E se uma tarefa administrativa que hoje consome horas pudesse ser resolvida em minutos? E se a análise de documentos, a organização de informação e a tomada de decisões deixassem de absorver boa parte do tempo dos funcionários públicos? A Inteligência Artificial (IA) promete tornar estes cenários cada vez mais possíveis, mas a questão decisiva para Moçambique não é apenas o que as máquinas conseguem fazer. É o que o Estado poderá fazer melhor com elas.

Foi precisamente esse o desafio lançado por Américo Muchanga, ministro das Comunicações e Transformação Digital, durante a formação da Google em Super Inteligência (SI)/Inteligência Artificial, realizada esta quarta-feira (29), em Maputo, sob o lema AI for Governance. A iniciativa, promovida em parceria com a Google, a Embaixada dos Estados Unidos da América e a UpSkill Universe, marca a primeira realização desta formação em Moçambique e coloca o País como o terceiro da região a acolher o programa que procura capacitar funcionários públicos para utilizar a Inteligência Artificial, a computação em nuvem e os sistemas de dados na modernização da Administração Pública.

“Como é que nós podemos servir melhor o cidadão, ser mais produtivos e eficientes?”, questionou o ministro, defendendo uma abordagem que privilegie as oportunidades da tecnologia em vez de se concentrar exclusivamente nos receios que suscita.

O governante considera que a IA pode ajudar a melhorar o desempenho das instituições, estimular a criação de negócios, gerar empregos e contribuir para o crescimento económico.

No entanto, a promessa de maior produtividade vem acompanhada de riscos que o Governo reconhece. Américo Muchanga alertou para a capacidade da Inteligência Artificial de identificar e explorar vulnerabilidades informáticas, sublinhando que as mesmas ferramentas que ajudam a reforçar a segurança podem também ser utilizadas para comprometer sistemas e redes.

O desafio, na sua perspectiva, é conhecer estas vulnerabilidades e aproveitar as capacidades da tecnologia para prevenir ataques, reforçar a resiliência das infra-estruturas digitais e proteger os cidadãos.

A iniciativa, promovida em parceria com a Google, a Embaixada dos Estados Unidos da América e a UpSkill Universe, marca a primeira realização desta formação em Moçambique e coloca o País como o terceiro da região a acolher o programa

A preocupação estende-se à utilização de dados pessoais, à confidencialidade da informação e à possibilidade de decisões discriminatórias ou incorrectas. “No sector público, onde uma decisão administrativa pode afectar direitos e oportunidades, a responsabilidade não pode ser transferida para uma ferramenta tecnológica. A Inteligência Artificial deve aumentar a capacidade humana e não substituir a sua responsabilidade”, afirmou o ministro.

Para criar condições de utilização responsável, Muchanga destacou a criação da Comissão Nacional de Inteligência Artificial, através do Decreto n.º 14/2026, de 17 de Abril, bem como a consolidação da proposta da Estratégia Nacional de Inteligência Artificial. Referiu igualmente a recente aprovação da Lei de Segurança Cibernética e da Lei dos Crimes Cibernéticos, instrumentos que integram os esforços de reforço da protecção no espaço digital.

A possibilidade de recuperar tempo de trabalho foi também destacada por Abigail Dressel, encarregada de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos em Moçambique, que apresentou a experiência do Departamento de Estado norte-americano com o State Chat, uma ferramenta de IA utilizada para apoiar a pesquisa, a redacção de textos e a síntese de informação.

Segundo dados do Governo dos Estados Unidos citados pela diplomata, os utilizadores reportaram uma poupança média de cerca de duas horas de trabalho por semana. Considerando as utilizações mais comuns, a ferramenta permite poupar aproximadamente 20 mil horas de trabalho semanais.

Dressel ressalvou, porém, que a tecnologia não substitui o conhecimento dos funcionários nem elimina a necessidade de verificar a informação e proteger os dados. O objectivo deve ser utilizar as ferramentas para trabalhar melhor, e não simplesmente produzir mais documentos em menos tempo.

A diplomata salientou ainda que o acesso à Internet não garante, por si só, literacia digital. É necessário desenvolver competências para utilizar as ferramentas de forma prática, eficaz e responsável, tendo em conta as particularidades das instituições e das comunidades.

Na perspectiva da Google, a capacitação dos decisores e dos funcionários públicos é parte essencial desta equação. A tecnologia só poderá produzir resultados sustentáveis se as instituições estiverem preparadas para a utilizar e se existirem condições para a integrar nas prioridades de desenvolvimento do País

Infra-estruturas, dados e competências: as condições para avançar

Para Pren-T Silya Boa-Guehe, responsável pelas instituições pan-africanas na Google, o potencial da Inteligência Artificial em Moçambique depende da capacidade de criar um ecossistema que combine tecnologia, políticas públicas, infra-estruturas e competências.

A representante defendeu que a adopção destas ferramentas pode abrir novas possibilidades para resolver desafios locais, melhorar os serviços públicos e apoiar a próxima geração de inovadores e empreendedores. No entanto, alertou para a importância de sistemas de dados de qualidade, infra-estruturas robustas de computação em nuvem e políticas capazes de orientar a inovação e gerir os riscos associados.

A questão da soberania digital também ganha relevância neste processo, à medida que os países procuram compreender como os seus dados são geridos e de que forma podem desenvolver capacidade para controlar e proteger os seus recursos digitais.

Na perspectiva da Google, a capacitação dos decisores e dos funcionários públicos é parte essencial desta equação. A tecnologia só poderá produzir resultados sustentáveis se as instituições estiverem preparadas para a utilizar e se existirem condições para a integrar nas prioridades de desenvolvimento do País.

Gori Yahaya, director executivo e fundador da UpSkill Universe, reforçou a importância da formação prática para aproximar os funcionários públicos destas ferramentas. A empresa, que trabalha com a Google há mais de 11 anos na implementação de programas de capacitação em África, procura ajudar profissionais a compreender como a IAcpode ser aplicada às suas actividades e aos desafios das organizações.

Yahaya sublinhou que o acesso à Internet precisa de ser acompanhado por oportunidades de aprendizagem que permitam aos participantes experimentar as ferramentas, discutir as suas possibilidades e desenvolver confiança na sua utilização.

Texto: Ana Mangana