Ildefonso Uchoane, Country Leader Partner da PKF Moçambique, quer reforçar o talento nacional e responder às exigências dos grandes projectos. Fala de auditoria, investimento, fiscalidade e inteligência artificial.

Os grandes investimentos estão a começar a gerar novas oportunidades para as empresas moçambicanas, mas também a elevar as exigências em matéria de auditoria, gestão financeira e cumprimento fiscal. Para Ildefonso Uchoane, Country Leader Partner da PKF Moçambique, esta procura já se faz sentir nas solicitações recebidas pela firma.

À frente de uma equipa composta por profissionais moçambicanos, quer consolidar a PKF como referência nacional em consultoria e criar mais oportunidades de progressão para o talento local. Identifica potencial de crescimento na auditoria, nos serviços fiscais, na contabilidade e no corporate finance.

Nesta entrevista à revista E&M, fala da preparação das PME para receber financiamento, do impacto da imprevisibilidade fiscal nas decisões de investimento e da utilização da inteligência artificial na auditoria. Defende que a tecnologia pode ajudar a identificar riscos e a tratar mais informação, mas que o julgamento profissional continua a ser indispensável.

Que PKF Moçambique pretende construir durante o seu mandato como Country Leader Partner?

Pretendo construir uma PKF Moçambique que valorize cada vez mais os recursos humanos locais, criando condições para que assumam posições de relevo no mercado nacional de consultoria. Quero também consolidar a firma como uma referência na prestação de serviços de consultoria em Moçambique.

“Apesar dos desafios próprios de uma economia ainda em amadurecimento, considero que as empresas nacionais estão preparadas”

Em que áreas vê maior potencial de crescimento nos próximos anos?

Vejo maior potencial na auditoria externa e nos serviços relacionados, na fiscalidade, na externalização da contabilidade e do processamento de salários, bem como no corporate finance.

O regresso dos grandes investimentos em energia e infra-estruturas está a criar novas necessidades
de consultoria?

Sem dúvida. A retoma dos grandes investimentos trouxe novas exigências para as empresas que prestam serviços a estas indústrias. Há uma procura crescente por firmas credíveis, com experiência e reconhecimento internacional, para realizar auditorias externas, assegurar a certificação legal de contas e prestar serviços de contabilidade e de cumprimento fiscal. Estas necessidades são particularmente relevantes no arranque da fase de implementação do projecto Mozambique LNG, na Área 1 da Bacia do Rovuma.

No caso da PKF, esta procura começou a ganhar expressão com as operações de produção em Pande e Temane e acentuou-se com o início da produção do projecto Coral Sul, na Área 4 da Bacia do Rovuma, em 2022.

Recebemos também solicitações de entidades nacionais e estrangeiras interessadas em estabelecer-se no País ou em obter apoio continuado para actividades ligadas à produção de energia eléctrica com base em fontes hídricas, solares e eólicas. O posicionamento de Moçambique como pólo energético regional tem sido importante para esta dinâmica.

O Coral Sul FLNG reflecte uma nova escala de exigências para as empresas que apoiam os grandes projectos

As empresas moçambicanas estão preparadas para cumprir os padrões de governação, qualidade e transparência exigidos pelos grandes projectos?

Apesar dos desafios próprios de uma economia ainda em amadurecimento, considero que sim. Observamos uma preocupação crescente, entre os nossos clientes e outras empresas, com o cumprimento rigoroso das regras internas e das exigências regulamentares.

Essa preocupação abrange a governação, a qualidade e a transparência, mas também a ética empresarial e as obrigações de prevenção do branqueamento de capitais e do financiamento do terrorismo.

Quais são as falhas de gestão financeira e fiscal que encontra com maior frequência nas PME?

Na gestão financeira, as falhas mais comuns são a deficiente segregação de funções, a ausência de planeamento estratégico e as deficiências dos sistemas de controlo interno.

Na área fiscal, é importante que as empresas preparem planeamentos fiscais numa base anual, cumpram atempadamente as suas obrigações e organizem a documentação antes de serem alvo de uma inspecção da Autoridade Tributária. Isso inclui, quando aplicável, o dossier de preços de transferência.

