Maputo (O Destaque) – Em entrevista ao Jornal O Destaque, Raboco afirmou que a saída de Samaria Tovela e a nomeação de Edson Macuácua devem ser analisadas para além da simples mudança de titulares, por representarem um momento politicamente significativo para a governação e para a relação entre o Estado e a classe docente.

O académico ressalvou, contudo, que não existem elementos públicos suficientes para afirmar categoricamente quais foram as motivações da decisão, sublinhando que a proximidade entre as declarações da antiga ministra sobre o endividamento dos professores e a sua exoneração não comprova, por si só, uma relação directa entre os dois acontecimentos.

“Esta conjuntura de tensão entre o Governo e uma classe profissional bastante numerosa, os professores, há de ter pesado”, observou, apresentando essa interpretação como uma hipótese de análise política.

Para Raboco, a forma como Samaria Tovela se posicionou publicamente perante as reivindicações dos professores, sobretudo em relação ao pagamento das horas extraordinárias, poderá ter contribuído para agravar a tensão com a classe docente.

“A natureza dos discursos, as respostas que foi dando a esses problemas, são, tecnicamente falando, um fracasso absoluto”, afirmou, ao avaliar a actuação do Ministério da Educação e Cultura na gestão das preocupações dos professores.

O professor considera que a exoneração de dirigentes não deve ser confundida com a resolução dos problemas que afectam o funcionamento das instituições públicas.

Na sua análise, Moçambique tem seguido uma prática de substituir os titulares dos ministérios sem promover, necessariamente, reformas profundas nas estruturas administrativas e técnicas que sustentam a execução das políticas públicas.

“Tem sido hábito sistemático de sacrificar as cabeças e não reestruturar as restantes componentes”, declarou.

Raboco alertou ainda para a permanência prolongada de determinadas figuras nas estruturas ministeriais, defendendo a renovação de quadros e de métodos de trabalho como forma de evitar obstáculos à implementação de reformas, independentemente de quem esteja à frente do ministério.

Para o académico, a mudança da liderança ministerial deve ser acompanhada por uma revisão das estruturas internas, de modo a permitir que o novo titular tenha condições para executar as medidas necessárias à melhoria do sector.

Para além das questões de gestão, Ricardo Raboco identifica a instabilidade das políticas educativas como um dos desafios estruturais da Educação em Moçambique.

O professor aponta as alterações recorrentes nos modelos de formação de professores e nos currículos escolares como factores que dificultam a avaliação dos resultados das reformas implementadas.

“Estamos, ciclicamente, a mudar os modelos de formação de professores. Estamos, ciclicamente, a mexer nos currículos do ensino”, afirmou.

Segundo Raboco, a introdução frequente de novos modelos, sem tempo suficiente para acompanhar a sua aplicação e avaliar os resultados alcançados, limita a capacidade de determinar se as mudanças respondem efectivamente às necessidades do país.

O académico defende, por isso, que as políticas educativas devem ser avaliadas com base nos resultados da sua implementação, tendo em conta os desafios concretos do sistema de ensino e as necessidades dos alunos e professores.

O professor destacou igualmente a insuficiência de infra-estruturas escolares, de materiais didácticos e de outros recursos essenciais ao processo de aprendizagem, considerando que estas limitações condicionam a qualidade da formação.

Na perspectiva de Ricardo Raboco, a melhoria da Educação em Moçambique exige, assim, mais do que a nomeação de um novo ministro: requer reformas institucionais, estabilidade nas políticas educativas, investimento em infra-estruturas e mecanismos que permitam avaliar os resultados das decisões tomadas pelo Governo.