• Proposta do PESOE 2027 aponta para uma despesa pública de 511,2 mil milhões de meticais, inflação de 7% e redução do défice orçamental para 4,6% do PIB. Com a economia a crescer aquém do seu potencial produtivo, a consolidação fiscal terá de ser acompanhada por reformas estruturais mais céleres, capazes de estimular o investimento, aumentar a produtividade e acelerar a recuperação económica.

Questões-Chave:

  • Receitas do Estado deverão atingir 427,8 mil milhões de meticais em 2027, equivalentes a 23,5% do PIB;
  • Crescimento económico projectado em 1,6%, um ritmo insuficiente face às necessidades de criação de emprego, redução da pobreza e transformação produtiva;
  • Despesa pública fixada em 511,2 mil milhões de meticais, uma redução nominal de 1,8% relativamente ao orçamento de 2026;
  • Défice orçamental previsto em 4,6% do PIB, com recurso ao crédito interno limitado a 1,9% do produto;
  • Investimento público de 79,6 mil milhões de meticais, com aproximadamente 61% do financiamento dependente de recursos externos;
  • Reformas estruturais assumem maior importância para conciliar a consolidação fiscal com a recuperação do investimento privado, a diversificação económica e o crescimento sustentável.

O Governo moçambicano aprovou, na terça-feira, 13 de Outubro, a proposta do Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE) para 2027, estabelecendo uma previsão de receitas públicas de 427.750,1 milhões de meticais e uma despesa global de 511.162 milhões de meticais, num quadro de consolidação fiscal marcado por perspectivas de crescimento económico moderado.

A proposta, apreciada na 29.ª Sessão Ordinária do Conselho de Ministros, será submetida à Assembleia da República e assenta numa projecção de crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,6%, acompanhada de uma inflação média anual de 7%.

Os indicadores apresentados reflectem uma orientação de contenção da despesa pública, redução do défice orçamental e limitação do recurso ao financiamento interno. Simultaneamente, evidenciam uma questão estrutural da economia moçambicana: a persistência de taxas de crescimento insuficientes para responder às necessidades de investimento, criação de emprego, aumento do rendimento das famílias e expansão da base produtiva.

A previsão de crescimento de 1,6% coloca em evidência a importância de acelerar reformas económicas que permitam melhorar o ambiente de negócios, mobilizar investimento privado e aumentar a produtividade, num contexto em que a consolidação das finanças públicas constitui uma prioridade da política económica.

Segundo o porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, o PESOE 2027 estabelece como prioridades a melhoria do bem-estar da população, a articulação entre a planificação sectorial e a execução orçamental, bem como a preservação da estabilidade macroeconómica e da sustentabilidade das finanças públicas a médio prazo.

Crescimento de 1,6% Mantém Economia Aquém do Seu Potencial Produtivo

A previsão de expansão económica de 1,6% em 2027 aponta para a continuidade de uma recuperação moderada, num país cuja estrutura produtiva apresenta oportunidades significativas de crescimento nos sectores agrícola, energético, industrial, logístico e de serviços.

O ritmo projectado permanece limitado face às necessidades de absorção de mão-de-obra, particularmente jovem, de elevação da produtividade e de redução da pobreza.

A disponibilidade de recursos naturais, a localização geoestratégica e o potencial de integração nos corredores económicos regionais conferem à economia moçambicana oportunidades de expansão que ainda enfrentam constrangimentos estruturais.

Entre estes encontram-se os custos de contexto, as limitações de infra-estruturas, as dificuldades de acesso ao financiamento empresarial, os baixos níveis de produtividade em sectores relevantes e a reduzida diversificação da base económica.

A avaliação quantitativa da diferença entre o crescimento efectivo e o potencial exigiria estimativas específicas do produto potencial. Ainda assim, a taxa prevista de 1,6% revela uma trajectória de expansão modesta relativamente às necessidades de desenvolvimento e à capacidade produtiva que o país poderá construir com maior investimento e eficiência económica.

A inflação média anual projectada em 7% introduz uma dimensão adicional ao cenário macroeconómico, uma vez que a evolução dos preços continuará a influenciar o poder de compra das famílias, os custos de produção e as decisões de investimento.

A conjugação de crescimento reduzido e inflação relativamente elevada limita o espaço de expansão do consumo privado e aumenta a importância de políticas capazes de melhorar a competitividade e a oferta interna de bens e serviços.

Receitas Fiscais Continuam a Sustentar a Maior Parte do Orçamento

O Governo prevê arrecadar 427,8 mil milhões de meticais em receitas do Estado, equivalentes a 23,5% do PIB.

Segundo o comunicado do Conselho de Ministros, as receitas tributárias deverão representar 87% do total, correspondendo a aproximadamente 372,1 mil milhões de meticais.

Esta composição confirma a elevada importância da tributação para o financiamento das funções do Estado, tornando o desempenho da actividade económica e a eficiência da administração fiscal determinantes para a concretização das metas orçamentais.

