É tempo de mostrar um cartão vermelho à violência e à intimidação. Proteger os jornalistas é proteger o direito dos cidadãos à informação. E um futebol que não respeita quem o observa, relata e questiona, dificilmente poderá afirmar-se como um verdadeiro espaço de cidadania, transparência e “fair-play”
O futebol é, por excelência, um espaço de paixão, espectáculo e união popular. Nos últimos tempos, a ida ao estádio representa muito mais do que o acompanhamento de uma partida: é uma manifestação de identidade colectiva, pertença clubística e convivência social. Contudo, esta dimensão festiva tem sido ensombrada por episódios de violência e intimidação, que colocam em causa os valores do desporto e o exercício da liberdade de imprensa.
O recente caso de intimidação e agressão verbal ao jornalista desportivo Rannylson Afonso, no Campo do Costa do Sol, durante o encontro entre o Maxaquene e o Ferroviário de Lichinga, volta a colocar esta problemática na ordem do dia. O episódio não deve ser encarado como um incidente isolado, mas como mais um sinal de alerta perante comportamentos que ameaçam a segurança dos profissionais da comunicação social nos recintos desportivos.
Outro caso, que merece ser recordado, ocorreu a 8 de Fevereiro de 2014 e envolveu o fotojornalista Juma Capela, profissional da Sociedade do Notícias. Ele foi agredido por indivíduos ligados à direcção da equipa de futebol da Liga Desportiva de Maputo, na sequência do encontro entre a formação moçambicana e o CNAPS de Madagáscar, referente às competições africanas de clubes, disputado no campo da equipa da Matola.
A agressão aconteceu numa área privada do recinto desportivo, depois de Juma Capela ter fotografado uma troca de palavras acesa entre um dirigente da Liga e um jogador numa das salas do complexo. Para além das agressões, o fotojornalista ficou temporariamente sem o seu equipamento de trabalho, que viria a ser restituído mais tarde.
O episódio demonstra que a intimidação aos profissionais da comunicação social no desporto não é um fenómeno recente. Mais do que isso, evidencia que as divergências entre jornalistas e agentes desportivos podem ultrapassar os limites do diálogo e respeito, atingindo directamente quem tem a responsabilidade de documentar os acontecimentos. Mesmo quando estão em causa regras de acesso a espaços privados, as divergências devem ser resolvidas por meios adequados, sem recurso à violência ou à intimidação.
A história do futebol moçambicano oferece outros exemplos que demonstram que esta preocupação não é nova. Em Abril de 2016, durante um jogo do Moçambola em Nacala, adeptos do Ferroviário local arremessaram pedras e outros objectos para o terreno de jogo, ferindo um jornalista e um massagista. Na sequência dos acontecimentos, o Conselho de Disciplina da Liga Moçambicana de Futebol interditou o campo ao público durante três jogos e aplicou uma multa de 20 mil meticais à colectividade. O episódio evidenciou que a violência nos estádios pode ultrapassar as fronteiras do relvado e atingir quem ali trabalha.
Outro caso ocorreu em Julho de 2017, no Estádio da Machava, depois do empate a uma bola entre o Ferroviário de Maputo e o 1.º de Maio de Quelimane. Segundo relatos da época, o fotojornalista Luís Muianga, que na altura trabalhava para este semanário, foi molestado por alguns dirigentes desportivos, que o obrigaram a apagar imagens captadas durante os momentos de confusão. O episódio constitui um exemplo particularmente preocupante de interferência no trabalho jornalístico, pois, para além da intimidação, procurou-se impedir a preservação de registos de acontecimentos de interesse público.
Estes antecedentes mostram que a intimidação não tem uma única origem nem se limita a adeptos exaltados. Pode envolver dirigentes, agentes de segurança ou outros intervenientes que, por diferentes razões, procuram condicionar o trabalho da imprensa. Independentemente de quem a pratica, a violência é incompatível com o direito de informar e com a obrigação de respeitar a integridade dos profissionais.
Importa recordar que o jornalista desportivo não está no campo para servir os interesses de um clube, agradar a dirigentes ou alimentar rivalidades. A sua missão é informar, questionar, analisar e escrutinar os acontecimentos com rigor e independência. A crítica jornalística, quando exercida com responsabilidade, não constitui uma provocação: é parte essencial do funcionamento de uma sociedade democrática.
Por isso, a responsabilidade de prevenir estes episódios deve ser assumida pela Federação Moçambicana de Futebol, pela própria Liga, pelos clubes e pelas autoridades competentes. É necessário reforçar os mecanismos de segurança, garantir condições adequadas para o trabalho dos órgãos de comunicação social e responsabilizar os autores sempre que os factos e a lei o justifiquem.
As notas de repúdio são importantes, mas insuficientes quando não são acompanhadas de medidas concretas. Os regulamentos disciplinares devem ser aplicados de forma coerente e as eventuais infracções criminais devem ser encaminhadas para as autoridades competentes. A prevenção exige também formação dos agentes de segurança, sensibilização dos adeptos e uma cultura desportiva assente no respeito.
O caso de Rannylson Afonso deve, por isso, servir de oportunidade para romper com a repetição destes comportamentos. Os episódios que envolveram Juma Capela, em 2014, Luís Muianga, em 2017, mostram que o problema atravessa diferentes épocas e envolve profissionais de vários órgãos de comunicação social. Não basta condenar a intimidação quando um episódio ganha visibilidade nas redes sociais e depois regressar à normalidade na jornada seguinte.
O futebol moçambicano precisa de campos onde se possa apoiar uma equipa, contestar uma decisão e celebrar uma vitória sem transformar a diferença de opiniões em ameaça. A liberdade de imprensa não pode depender do resultado de uma partida, da cor de uma camisola ou da influência de quem se sente incomodado por uma pergunta.
É tempo de mostrar um cartão vermelho à violência e à intimidação.
Um futebol que não respeita quem o observa, relata e questiona, dificilmente poderá afirmar-se como um verdadeiro espaço de cidadania, transparência e “fair-play”.



