As acções norte-americanas registaram esta quarta-feira, 4 de Novembro, o seu melhor dia desde Agosto, impulsionadas por uma forte vitória do Partido Democrata nas eleições intercalares (midterms) e por uma queda abrupta nos preços do petróleo, à medida que os investidores antecipam um abrandamento das tensões geopolíticas no Médio Oriente.
O índice S&P 500 avançou 1,58% para 7688,62 pontos, o Dow Jones Industrial Average saltou 3,03% para 53 356,12 pontos, e o Nasdaq Composite subiu 1,44% para 25 736,51 pontos.
A vitória democrata, que garante o controlo da Câmara dos Representantes (231 lugares) e do Senado (54 lugares), devolve Washington a um cenário de “Governo dividido” sob a Administração do Presidente Donald Trump. Historicamente, os mercados recebem bem o impasse político, pois este limita alterações legislativas drásticas.
“O regresso a um Governo dividido sugere que o impasse limita o risco político”, afirmou George Brown, economista sénior da Schroders. No entanto, Brown alerta para novos pontos de tensão, nomeadamente o teto da dívida. “Um compromisso de última hora poderá aumentar o défice em cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB), o que poderá levar os investidores a exigir um prémio de prazo mais elevado para as obrigações do Tesouro”, acrescentou.
Tecnológicas em foco: Apple sobe, Tesla e Nvidia recuam
O sector tecnológico apresentou um comportamento misto. A Apple, a Amazon e a Microsoft subiram mais de 5% nesta sessão, com os investidores a apostarem que um Congresso controlado pelos democratas exercerá pressão para cortes no investimento em Inteligência Artificial (IA).
Em contrapartida, os activos ligados a Elon Musk sofreram. A Tesla e a SpaceX caíram 3,34% e 3,81%, respectivamente, devido ao receio de um reforço da regulamentação sobre a IA e de um maior escrutínio político sobre o império do bilionário, aliado de Trump. A Intel e a Nvidia também não escaparam, desvalorizando 3,77% e 3,17%, respectivamente.
Petróleo desaba com apelos ao fim da guerra no Irão
No mercado de commodities, os preços do petróleo registaram uma queda histórica. O West Texas Intermediate (WTI) caiu 8,14% para 88,27 dólares por barril, enquanto o Brent do Mar do Norte deslizou 8,47% para 94,82 dólares.
A descida do preço do Brent de forma acentuada, chegando a cair 9%, para 94,50 dólares, aconteceu depois de o vice-presidente dos Estados Unidos da América (EUA), JD Vance, ter atribuído a derrota do partido Republicano nas eleições intercalares à guerra no Irão.
O mercado petrolífero não tinha reagido com grande intensidade ao resultado das eleições nos Estados Unidos e, ao longo do dia, o Brent manteve-se entre os 103 e os 104 dólares, num intervalo semelhante ao dos dias anteriores.
A descida acentuada aconteceu a partir das 16h30. Nesse momento, o vice-presidente norte-americano publicou nas redes sociais uma longa reflexão sobre a derrota republicana nas eleições, na qual admitia que a guerra com o Irão tinha influenciado o resultado eleitoral.
“A guerra é a razão da nossa derrota”, escreveu JD Vance numa mensagem muito longa na rede social X, acrescentando: “Todos sabem porque é que perdemos. Qualquer conversa franca sobre o caminho a seguir tem, a partir de agora, de começar por aí”.
“Se quiserem argumentar que valeu a pena, que perder o Senado nos próximos seis anos valeu a pena, então façam-no. Argumentem que foi um custo que valeu a pena pagar. Concordem ou discordem, pelo menos isso é honesto”, acrescentou o vice-presidente.
Com a vitória democrata, os mercados aguardam agora para ver se Trump tentará contornar as limitações do Congresso através de autoridade executiva
A queda foi ainda catalisada pelos líderes democratas no Congresso, Hakeem Jeffries e Chuck Schumer, que apelaram esta quarta-feira ao fim imediato da guerra no Irão. “O povo norte-americano não sabe porque estamos a lutar no Irão”, afirmou Schumer, responsabilizando o Presidente Trump pela falta de clareza. Os investidores interpretam esta mudança de poder como um travão à escalada militar.
Apesar da mudança em Washington, Thomas Mucha, estratega geopolítico da Wellington Management, mostra-se cauteloso: “Esta vitória decisiva muda Washington. Mas não creio que seja provável que altere fundamentalmente o rumo da política externa dos EUA.”
No plano dos dados económicos, o PMI Final de Serviços dos EUA fixou-se em 56,1 em Outubro, abaixo dos 57,9 preliminares e dos 58,8 de Setembro. O PMI Composto Final também desiludiu, fixando-se em 55,9.
O relatório do ISM mostrou que a actividade empresarial e os novos pedidos arrefeceram, embora o emprego tenha melhorado. O índice de preços pagos caiu para 73,0, mas a pressão sobre os custos persiste, com os preços dos combustíveis a subirem pelo nono mês consecutivo e as faltas de componentes de memória a continuarem a afectar o sector.
Com a vitória democrata, os mercados aguardam agora para ver se Trump tentará contornar as limitações do Congresso através de autoridade executiva.