Num cenário de crescimento de apenas 1,6%, a ampliação da arrecadação fiscal coloca exigências acrescidas à capacidade de cobrança, ao combate à evasão fiscal e ao alargamento da base tributária.

A formalização progressiva das actividades económicas, a simplificação das obrigações fiscais e a melhoria dos mecanismos de administração tributária constituem instrumentos relevantes para aumentar a receita sem agravar excessivamente os custos suportados pelos operadores económicos formais.

Entre as receitas projectadas incluem-se 3.071,6 milhões de meticais provenientes da exploração de gás natural liquefeito (GNL), equivalentes a aproximadamente 0,7% das receitas totais do Estado.

A contribuição directa do GNL para o orçamento de 2027 permanece, deste modo, relativamente limitada, apesar da importância estratégica dos investimentos energéticos para as perspectivas de desenvolvimento económico do país.

O aumento futuro das receitas provenientes do sector estará associado à expansão da produção, à entrada em operação de novos projectos e à evolução das condições fiscais e comerciais aplicáveis à exploração dos recursos.

Despesa Pública Recua 1,8% e Défice Deverá Diminuir Para 4,6% do PIB

A proposta fixa a despesa pública em 511.162 milhões de meticais, correspondentes a 28,1% do PIB.

O valor representa uma redução nominal de aproximadamente 1,8% relativamente à despesa inscrita na Lei do PESOE 2026, evidenciando a orientação de contenção orçamental adoptada pelo Executivo.

A diferença entre as receitas previstas e a despesa programada situa-se em cerca de 83,4 mil milhões de meticais, equivalente a aproximadamente 4,6% do PIB, percentagem que corresponde ao défice orçamental anunciado pelo Governo.

O Executivo prevê igualmente limitar o recurso ao crédito interno a 1,9% do PIB, numa estratégia destinada a conter as necessidades de financiamento doméstico e preservar a sustentabilidade das contas públicas.

A redução do financiamento público junto do sistema bancário poderá contribuir para moderar a concorrência do Estado pelos recursos financeiros disponíveis, criando condições potencialmente mais favoráveis ao financiamento empresarial.

Este efeito, porém, estará associado à evolução das necessidades de tesouraria do Estado, à regularidade dos desembolsos externos e à execução efectiva do orçamento.

A redução nominal da despesa, conjugada com uma inflação projectada de 7%, significa também uma contracção mais acentuada em termos reais, exigindo maior eficiência na afectação dos recursos públicos.

Neste contexto, a consolidação fiscal terá de preservar a capacidade de financiamento dos serviços essenciais e das despesas com maior impacto sobre a produtividade e o crescimento económico.

Investimento Público de 79,6 Mil Milhões Mantém Dependência do Financiamento Externo

O investimento público programado para 2027 ascende a 79.567,3 milhões de meticais, representando aproximadamente 15,6% da despesa total prevista.

Deste montante, 31.059,4 milhões de meticais deverão ser financiados por recursos internos, enquanto 48.507,9 milhões terão origem em fontes externas.

Investimento Público Previsto Para 2027

79,6 Mil Milhões MT

Financiamento interno

39%

31,1 mil milhões MT

Financiamento externo

61%

48,5 mil milhões MT

Fonte: Conselho de Ministros, 13 de Outubro de 2026. Percentagens calculadas a partir dos valores oficiais.

A estrutura projectada evidencia que aproximadamente 61% do investimento público dependerá de financiamento externo, confirmando a importância dos parceiros de desenvolvimento e das instituições financeiras internacionais na execução do programa de investimento.

Esta dependência introduz riscos associados à disponibilidade dos recursos, aos calendários de desembolso e às condições de financiamento, factores que poderão influenciar a realização dos projectos previstos.

O investimento público constitui um instrumento relevante para a dinamização económica, particularmente através da melhoria das infra-estruturas de transporte, energia, abastecimento de água e outros serviços essenciais à actividade produtiva.

A sua eficácia económica estará associada à selecção dos projectos, à qualidade da execução, à capacidade de atrair investimento complementar do sector privado e aos benefícios gerados para as actividades empresariais.

Num cenário de crescimento económico limitado, a execução atempada e eficiente dos investimentos públicos poderá contribuir para estimular a procura interna e melhorar as condições estruturais de produção.

Consolidação Fiscal Exige Reformas Mais Céleres Para Estimular o Crescimento

A proposta do PESOE 2027 coloca em evidência duas necessidades económicas interligadas: a consolidação das finanças públicas e a aceleração do crescimento.

A primeira responde às exigências de sustentabilidade orçamental, contenção do défice e melhoria da capacidade financeira do Estado. A segunda decorre da necessidade de aumentar a produção, criar emprego, mobilizar investimento e ampliar o rendimento das famílias.

A experiência económica internacional mostra que os processos de consolidação fiscal apresentam melhores condições de sustentabilidade quando acompanhados por reformas estruturais capazes de estimular a actividade económica e alargar a base tributária.

