O Banco de Moçambique (BdM) está a preparar um plano para adquirir ouro produzido no País, com o objectivo de reforçar e diversificar as reservas internacionais. A iniciativa surge numa altura em que o Governo prevê um crescimento de 44% na produção nacional do metal precioso em 2027, podendo atingir um máximo histórico de 1,8 toneladas.
O Banco de Moçambique (BdM) anunciou, esta quarta-feira (28), que pretende começar a adquirir ouro produzido no território nacional, no âmbito de uma estratégia destinada a reforçar e diversificar as reservas internacionais do País, acompanhando uma tendência crescente entre os bancos centrais africanos.
A informação foi avançada pelo governador da instituição, Felisberto Navalha, durante a abertura da 51.ª reunião do Conselho Consultivo do Banco de Moçambique, realizada na província de Tete, onde apresentou algumas das prioridades da autoridade monetária para a gestão das reservas externas.
Segundo o responsável, o banco central está a trabalhar em coordenação com o Ministério dos Recursos Minerais e Energia na elaboração de um plano que permitirá operacionalizar a aquisição de ouro produzido internamente. “No domínio da gestão das reservas internacionais e em coordenação com o Ministério de Recursos Minerais e Energia, estamos a elaborar um plano de trabalho que visa operacionalizar a aquisição de ouro de produção doméstica”, afirmou Felisberto Navalha.
O governador explicou que a iniciativa acompanha a estratégia adoptada por vários bancos centrais, incluindo instituições africanas, que têm procurado aumentar a participação do ouro na composição das reservas internacionais. A medida surge “em linha com a tendência dos bancos centrais” de reforçar e diversificar os seus activos de reserva através da aquisição de ouro produzido nos respectivos países, acrescentou.
Embora o Banco de Moçambique ainda não tenha divulgado o montante destinado à operação, as quantidades que pretende adquirir ou o calendário de implementação, a iniciativa poderá representar uma nova oportunidade para a valorização da produção aurífera nacional. O anúncio surge depois de as reservas de ouro detidas pelo Banco de Moçambique terem registado uma valorização expressiva em 2025, impulsionada sobretudo pela subida das cotações internacionais do metal precioso.
De acordo com as demonstrações financeiras da instituição, o valor das reservas de ouro aumentou 65%, passando de 21,2 mil milhões de meticais, em 2024, para aproximadamente 35 mil milhões de meticais, em 2025. A evolução corresponde a um acréscimo de cerca de 13,8 mil milhões de meticais num único ano, embora o volume físico de ouro detido pelo banco central tenha permanecido relativamente estável.
Este desempenho reflecte essencialmente a valorização do metal nos mercados internacionais, e não um aumento significativo das quantidades armazenadas. A eventual aquisição de ouro de produção nacional poderá, assim, permitir ao banco central aumentar o seu stock físico e diversificar a composição das reservas internacionais
A intenção de adquirir ouro nacional surge numa altura em que o Governo moçambicano prevê uma recuperação significativa da produção aurífera, depois de dois anos marcados por dificuldades operacionais e pela suspensão de actividades em algumas regiões mineiras.
De acordo com a proposta do Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE) para 2027, o País poderá produzir 1809,2 quilogramas de ouro no próximo ano, contra os 1255,4 quilogramas projectados para 2026, representando um crescimento de aproximadamente 44%. “No ramo dos minerais metálicos, destaca-se o ouro, cuja produção poderá aumentar em cerca de 44%”, refere o documento governamental.
Caso a previsão se concretize, Moçambique poderá alcançar o maior volume de produção de ouro da sua história, ultrapassando o anterior recorde de 1666,4 quilogramas registado em 2023. Aos preços internacionais considerados na estimativa divulgada, a produção projectada para 2027 representa um valor bruto superior a 230 milhões de dólares, embora o montante efectivo dependa das condições de comercialização e da evolução das cotações internacionais.
O desempenho esperado contrasta com os resultados dos últimos dois anos. Em 2025, a produção nacional de ouro caiu 17%, para 1349,3 quilogramas, correspondendo a apenas 82% da meta anual, devido sobretudo à paralisação das actividades de extracção na província de Manica.
Já no primeiro semestre de 2026, a produção recuou 12%, para 713,33 quilogramas, num contexto marcado pela suspensão da actividade mineira em Manica e pela paralisação de empresas no Niassa para regularização das respectivas licenças. A estratégia de aquisição de ouro nacional pelo banco central coincide igualmente com iniciativas destinadas a aumentar a capacidade de processamento do metal precioso em Moçambique.
Em Março de 2026, o Governo anunciou que investidores dos Emirados Árabes Unidos manifestaram interesse em instalar no País a primeira refinaria nacional de ouro, recorrendo a tecnologias modernas e padrões internacionais de certificação. A iniciativa pretende reforçar a capacidade de transformação e valorização do recurso antes da exportação, numa altura em que as autoridades procuram melhorar a fiscalização da actividade mineira e combater a exploração ilegal.
A criação de uma capacidade nacional de refinação poderá também facilitar o desenvolvimento de uma cadeia de valor mais estruturada, embora a sua concretização dependa dos investimentos, das condições técnicas e do quadro regulamentar aplicável. Com a preparação do plano de compra de ouro nacional, o Banco de Moçambique procura estabelecer as condições para aproveitar parte da produção interna na gestão das reservas internacionais, reforçando a diversificação dos activos sob sua responsabilidade.
A concretização da estratégia dependerá, contudo, da definição dos mecanismos de aquisição, dos critérios de qualidade e certificação do ouro e das condições financeiras necessárias à sua implementação.





