A travessia matinal para o trabalho, partilhada numa boleiarumo à cidade, costumava ser um espaço de silêncio e transição. No entanto, por eu já ser alguém que escreve habitualmente sobre a Ka-Tembe, as nossas viagens transformaram-se. Hoje, quem viaja comigo já sabe que o tema é inevitável: as conversas matinais orbitam agora, de forma quase magnética, em torno dos desafios e das profundas transformações da nossa “outra margem”.

Foi precisamente o que aconteceu há uns dias. Entre o bairro de Incassane, onde resido, e a rotunda, o meu interlocutor — um conhecido residente — puxou o fio à conversa. Começámos pelas carências quotidianas que teimam em persistir à boca da modernidade, como a escassez gritante decaixas automáticas, (ATM’s) à qualidade ainda duvidosa dopão que chega às nossas mesas.

Contudo, ao olharmos pela janela, o foco virou-se para a velocidade com que a paisagem vai-se transformando. Onde outrora imperava o capim alto e os pequenos casebres de caniço e chapa de zinco, emergem nos dias de hoje mansões imponentes. Casas literais que vão alterando a fotografia da Ka-Tembe e que até fazem inveja a muitos bairros consolidados de Maputo.

Mas, foi no meio desta admiração estética que o meu companheiro de viagem lançou a pedra que quebrou o espelho do entusiasmo: “sabe, quem está a construir estas belas casas não são os pedreiros da Ka-Tembe.”

A afirmação bateu com a força de uma verdade empírica. Olhei para trás, para o meu próprio processo, e recordei que, quando construí a minha casa, os pedreiros vieram de fora. O mesmo aconteceu com canalizadores e ladrilhadores. É o padrão de quase todos os meus conhecidos que decidiram fixar residência na margem sul: nós, os que viemos da cidade, trazemos connosco a mão-de-obra de outros quadrantes.

Este fenómeno ganha corpo e rosto logo nas primeiras horas do dia, ali mesmo nas paragens e acessos que cruzávamos durante a boleia. O movimento matinal desenha uma coreografia impressionante de fluxos invertidos. Enquanto nós, os residentes, iniciamos a marcha de saída em direção ao emprego na cidade cimento, uma vaga humana cruza-se connosco no sentido oposto. São os “vientes” que vêm construir a Ka-Tembe.

É impossível ficar indiferente à imagem daqueles jovens que saltam dos transportes carregando réguas de alumínio à face, pás ao ombro, mochilas gastas e ferramentas pesadas. Vêem-se os ladrilhadores que caminham segurando as suas máquinas de corte ao colo, como quem transporta o próprio sustento. Eles entram com a força de trabalho; nós saímos para o emprego.

Estamos diante de um paradoxo socioeconómico inquestionável. Por um lado, a Ka-Tembe vive um boomimobiliário sem precedentes. Há capital a entrar, há betão a subir, há riqueza visível. Por outro lado, a juventude local — aquela que não encontrou espaço no negócio saturado das táxi-motos — assiste passivamente a esta edificação na condição de mera espectadora. O dinheiro da construção civil entra na Ka-Tembe, mas regressa na carteira dos mestres que, no final do dia, voltam para o outro lado da ponte. O capital não circula localmente.

Esta dinâmica não é nova; ela é, na verdade, o reflexo urbano de um drama maior que Moçambique conhece muito bem. O que se passa na nossa margem sul é a reprodução, em escala residencial, do mesmo fenómeno de exclusão que assombra os grandes projectos de recursos naturais em Cabo Delgado, Tete ou Inhambane.

À semelhança dos consórcios multinacionais do gás ou da mineração, que importam técnicos especializados e subempreitam empresas estrangeiras sob o argumento de falta de capacidade local, também nós, os novos “colonos urbanos” da Ka-Tembe, importamos os nossos próprios “expatriados” da cidade. Em ambos os cenários, o argumento é o mesmo: a falta de qualificação, o desfasamento técnico, a busca por um padrão que a terra ainda não consegue entregar. E em ambos os cenários, o resultado é idêntico: a riqueza extraída ou edificada gera um enclave de opulência cercado por um oceano de frustração local.

Esta constatação, que ecoou dentro do carro até ao final da minha viagem, abre um leque de interrogações profundas sobre a postura das gentes da Ka-Tembe e as políticas de capacitação. Será que os jovens locais estão apenas disponíveis para obras pequenas e fogem da exigência? Ou falta-lhes, na verdade, uma política séria de “conteúdo local”municipal que force a sua integração? Esta não é uma falha moral dos novos residentes que, como eu, importamos pedreiros, eletricistas e canalizadores; é uma falha grave de governação local. Trata-se, na verdade, da prova inequívoca de que a Ka-Tembe esteve sempre esquecida pelo poder político — e continua a sê-lo nos dias de hoje, um diagnóstico que, aliás, temos vindo a apontar com insistência nesta nossa coluna.

Enquanto o Município insistir em olhar para o boomimobiliário da Ka-Tembe apenas como uma mina de ouro para a arrecadação de taxas e licenças, ignorando a necessidade urgente de erguer centros de formação técnica locais, continuaremos a alimentar este gueto de exclusão. A transformação da nossa outra margem exige incentivos municipais sérios e corajosos, que “amarrem” o investimento privado ao desenvolvimento humano da terra que o acolhe, sob pena de perpetuarmos o abandono histórico sob uma nova e luxuosa maquilhagem de betão.

A Ka-Tembe precisa urgentemente de um projecto de grande envergadura que absorva e capacite a nossa massa jovem. Não basta que a margem sul seja o novo éden imobiliário de Maputo; é imperativo que os alicerces deste crescimento sejam cavados pelas mãos de quem aqui nasceu e cresceu. Sem a inclusão económica da mão-de-obra local, as mansões da Ka-Tembe — tal como as bases logísticas do gás — correrão o risco de se tornarem monumentos de isolamento. O betão está a mudar a fotografia da nossa Ka-Tembe, mas falta saber quando é que o desenvolvimento vai, finalmente, aprender a falar a língua de quem cá estava antes da ponte.