O novo governador do Banco de Moçambique chega num momento em que a inflação está mais controlada e as taxas de juro em queda, mas as empresas enfrentam dificuldades de financiamento e o País permanece exposto a fortes pressões fiscais, cambiais e externas.
Felisberto Navalha regressa ao Banco de Moçambique, quatro anos depois, mas desta vez para o cargo de governador. O mandato de Rogério Zandamela terminou e a liderança transita para um quadro com mais de duas décadas de experiência na instituição. Navalha tomou posse a 2 de Setembro, num contexto em que o País procura consolidar a estabilidade monetária sem perder de vista uma economia que continua a crescer abaixo do seu potencial.
Os economistas Moisés Nhanombe e Eduardo Sengo indicaram à E&M um conjunto de desafios que o novo governador deve enfrentar durante o seu mandato. O ponto de partida está no plano geral: fazer com que os ganhos de estabilidade tenham maior expressão no financiamento das empresas, no investimento e na actividade produtiva. E esta tarefa começa num ponto aparentemente favorável. A inflação anual situou-se em 6,45% em Agosto, enquanto a taxa MIMO caiu para 9,25%, depois de 17,25% no final de 2023.
A nova administração é desafiada a garantir que o mercado funcione de forma suficientemente previsível para empresas que precisam de divisas
No mesmo período, a prime rate recuou de 24,1% para 15,5%, a 18 de Setembro. A descida das taxas de referência alterou significativamente o custo do dinheiro, mas não eliminou a questão a que Felisberto Navalha terá de responder: porque é que a redução das taxas ainda não se traduz numa expansão mais robusta do crédito à economia?

O crédito que não acompanha a descida dos juros
Eis a contradição que constitui a primeira das preocupações dos dois economistas. “É preciso fazer com que a redução das taxas de referência se traduza num crédito efectivamente mais barato”, defende Eduardo Sengo. Não que isto não esteja a acontecer. Mas os dados do Banco de Moçambique mostram que a transmissão ainda é lenta. Em Março de 2026, o crédito à economia crescia 2,9% em termos homólogos, depois de 2,5% em Fevereiro, e o banco central associa esta recuperação à descida da taxa de juro de política monetária (taxa MIMO), mas reconhece que esta continua condicionada pela recuperação lenta da actividade económica e pela percepção de elevado risco de crédito por parte dos bancos.

É, no fundo, um problema que ultrapassa a simples decisão administrativa do Banco Central. “Mesmo com dinheiro mais barato no mercado, os bancos podem continuar cautelosos perante empresas sem garantias suficientes, informação financeira robusta ou projectos considerados suficientemente seguros”, admite Moisés Nhanombe.
Os economistas defendem que o novo governador tem de usar a sua experiência e preparar terreno para que a escassez de divisas dê lugar à necessidade de gerir entradas muito maiores de moeda estrangeira
Quando o Estado e as empresas disputam o mesmo dinheiro
A segunda frente está relacionada com as necessidades de financiamento do próprio Estado. Para Moisés Nhanombe, o crescimento da procura por recursos no mercado doméstico reduz a disponibilidade dos bancos para financiar as empresas – e “limita parte relevante do potencial de crescimento do emprego”.
Eduardo Sengo segue na mesma linha, mas acrescenta uma dimensão que alimenta ainda mais a preocupação: “a descida das taxas de referência terá efeitos limitados sobre o financiamento à economia se as necessidades de financiamento do Estado continuarem a pressionar o mercado”. Por isso aponta que Navalha herda uma tarefa em que vários dirigentes do Banco de Moçambique tiveram dificuldades: encontrar o caminho que promova um “casamento perfeito” entre a política monetária e fiscal.
O câmbio para além da cotação
O terceiro desafio está no mercado cambial. Numa altura em que o País enfrenta uma escassez de divisas (que se arrasta há cerca de dois anos), a nova administração é desafiada a garantir que o mercado funcione de forma suficientemente previsível para empresas que precisam de divisas para importar, produzir e investir. “Não basta termos reservas internacionais. É preciso que as divisas sejam distribuídas de forma eficiente pelo sistema financeiro, de modo a responder às necessidades da economia sem criar novas pressões sobre as reservas”, sugere o economista Moisés Nhanombe. Eduardo Sengo olha para o problema a partir de outro ângulo. Aponta que a diferença entre a taxa praticada no mercado formal e os valores que resultam de transacções fora do circuito organizado deve merecer uma atenção especial de Felisberto Navalha. “É preciso corrigir esses desequilíbrios de forma gradual, evitando uma correcção brusca que possa alimentar a inflação”, alertou.
A questão ultrapassa a simples cotação do metical face ao dólar. Para uma economia dependente da importação de alimentos, combustíveis, equipamentos e matérias-primas, a disponibilidade de moeda estrangeira interfere directamente nos custos das empresas e, por essa via, nos preços pagos pelos consumidores.

Cuidado com a “doença holandesa”
No horizonte das receitas do gás – cuja actividade deve intensificar-se nos próximos anos com o possível arranque de novos projectos de exploração –, Eduardo Sengo identifica outro desafio para o Banco Central. “O País pode receber mais dólares e determinar como essas receitas entram na economia sem provocar uma valorização excessiva do metical e prejudicar a competitividade dos restantes sectores”, explicou Sengo. Trata-se de um fenómeno conhecido como “doença holandesa”, um dos mais temidos por todos os países ricos em recursos naturais.

Para enfrentar este risco, ambos os economistas defendem que o novo governador tem de usar a sua experiência em estudos económicos e política monetária e preparar terreno para que, progressivamente, a escassez de divisas que se observa actualmente dê lugar à necessidade de gerir entradas muito maiores de moeda estrangeira.

Texto Felisberto Ruco e Celso Chambisso • Fotografia D.R.





