A explosão demográfica, a baixa cobertura do ensino superior e a pressão sobre os orçamentos públicos estão a transformar as universidades privadas num dos segmentos mais dinâmicos da educação no continente.

Africa parece estar a construir um novo mercado de educação superior. A procura cresce, a população jovem aumenta e os Estados enfrentam dificuldades para expandir a oferta pública ao ritmo necessário. Nesse espaço, as universidades privadas deixaram de ocupar uma posição complementar para ganhar peso próprio no sistema de formação de capital humano.

A dimensão desta mudança começa a aparecer nos números. A base de dados 2026 do uniRank – plataforma internacional de informação e classificação de instituições de ensino superior – contabiliza 1332 instituições de ensino superior reconhecidas em África, das quais 659 são privadas, o equivalente a 49,5% do universo considerado. A própria plataforma adverte que se trata da sua base de instituições reconhecidas e não de um recenseamento oficial continental, mas a proporção parece sinalizar a dimensão que o sector privado já alcançou.

O fenómeno ocorre num continente onde a procura está ainda longe de estar satisfeita. O primeiro relatório global sobre tendências de ensino superior, publicado este ano pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), mostra que 269 milhões de estudantes frequentavam o ensino superior em todo o mundo, em 2024. Na África Subsaariana, porém, apenas cerca de 9% da população em idade típica de frequência estava matriculada, contra uma média mundial de 43%.

O próprio Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) chegou a colocar este tema na agenda continental. Num diálogo de alto nível realizado em 2024, a instituição defendeu uma maior participação do sector privado no financiamento do ensino privado, precisamente para ajudar a responder à procura crescente e ao défice de competências.

A história do ensino privado em África mostra uma concentração frequente em cursos de procura elevada e menor custo de implementação

A procura insatisfeita que gera oportunidade de mercado

A pressão demográfica ajuda a explicar a dimensão do movimento. A UNESCO estima que 75% dos africanos têm menos de 35 anos e prevê que o número de jovens que concluem o ensino secundário ou superior aumente de 103 milhões, em 2020, para 240 milhões, em 2040.

As economias precisam de profissionais e o cenário de capacidade pública limitada favorece o crescimento da oferta privada.

A experiência africana mostra, aliás, que não se trata apenas da abertura de universidades. Há instituições generalistas, escolas especializadas, universidades tecnológicas, operadores ligados a grupos religiosos, modelos empresariais com fins lucrativos, instituições sem fins lucrativos e uma oferta crescente de ensino híbrido e à distância. Na Nigéria, por exemplo, existem actualmente 182 universidades privadas, contra 77 federais e 69 estaduais, segundo as autoridades oficiais do país. A expansão continua. Em Julho de 2026, a autoridade reguladora nigeriana concedeu licenças provisórias a duas novas universidades privadas. No Quénia, a Comissão para a Educação Universitária contabilizava 32 universidades privadas em Novembro de 2025, contra 29 no início desse mesmo ano.

A procura por formação superior está a abrir espaço para novas instituições privadas em África

Da sala de aula para a economia

A UNESCO estima que 11 milhões de jovens africanos entram todos os anos no mercado de trabalho e que mais de 40% não possuem as competências necessárias para conseguir emprego. Tal coloca uma pressão particular sobre as universidades privadas. A sua vantagem empresarial (maior flexibilidade para criar cursos, alterar currículos e responder à procura) pode transformar-se numa vantagem económica se conseguir aproximar a formação das necessidades das empresas.

Mas também pode produzir o efeito contrário. A história do ensino privado em África mostra uma concentração frequente em cursos de procura elevada e menor custo de implementação. Engenharia pesada, medicina, ciências laboratoriais e investigação exigem laboratórios, equipamentos, pessoal especializado e financiamento continuado. São áreas onde abrir uma turma é muito diferente de construir capacidade científica.

Uma universidade que produz milhares de diplomas sem correspondência com as necessidades do mercado pode aumentar a oferta de certificados sem aumentar proporcionalmente a produtividade da economia. E quem quer pagar propinas para, no final, não ter emprego? É este o desafio que prevalece.

Texto Ana Mangana e Celso Chambisso • Fotografia D.R.