O crescimento económico contribui para aumentar as receitas públicas, melhorar a relação entre a dívida e o PIB e reduzir, progressivamente, a pressão das necessidades de financiamento sobre o orçamento.

Em Moçambique, a aceleração destas reformas assume particular relevância perante a persistência de constrangimentos que limitam a competitividade das empresas e a transformação produtiva.

No domínio das finanças públicas, destacam-se a modernização da administração tributária, a racionalização da despesa, o fortalecimento da gestão da dívida e dos riscos fiscais, a melhoria da governação das empresas públicas e o aumento da transparência na utilização dos recursos do Estado.

Na esfera empresarial, as prioridades incluem a simplificação dos processos de licenciamento, a redução dos custos de contexto, a melhoria do acesso ao crédito, a previsibilidade regulatória e o fortalecimento dos mecanismos de promoção do investimento.

A dinamização da agricultura, da indústria transformadora, dos serviços e das pequenas e médias empresas exige igualmente reformas orientadas para a produtividade, a integração nas cadeias de valor e o acesso a mercados nacionais, regionais e internacionais.

O desenvolvimento de infra-estruturas logísticas e energéticas, acompanhado pela qualificação da mão-de-obra, constitui outro factor relevante para ampliar a capacidade produtiva e atrair investimentos geradores de emprego.

A implementação mais célere destas reformas poderá contribuir para reduzir os constrangimentos estruturais que condicionam o desempenho económico, aumentando a capacidade de resposta do sector privado às oportunidades de investimento.

A consolidação fiscal, embora necessária, não substitui uma estratégia de crescimento. Pelo contrário, a sustentabilidade do ajustamento orçamental será favorecida por uma economia capaz de gerar mais produção, rendimentos e receitas fiscais.

Crescimento Económico Constitui Factor Decisivo Para a Sustentabilidade das Finanças Públicas

A relação entre crescimento económico e consolidação fiscal constitui um elemento central na avaliação das perspectivas orçamentais para 2027.

Uma economia que cresce lentamente enfrenta maiores dificuldades em ampliar as receitas fiscais, absorver novos trabalhadores e financiar as necessidades de investimento público sem aumentar o endividamento.

Por outro lado, uma expansão económica mais robusta favorece o crescimento da receita tributária, melhora a capacidade de pagamento das obrigações do Estado e amplia o espaço disponível para investimentos em infra-estruturas e serviços públicos.

A qualidade da consolidação fiscal estará, portanto, associada à composição dos ajustamentos, à preservação das despesas produtivas e à capacidade de implementar reformas que elevem o crescimento potencial da economia.

A redução do défice orçamental para 4,6% do PIB representa uma meta importante da proposta governamental, mas a sua concretização sustentável exige igualmente progressos na mobilização de receitas, na eficiência da despesa e na dinamização da actividade económica.

A previsão de crescimento de apenas 1,6% reforça a necessidade de conferir maior velocidade à agenda de transformação económica, sobretudo em sectores com capacidade de gerar emprego, substituir importações, aumentar exportações e ampliar a base de produção nacional.

A estabilidade macroeconómica proporciona condições importantes para o desenvolvimento, mas os seus benefícios tornam-se mais expressivos quando acompanhados por investimento, produtividade, competitividade e diversificação da economia.

PESOE 2027 Segue Para o Parlamento Com Crescimento e Sustentabilidade Fiscal no Centro da Discussão

A proposta do PESOE 2027 será submetida à Assembleia da República, que terá a responsabilidade de apreciar as prioridades económicas, os pressupostos macroeconómicos e a estrutura de financiamento da despesa pública.

A discussão parlamentar ocorrerá num contexto marcado pela necessidade de reduzir os desequilíbrios fiscais e, simultaneamente, acelerar a recuperação económica.

As metas de arrecadação de 427,8 mil milhões de meticais, crescimento real de 1,6%, inflação média de 7% e défice orçamental de 4,6% do PIB constituem os principais parâmetros do cenário apresentado pelo Executivo.

A sua concretização estará associada ao desempenho da economia, à eficácia da administração pública, à disponibilidade de financiamento externo e à implementação das políticas económicas e reformas estruturais previstas.

O quadro orçamental para 2027 evidencia, assim, a necessidade de articular a disciplina das contas públicas com uma política económica capaz de estimular o investimento e ampliar a capacidade produtiva nacional.

Com uma previsão de crescimento de 1,6%, a economia moçambicana mantém uma trajectória de expansão insuficiente face às suas necessidades de desenvolvimento e às oportunidades produtivas existentes. A aceleração das reformas estruturais, a melhoria do ambiente de negócios e o aumento da eficiência do investimento público e privado constituem condições importantes para elevar o ritmo de crescimento.

A sustentabilidade das finanças públicas beneficiará de uma economia mais dinâmica, diversificada e produtiva, capaz de gerar emprego, aumentar rendimentos e ampliar progressivamente a base de receitas do Estado.