O Governo da Rússia recrutou 1229 cidadãos do Burundi e do Zimbabué para combater na Ucrânia entre Janeiro e Setembro deste ano, além de cidadãos de outros países africanos, segundo um relatório da Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas, citado pela agência Bloomberg.

De acordo com o documento, Moscovo recrutou 699 homens do Burundi nos primeiros nove meses deste ano, contra 30 durante todo o ano de 2025. No mesmo período, foram recrutados 530 cidadãos do Zimbabué, face aos 65 registados no ano passado.

A República Democrática do Congo, a Serra Leoa, o Sudão e os Camarões também registaram aumentos significativos no número de cidadãos recrutados, embora o relatório não apresente dados detalhados sobre estes países.

Segundo a comissão da ONU, as autoridades russas terão recorrido ao engano ou à coacção para recrutar cidadãos de 29 países para as suas forças armadas. Entre os mecanismos de aliciamento identificados estão promessas de bónus de contratação, salários elevados e facilidades na obtenção da cidadania russa, segundo relatos de familiares dos recrutados.

Desde o início da guerra, em 2022, a Ucrânia identificou 45 959 cidadãos estrangeiros, provenientes de 151 países, que assinaram contratos com as forças armadas russas. Deste total, 5451 são africanos, segundo dados apresentados pela comissão das Nações Unidas.

A Rússia tem sido acusada pela Ucrânia e por organizações internacionais de intensificar o recrutamento de cidadãos estrangeiros, incluindo africanos, para compensar a escassez de efectivos militares. Moscovo, contudo, não reconheceu publicamente a utilização desta prática nos termos denunciados.

Vários Governos africanos já alertaram os seus cidadãos para os riscos associados a ofertas de emprego na Rússia. O Botsuana e a África do Sul emitiram avisos nesse sentido, enquanto o Zimbabué deteve dois cidadãos russos suspeitos de envolvimento no recrutamento para as forças armadas.

Os Governos do Quénia e do Gana também solicitaram directamente a Moscovo que interrompesse estas actividades. No Quénia, responsáveis políticos afirmaram que pelo menos mil cidadãos do país terão sido recrutados.

A divulgação do relatório coincide com a III Cimeira Rússia-África, que decorre em Moscovo e reúne representantes de 48 países africanos, incluindo 22 chefes de Estado, segundo os meios de comunicação estatais russos. Entre os participantes lusófonos estão os Presidentes de Moçambique, Daniel Chapo, e da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang.

O encontro decorre num contexto de reforço da influência política e diplomática russa no continente. Num artigo sobre a presença de Moscovo em África, a revista The Economist considera que o Presidente Vladimir Putin procura apresentar a Rússia como defensora do chamado “Sul Global” contra o neocolonialismo ocidental.

Nesta edição, os participantes deverão adoptar três documentos: a declaração final da cimeira, o Plano de Acção para 2027-29 e uma declaração sobre a cooperação no uso pacífico das tecnologias de Inteligência Artificial

A publicação destaca também o recurso à diplomacia cultural, à Igreja Ortodoxa, ao ensino superior, aos meios de comunicação social e a associações profissionais para ampliar a influência russa. Entre os exemplos referidos está a inauguração de uma “Casa da Rússia” em São Tomé e Príncipe, em Setembro.

A III Cimeira Rússia-África inclui sessões dedicadas à cooperação nos transportes, à memória histórica e ao combate ao neocolonialismo. Em paralelo, decorre o Fórum Económico e Humanitário Rússia-África, subordinado ao tema “Juntos desenvolvemos uma cooperação mutuamente vantajosa e o potencial de cada país da África”.

A primeira edição da cimeira realizou-se em Outubro de 2019, em Sochi, com o objectivo de definir prioridades para a cooperação política, económica e científico-técnica entre a Rússia e os países africanos.

Nesta edição, os participantes deverão adoptar três documentos: a declaração final da cimeira, o Plano de Acção para 2027-29 e uma declaração sobre a cooperação no uso pacífico das tecnologias de Inteligência Artificial.