Como pode a PKF ajudar uma empresa moçambicana a preparar-se para obter financiamento ou receber um investidor estrangeiro?

O primeiro passo é compreender em detalhe as necessidades da empresa e as exigências de quem poderá financiá-la ou investir nela. As nossas equipas de contabilidade e fiscalidade ajudam a organizar a informação contabilística e fiscal para que possa ser analisada segundo os referenciais aplicáveis. Entre os mais solicitados estão as Normas Internacionais de Relato Financeiro, ou IFRS, e as normas específicas do sector segurador

Depois, as equipas de consultoria e corporate finance apoiam a empresa na análise dos benefícios fiscais, das isenções e de outras questões relacionadas com a sua actividade. Quando necessário, recorremos também aos nossos parceiros jurídicos para esclarecer o enquadramento legal da empresa e da operação pretendida.

Que mudanças estão a introduzir a inteligência artificial e a análise de dados no trabalho de auditoria?

Na PKF, estas tecnologias têm um papel cada vez mais relevante. Desde o início deste ano, contamos, através do escritório em Portugal, com uma área dedicada à inteligência artificial que trabalha em articulação com a equipa de auditoria para identificar novas aplicações ao longo do processo.

Estas ferramentas permitem analisar volumes maiores de informação, apoiar a recolha e o tratamento de dados, identificar padrões e potenciais áreas de risco e tornar alguns procedimentos mais eficientes.

Mas a tecnologia é um instrumento de apoio ao auditor. O sentido crítico, o cepticismo profissional e a capacidade de interpretar e questionar a informação continuam a ser fundamentais. O valor está na combinação entre a capacidade de processamento da tecnologia e a experiência e o julgamento do auditor.

Até que ponto a instabilidade e a falta de previsibilidade fiscal afectam as decisões de investimento em Moçambique?

Afectam-nas de forma significativa. Obrigam as organizações a dedicar recursos adicionais à revisão dos seus planos estratégicos, desde a concepção e o desenvolvimento do projecto até à implementação e exploração do negócio.

A recente reabertura da economia nacional mostra que há esforços para tornar Moçambique um destino mais atractivo para o investimento. Creio que é necessário continuar esse trabalho para reduzir os obstáculos que ainda retraem os investidores.

Como se traduz a dimensão internacional da rede PKF em vantagens concretas para um cliente em
Moçambique?

Traduz-se, sobretudo, na capacidade de responder com flexibilidade e rapidez. Mantemos uma relação próxima com escritórios da rede em Lisboa, Londres, Joanesburgo, Cidade do Cabo, Durban, Índia, Dubai e Angola.

A proximidade com os escritórios sul-africanos permite-nos encontrar soluções em tempo útil para necessidades especializadas dos clientes. A relação com Lisboa ajuda-nos a mobilizar diferentes competências em simultâneo. Podemos ainda recorrer à experiência de outros escritórios da rede para responder a questões que exigem conhecimento de vários mercados.

O que representa para si liderar uma firma composta exclusivamente por profissionais moçambicanos?

É motivo de orgulho e de gratidão para com a rede PKF, que acreditou na minha liderança para conduzir a operação em Moçambique.

Sei que é pouco comum encontrar profissionais locais a liderar escritórios de consultoria de redes multinacionais nos países africanos de língua portuguesa. Essa confiança aumenta a minha responsabilidade de assegurar a qualidade dos serviços, desenvolver a nossa equipa e respeitar os colegas, a concorrência, os reguladores e os princípios éticos da profissão.

Costuma dizer que “a consultoria é uma carreira e não um emprego”. Que compromisso espera dos profissionais da PKF?

Os meus colegas já conhecem bem essa frase. Espero que procurem compreender as necessidades dos clientes e mantenham o compromisso com a qualidade do trabalho. A PKF existe porque os clientes confiam nos serviços que prestamos.

A frase é também um conselho para quem está a começar: em consultoria, é importante dar prioridade à construção de uma reputação profissional sólida, em vez de procurar apenas ganhos financeiros imediatos. Com o tempo, as oportunidades podem surgir como consequência dessa reputação.

Texto e Fotografia • M4D