio Limpopo naquele ponto é asfixiada pelas imagens de profundas destruições de casas e edifícios, um quadro que bem se parece à de uma vila em ruínas, reduzida a cinzas; mas que, em simultâneo, acolhe vidas e uma dinâmica de um dia-a-dia normal. Mas resistimos um pouco e preferimos continuar para o rio, até que do lado esquerdo uma chapa erguida a um metro e meio obrigou o motorista da ocasião, o meu filho Júnior, a parar. Impossível passar sem olhar para ela e ler o que nela está escrito: “VALA COMUM JAZEM 25 CORPOS VÍTIMAS DA GUERRA DO IAN SMITH P. CULTURAL”. Vala comum, SIM! Ficou-se momentaneamente em silêncio dentro do carro, incluindo o chefe da Localidade, que ia connosco. Um silêncio que serviu de homenagem àquelas vítimas inocentes.
Mas continuamos para o rio. O rio Limpopo que conheci primeiro em Chicacate, no Chibuto, depois, em Xai-Xai, a seguir na divisão entre Chókwè e Guijá, ali estava ele, meio manso, algo preguiçoso, sem muitas águas, nem velocidade, como muitas vezes o vimos/vemos em Chicacate e em Chókwè/Guija; e também sem aquela agressividade que muitas vezes o vemos ter na entrada e saída de Xai-Xai, e nos terríveis períodos chuvosos. Dali onde estávamos, atravessa-se de batelão e/ou de canoagem para o outro lado, Pafuri; mas, naqueles dias, nem uma coisa, nem outra estava disponível. E dizia o chefe da Localidade que há carros que se fazem de barcos por ali… e que o nosso podia passar! Respondemos-lhe com um profundo silêncio! Uma jovem de cerca de 17 anos desceu à margem para lavar roupas. “Não tem medo de crocodilos?”, perguntámos-lhe e ela e o chefe da Localidade chocaram-se na resposta: não há crocodilos por ali! Como repetiam que as pessoas viviam da agricultura, ainda perguntamos onde estavam tais machambas, porque, nem ao longo do trajecto e nem ali mesmo, víamos uma, e a resposta foi que estavam do “outro lado do rio”, em Pafuri. Não conseguimos visualizar esse “outro lado”.
E assim descobrimos um “novo” rio Limpopo! Valeu o “erro” do Location!
De regresso à ex-vilazinha, mas que continua vilazinha de facto, com vida, casas, edifícios aceitáveis, comércio informal, movimentação normal de pessoas, barracas com as suas músicas indisciplinadas, escola, centro de saúde… tudo isso que conhecemos de uma localidade/posto administrativo, etc. Mas no meio daquelas casas, daquela dinâmica de pessoas no seu dia-a-dia, e de tudo aquilo, vislumbram-se ruínas, ruínas e ruínas que não acabam! Construções que foram edifícios grandes, instalações, um centro social, mercado local, casas normais completamente destruídas, em ruínas absolutas. Pessoas vivem por entre destruições. Destruições com mais de 50 anos. Chama a atenção, de facto, essa vala comum com chapa indicativa. Segundo o chefe da Localidade, tratou-se de um bombardeamento da Força Aérea Rodesiana (FAR) que teve lugar a 25/26 de Junho de 1976. Aquelas pessoas, e outras mais, preparavam-se para festejar o primeiro aniversário da independência nacional do seu País, Moçambique. E lá vieram os aviões de Ian Smith (o Zimithi, como se dizia na linguagem popular em todo o sul do país) e bombardearam não só a festa, mas tudo o que era edifício, infraestrutura, pessoas, até manadas de bovinos, sem considerar que por ali havia seres humanos inocentes. Conta Chipanga que houve muitas e muitas mortes e tantas e tantas destruições! Aquela “vilazinha” foi completamente desfeita; isto é, do rio até a saída, cerca de 800 metros a um quilômetro, tudo foi destroçado!
Na explicação do chefe da Localidade de Mapai-Ngala e confirmada por outras fontes, o exército de Ian Smith descobrira que ali eram treinados militarmente forças da ZANLA, de Robert Mugabe, que lutavam pela independência do Zimbabwe e preparava-se alguma logística para a guerra no interior da sua Rodésia. E a reação foi o que se viu e se vê até hoje, 50 anos depois. Forças especiais rodesianas, os famosos Selous Scouts, realizaram grandes ataques numa operação denominada Operation Long John, uma incursão considerada profunda, que atingiu Mapai e Chicualacuala. E não foi a única. Houve outras mais. Em Junho de 1977, outra grande operação, a Operation Aztec, voltou a bombardear Mapai e outros pontos, destruindo mais do que as bases e linhas de apoio aos combatentes de Robert Mugabe, mas todas as infra-estruturas, edifícios e tudo o que encontrasse pela frente. Este foi o cenário que toda a região norte de Gaza viveu naqueles terríveis anos de 1976, 1977, 1978, 1979 e… no início da década de 1980! Não só o norte de Gaza, mas também… Chókwè, Guijá, Chibuto e preparavam-se para bombardear também Xai-Xai, a capital provincial.
Cinquenta anos depois, permanecem bem vivas, em toda aquela região, as marcas e sequelas de uma guerra que se inscreveu na luta pela libertação dos povos da África Austral. As fotografias que acompanham esta crónica registam parte do que vimos: edifícios destruídos, ruínas que resistem ao tempo e uma comunidade que continua a viver no meio delas.
Uma coisa extremamente notável, digna de realce: em Mapai-Ngala, a destruição não apagou a vida. Há casas, escolas, centro de saúde, comércio informal e pessoas que perseguem o seu quotidiano entre as marcas de uma guerra que muitos dos mais novos não viveram e delas pouco conhecem, mas cujos vestígios continuam diante dos seus olhos. Será que estes locais todos que conheceram no sangue os bombardeamentos de Zimithi não mereciam/merecem um tratamento especial na nossa história e nas nossas políticas? Até se fala cada vez menos da guerra que Ian Smith nos impôs!
Foi uma visita que não estava nos nossos horizontes. Queríamos, sim, chegar a Mapai-Estação, a sede do distrito, e depois seguir para Chicualacuala, mas o Location do Google Map, esse, conduziu-nos a Mapai-Rio, ou Mapai-Ngala. Não estamos nada ressentidos, pelo contrário, só estamos bastante gratos: acabámos por descobrir um lugar que merece ser conhecido, estudado e recordado, mas que não constava do nosso programa. Enriquecemos bastante o nosso acervo histórico sobre a região e o seu passado.
Obrigado, Location, por nos teres levado a Mapai-Rio, ou Mapai-Ngala!
ME Mabunda
(Continua)



