Maputo (O Destaque) — Há momentos na trajetória de um criador em que a arte deixa de ser um mero exercício estético para se converter num ato de libertação. No ecossistema criativo de Maputo, o projecto Gineceu III tem-se afirmado como esse divisor de águas, funcionando como um verdadeiro catalisador interno para a arte contemporânea no feminino. É nesta travessia entre a memória, o silêncio e a redescoberta que a artista moçambicana Reggie reescreve a sua própria narrativa visual, transmutando vivências pessoais numa linguagem de alcance universal.

Durante algum tempo, a pulsão criativa de Reggie esteve refém do ritmo sufocante do quotidiano e das ambiguidades da transição entre o design e as artes plásticas. Contudo, a residência artística do Gineceu III, decorrida na capital moçambicana, emergiu não apenas como uma oficina de aprimoramento técnico, mas como um espaço de acolhimento e provocação reflexiva.

“O Gineceu III não foi apenas um espaço de aprendizagem técnica, mas um catalisador interno. Durante algum tempo, o meu potencial criativo esteve silenciado pelo ritmo do quotidiano e pela transição entre o design e a arte visual, mas a residência atuou como um verdadeiro espaço de acolhimento e provocação”, desabafa Reggie. “O processo de mentoria desafiou-me a olhar para dentro sem medo, a libertar-me de bloqueios e a reconhecer que a minha linguagem artística tem valor e espaço. Ajudou-me a redefinir ambições porque me fez compreender que a arte não é um hobby que deixo para depois, mas sim o canal central através do qual me comunico com o mundo.”

Nesta busca pelas origens, o exercício de autorreflexão e fotografia revelou-se profundamente marcante. Ao confrontar o seu “eu” do passado a menina de infância marcada pela ausência paterna, Reggie resgatou a resiliência como elemento estruturante da sua génese. A incerteza de outrora deu lugar a uma afirmação consciente da sua identidade enquanto mulher e criadora moçambicana.

“Esse exercício de olhar para trás e projectar o futuro foi um dos momentos mais marcantes. Ao olhar para a menina inocente sem futuro, com infância marcada pela ausência da figura paterna, percebi o quanto a resiliência sempre esteve presente na minha génese”, partilha a artista.  “A incerteza do passado deu lugar a uma afirmação consciente de quem sou. A minha identidade enquanto mulher e artista moçambicana fortaleceu-se ao abraçar as minhas raízes, as memórias de infância e o papel da figura feminina na nossa sociedade. Como artista, deixei de apenas observar a minha história para passar a reescrevê-la e traduzi-la visualmente através das tintas e das formas.”

Na obra de Reggie, o quotidiano moçambicano surge intrinsecamente enraizado no espiritual. A vivência diária, o silêncio e a memória ancestral convergem em composições que funcionam como autênticos portais visuais para a exposição colectiva que marca a fase de apresentação do projecto em Maputo.

“Para mim, o quotidiano moçambicano é intrinsecamente espiritual; a forma como vivemos, os rituais diários, o silêncio, a memória dos que vieram antes de nós tudo carrega uma energia ancestral”, explica Reggie. “Nas obras que preparei para a exposição, estes conceitos traduzem-se no uso da cor, nas camadas de textura com tinta acrílica e óleo, e nas atmosferas que crio na tela. As composições funcionam como ‘portais’ visuais: cenas aparentemente simples do dia a dia ganham uma dimensão de transcendência através da luz e dos símbolos. Procuro que o público não veja apenas uma imagem, mas sinta a presença de algo mais profundo — a ligação entre o visível e o invisível, a matéria e a memória.”

Este amadurecimento plástico e concetual é também fruto do diálogo intergeracional e da solidariedade feminina experienciada ao longo do programa. A convivência próxima com mestres e pares da cena artística nacional marcou indelevelmente o seu processo de criação.

“Estar em contacto directo com figuras tão marcantes da nossa cultura foi um privilégio transformador. A orientação técnica e a generosidade da Professora Carmen Muianga ensinaram-me a disciplina do olhar e o rigor no processo pictórico, encorajando-me a ter coragem no gesto”, nota Reggie. “Por outro lado, a partilha com artistas e fotógrafas como Luísa Paula Nhantumbo e Yassmin Forte trouxe-me uma compreensão mais ampla da narrativa visual e do espaço que a mulher ocupa na arte contemporânea. Ver a dedicação, a vulnerabilidade e o profissionalismo destas mulheres serviu como espelho e inspiração. Mostrou-me que o nosso trabalho ganha força quando se desenvolve em rede e em solidariedade feminina.”

Fortalecida por plataformas institucionais de relevo com a chancela da Associação Kulungwana e o apoio da Embaixada da Noruega, Reggie projecta agora o seu trabalho para palcos internacionais, levando a essência da arte contemporânea moçambicana além-fronteiras.

“Este apoio institucional é fundamental para validar e catapultar o trabalho das artistas moçambicanas. A partir do momento em que temos plataformas sólidas como a Kulungwana e parceiros como a Embaixada da Noruega a investir na nossa criação, a fronteira deixa de ser um limite e passa a ser uma ponte”, conclui Reggie com otimismo. “Esta residência deu-me o rigor, a maturidade de portfólio e a confiança necessários para olhar para fora. Projecto a minha arte além de Maputo levando histórias que são profundamente nossas, mas que dialogam com questões universais sobre identidade, memória e feminilidade. Quero que a minha pintura e a minha visão artística circulem por galerias e residências internacionais, mostrando a força e a autenticidade da arte contemporânea feita por mulheres em Moçambique.”