Nampula (IKWELI) – Alguns cidadãos de Nampula consideram que o legado de Samora Moisés Machel, primeiro presidente da República de Moçambique, está a ser esquecido, defendendo o envolvimento de toda a sociedade no resgate dos valores que marcaram o seu pensamento e a sua governação.

As preocupações foram manifestadas esta segunda-feira, por ocasião da passagem de quatro décadas da morte de Samora Machel, ocorrida a 19 de outubro de 1986, num acidente aéreo em Mbuzini, na África do Sul, quando regressava de uma missão oficial.

Para os entrevistados, Moçambique perdeu precocemente uma figura que defendia a construção de uma nação desenvolvida, assente na justiça social, na honestidade e no combate aos males que afectam a sociedade.

O cidadão Juvenal Ngukavila considera que a morte de Samora Machel deixou um vazio moral no país, apontando a corrupção como um dos problemas que, na sua perspectiva, demonstram o afastamento dos valores defendidos pelo antigo estadista.

“Moçambique, depois de perder o pai da nação, ficou sem um pai moralizador como ele. O país sente a falta dele como uma figura de relevo e que representa a moral dos moçambicanos. Por exemplo, o nível de corrupção actual é assustador e dilacera o país. Para mim, a morte de Samora representa a ausência de uma figura moral e de relevo para o povo”, afirmou.

Por sua vez, Felisberto Inácio entende que os princípios defendidos pelo primeiro Presidente foram progressivamente relegados para segundo plano, dando lugar a práticas como o nepotismo, o favorecimento pessoal e a corrupção.

“Agora há muito amiguismo, nepotismo, corrupção, cada um por si e Deus para todos. Assistimos a muita incompetência de alguns dirigentes. Portanto, a morte de Samora aconteceu numa altura em que alguns moçambicanos não estavam preparados para continuar com os seus ideais”, declarou.

Na mesma linha, Luís Pedro considera que os ideais de Samora Machel estão a perder influência na sociedade, sobretudo no que diz respeito ao combate à corrupção e ao regionalismo, apesar de, segundo afirma, o seu legado continuar presente nos discursos de dirigentes.

O entrevistado aponta igualmente a necessidade de maior investimento no sector agrário, recordando a aposta de Samora Machel na produção agrícola como parte dos esforços para combater a fome no país.

“Tenta-se falar da continuidade do legado de Samora, mas há um vazio na prática. Existe muita falta de vontade para lutar contra os problemas que o primeiro Presidente combatia”, afirmou.

Luís Pedro acrescentou que a agricultura necessita de maior atenção, defendendo que os projectos destinados ao desenvolvimento do sector devem responder às necessidades da população e produzir resultados concretos.

Na sua avaliação, muitos dos compromissos assumidos em nome do legado de Samora Machel permanecem limitados aos discursos proferidos durante reuniões, comícios e celebrações de datas históricas, sem a correspondente aplicação prática.

O cidadão apelou ainda à união de esforços para que o legado do antigo estadista não se limite à evocação da sua memória em datas comemorativas.

Para esta fonte, a juventude precisa de conhecer melhor a trajectória política e os feitos de Samora Machel, considerando que o ensino da história nacional deve contribuir para aproximar as novas gerações da realidade e dos valores que marcaram a construção do Estado moçambicano.

“Eu acho que a juventude actual desconhece quem era Samora e os seus feitos. Isso acontece porque a nossa educação já não está tão ligada ao nosso país e a nossa história está a ser escondida. Há falta de interesse para que as pessoas conheçam aquilo que era a prioridade de Samora”, apelou.

Samora Moisés Machel foi o primeiro Presidente da República de Moçambique, tendo liderado o país após a proclamação da independência nacional, em 25 de Junho de 1975 e perdeu a vida a 19 de Outubro de 1986, juntamente com membros da delegação que o acompanhava, num acidente aéreo ocorrido em Mbuzini, na África do Sul quando regressava na Zâmbia. (Francisco Mário)